Tudo tem dois lados #TB 10y #SP500



Confesso que ando meio tonto com a avalanche de números sobre o investimento em data centers. Valores de dezenas de bilhões de dólares já nem chamam mais atenção — o que impressiona agora são as projeções que somam vários anos de capex e chegam a trilhões. O problema é que essas bolas de cristal tentam prever algo que nem as próprias empresas sabem dizer com precisão: quanto efetivamente vão investir. O que me chama atenção é a concentração desse movimento. Eu imaginava que, a essa altura, já existiriam companhias fora do círculo das hyperscalers construindo seus próprios data centers, mas os valores envolvidos são tão elevados que faz mais sentido cada uma focar no seu negócio.

Fazendo um paralelo com o que acontece na guerra do Irã, está se formando uma espécie de estreito da inteligência artificial, por onde passa toda a demanda do setor — e quem controla essa passagem manda no preço. Ainda bem que não existe um monopólio, mas nada impede que, no futuro, se forme o cartel da IA. Estou viajando na maionese? Pode ser, mas fica o registro.

O assunto de hoje, no entanto, não é exatamente esse — é uma consequência dele: a alta generalizada dos juros. Já faz um tempo que os investidores atentos à carteirinha, o conceito que desenvolvi aqui no Mosca, tentam mapear quais setores da economia serão beneficiados pela IA e quais serão duramente impactados. Mas quase ninguém tinha parado para falar da escassez de capital que esse apetite está criando. Lembro que, num fim de semana de junho, a ficha caiu de vez e publiquei o post "a-bolha-vai-ficar-sem-sabão", quando me convenci de que a estrutura de juros não refletia esse cenário.

E a ficha caiu porque os juros longos estão atingindo máximas ao redor do mundo. Os artigos que recebo hoje confirmam isso com todas as letras. O rendimento do Treasury de 30 anos ultrapassou 5,3% nesta segunda-feira, o maior nível desde a véspera da crise de 2008, e o mesmo movimento se repete lá fora: os títulos japoneses de 30 anos romperam 4% pela primeira vez em 27 anos de existência, e os gilts britânicos equivalentes estão no maior patamar desde 1998.


The Only Way Is Up — artigo "The 30-Year Itch Comes for Bonds — and Brazil" (Bloomberg Opinion, John Authers): juros de 30 anos do Japão, EUA, Reino Unido e Alemanha nas máximas de décadas.]

Um estrategista do Barclays resume bem o que está em jogo: não é propriamente medo de inflação — as expectativas embutidas nos títulos seguem baixas e estáveis —, mas sim uma combinação de três fatores: a trajetória do déficit fiscal, a avalanche de emissões corporativas ligadas à IA e a mudança na base de compradores de Treasuries. As empresas estão disputando espaço com o governo pelo mesmo funil de capital, e isso empurra o prêmio de prazo para cima. Há um detalhe que considero essencial: a posse dos títulos está migrando de compradores oficiais, pouco sensíveis a preço, para investidores privados, que exigem retorno adequado ao risco. Essa mudança de perfil, segundo o mesmo estrategista, já responde por cerca de 90 pontos-base do prêmio de prazo dos Treasuries de 30 anos.

Robin Brooks, que acompanho com atenção, foi ainda mais direto ao batizar seu texto de hoje como "os mercados de bonds globais estão pegando fogo". Ele mostra que os juros forward de 10 anos daqui a 10 anos — a melhor forma de captar o prêmio de risco embutido no longo prazo — sobem em todo o G10, mas sobem mais onde o estoque de dívida é alto e a disfunção política é aguda. Japão lidera essa lista, seguido por Reino Unido, França e Itália; a Suíça, com sua disciplina fiscal, é a exceção que confirma a regra. Isso é exatamente o que venho repetindo aqui: o Japão carrega um problema estrutural maior que o dos demais, porque décadas de juros artificialmente baixos agora colidem, ao mesmo tempo, com a normalização monetária e com essa nova demanda de capital gerada pela IA. Na década de 90, George Soros colocou o Banco da Inglaterra de joelhos; seria uma boa aposta repetir a dose contra o Japão hoje, mas quem se aventurar vai precisar de um cacife muito, muito elevado — o Japão, ao contrário da Inglaterra daquela época, ainda tem bastante bala na agulha. Só não convém demorar demais para arrumar a casa.


