O recheio do bolo #OURO #GOLD #EURUSD


Para quem acompanha ações não existe parâmetro mais divulgado que o P/L — o preço dividido pelo lucro. Numa rodinha de investidores, convencionou-se de forma simples traçar uma linha de corte: acima dela está cara, abaixo está barata. E essa linha varia conforme as condições econômicas do momento — crescimento, juros, inflação.

Olhando essa medida com calma, o preço é a parte visível e real da equação: varia a cada minuto de negociação, todo mundo vê. Já o lucro é mais escorregadio — o que ele contempla, exatamente? No passado usava-se o lucro já publicado pela empresa; hoje, a projeção feita pelos analistas. Mas dá para ir além e separar esse lucro em duas partes. A primeira é a continuidade pura e simples do que a companhia já faz hoje — se ela ganha US$ 2 por ação e consegue sustentar esse patamar de forma estável, isso é o chão do valor, o que os acadêmicos chamam de “steady state”. A segunda parte é a opção de fazer investimentos futuros que criem valor além desse chão. A essa segunda fatia se dá o nome de PVGO — present value of growth opportunities, valor presente das oportunidades de crescimento —, conceito cunhado nos anos 1970 por Stewart Myers, um economista financeiro.

O leitor pode perguntar: para que serve saber disso? Lucro é lucro, tanto faz como foi gerado. Eu discordo. Separar quanto do preço já está pago pelo lucro que existe hoje e quanto está sendo apostado num lucro que ainda não existe me dá uma régua de quanta expectativa está embutida na cotação. É a diferença entre comprar algo pelo que já entrega e comprar algo pelo que promete entregar.

Como se calcula isso na prática? Pega-se o lucro operacional da empresa nos últimos doze meses e desconta-se o efeito dos impostos — chegando ao que o mercado chama de NOPAT. Esse valor é então capitalizado, ou seja, dividido pelo custo de capital da empresa, uma espécie de taxa que reflete o risco do negócio: quanto mais arriscado, maior a taxa, menor o valor capitalizado. O resultado é o “steady state”: quanto a empresa valeria se, a partir de hoje, nunca mais crescesse um centavo, apenas mantivesse o lucro atual para sempre. Ajusta-se esse número pela dívida líquida da empresa — soma-se caixa, subtrai-se dívida — e chega-se ao valor de equity sustentado pelo presente. Qualquer diferença entre esse número e o valor que o mercado paga pela ação na bolsa é o PVGO: a fatia do preço que só se justifica se a empresa crescer como promete.

Um estudo recente do Morgan Stanley aplicou essa régua ao S&P 500 desde 1961. Na média histórica, o PVGO respondeu por 35% do preço do índice, e o “chão” por 65%. Houve momentos de expectativa quase nula (1974, 2011) e picos de euforia (1999, 2001). No fechamento de 2025, a métrica estava bem acima da média histórica.


Exhibit 1 — “PVGO Percentage for the S&P 500, 1961-2025” — artigo “Opportunities and Expectations”, Morgan Stanley / Counterpoint Global, 18/jun/2026]


Curioso, resolvi rodar essa mesma conta em duas empresas que moram no centro do debate sobre a bolha de inteligência artificial — e que, não por acaso, já batizei aqui de teracórnios.

Comecei pela Nvidia. Usando lucro operacional dos últimos doze meses, ajustado pela alíquota efetiva de impostos, e capitalizando pelo custo de capital estimado da empresa — que carrega um beta elevado, típico de uma ação de alta volatilidade —, cheguei a um PVGO de aproximadamente 79% do preço atual. Ou seja: só cerca de 21% da cotação da Nvidia está sustentado pelo lucro recorde que ela já entrega hoje. Os outros 79% são uma aposta — generosa — de que o crescimento vai continuar no ritmo espetacular dos últimos trimestres. É um número alto, mas coerente com a própria história recente da empresa, que já operou nessa faixa de 70% a 80% em vários momentos desde 2016, como mostra o gráfico abaixo. Aproveito para incluir esse indicador de outras empresas.


Exhibit 6 — painel “NVIDIA Corp” de “PVGO Percentages for the Stocks of Selected Companies” — artigo “Opportunities and Expectations”, Morgan Stanley / Counterpoint Global, 18/jun/2026]


Depois fui atrás da SpaceX, que acabou de estrear na bolsa em junho — o maior IPO da história — e hoje vale cerca de US$ 1,8 trilhão. Aqui a conta ganha um contorno diferente e revelador: a empresa, consolidada, ainda dá prejuízo — puxado sobretudo pelos investimentos pesados da divisão de inteligência artificial herdada da fusão com a xAI. Quando o lucro operacional é negativo, a fórmula do “steady state” também fica negativa, o que empurra matematicamente o PVGO para além de 100% do preço. Na prática: não existe hoje nenhum lucro presente sustentando a cotação da SpaceX. O preço inteiro — e um pouco mais — é fé em algo que ainda não apareceu no resultado. É o mesmo padrão que a Amazon exibiu entre 1998 e 2001, quando também operava no vermelho e seu PVGO passava dos 100%.

A comparação entre as duas é o ponto que eu queria chegar. Mesmo dentro do mesmo clube de teracórnios movidos a inteligência artificial, há uma diferença enorme entre uma empresa que já entrega parte do que promete — a Nvidia, com 21% do preço ainda ancorado em lucro presente — e outra que está sendo precificada inteiramente na esperança, sem nenhum lastro de resultado atual, como é o caso da SpaceX neste momento.

E é aqui que a metáfora do bolo me parece perfeita. Olhar apenas o P/L de uma ação é como julgar um bolo pela cobertura de chocolate: bonita, brilhante, mas não diz nada sobre o que tem dentro. O PVGO é o garfo que corta o bolo ao meio e mostra o recheio — se tem um doce de leite generoso sustentando aquela cobertura, ou se é só massa sem gosto, disfarçada por uma boa camada de glacê.

Análise Técnica

No post “Zumbis com CNPJ” fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