Rise in 10y10y forward government bond yield since Aug. 7, 2026 — artigo "Global Bond Markets Catch on Fire" (Shadow Price Macro, Robin J Brooks): Japão à frente, seguido por Reino Unido, França e Itália.]

Do lado das ações, a Gavekal também já lista o excesso de captação como um dos cinco riscos ao ciclo virtuoso da economia americana: a emissão líquida de bonds e ações corporativas nos Estados Unidos, anualizada, está nas máximas da série, puxada pelo apetite de financiar a construção de data centers. A casa pondera que isso ainda não deve provocar uma venda generalizada de ações, porque o retorno sobre capital investido segue confortavelmente acima do custo de capital — mas reconhece que, se o capex continuar nesse ritmo, os juros de captação tendem a ficar proibitivos, ou a liquidez começa a secar, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Nem tudo, porém, é alarme. A Yardeni Research, que também acompanho, publicou hoje que ainda não é hora de apertar o botão do pânico: o rendimento do Treasury de 10 anos está perto de 4,73%, no topo da faixa dos últimos doze meses, mas dentro do intervalo de 4% a 5% que a casa considera compatível com uma economia e um mercado de ações saudáveis. Eles estão de olho nos "vigilantes dos bonds", mas por ora não veem motivo para pânico.

O título de hoje resume bem a realidade da vida — e aqui entro num terreno mais pessoal. Minha esposa, como a grande maioria das mulheres, tem dificuldade de aceitar que uma mesma decisão carregue coisas boas e ruins ao mesmo tempo; existe uma tendência de se prender ao lado ruim. Juro que não é machismo, é apenas uma característica que observo. E é exatamente isso que estamos vivendo agora no mercado: a IA está escancarando uma perspectiva de futuro fantástica, de alcance ainda difícil de mensurar, mas carrega consigo um lado ruim — uma demanda de capital sem precedentes, que está atormentando os juros longos do mundo inteiro e, por tabela, todos os ativos de risco.


Análise Técnica

Antes de analisar o S&P 500, quero fazer uma atualização dos juros de 10 anos, cujo acompanhamento é mais esporádico. No final de 2025, publiquei no post "o-mercado-sempre-ganha" minha projeção para o ano em curso: "minha previsão para 2026 é que o juro fique contido dentro da elipse em verde, entre 4,80% e 3,50%" — e foi o que se observou até agora. Tracei uma linha azul para identificar o inicio do ano.

Do ponto de vista técnico, mantenho minha análise: a área destacada no quadrado ainda não tem cara de um movimento impulsivo. Mas sugiro ficar de olho, pois em algum momento no futuro pode-se esperar taxas superiores a 5%.



No post "bonds-goela-abaixo" — que seria um bom título para o post de hoje também —, fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

"Quanto à superação do nível de 7.728 anotado no gráfico, ela ocorreu, mas não por muito, o que ainda exige cautela. Meu assistente técnico, Claude, classifica em 65%/70% a probabilidade de que a onda 2 vermelha tenha terminado."



Uma melhor reclassificação do movimento de curto prazo fez com que a contagem de curto prazo se alterasse. O detalhe implica que a correção da onda c laranja está em andamento e, como tal, deve parar em 7.740 (nível já ultrapassado na abertura) ou em 7.710 — abaixo disso, é preciso analisar. Se a visão para calcular a retração for pela onda 2 azul, o espaço para a queda é superior a esses níveis, pois, como mostra o gráfico abaixo, o nível de 7.678 é o menor nível esperado.



O mercado — o Mosca inclusive — estava esperando uma continuidade da alta, e ela pode ter sido postergada por alguns dias. Mas o mais interessante é observar os motivos que os noticiários usam para esse recuo: desenterraram até os argumentos da guerra contra o Irã. Como sempre, é preciso uma explicação, e qualquer ideia vale. Para mim, são os juros que, por princípio, sempre mudam o valor justo das ações; e, talvez neste caso, como não se sabe onde isso vai parar, um certo incômodo paira no ar.

O S&P 500 fechou a 7.691, com queda de 0,69%; o USDBRL a R$ 5,2155, com alta de 0,27%; o EURUSD a € 1,1575, sem alteração; e o ouro a U$ 4.334, com queda de 1,88%.

Fique ligado!

Comentários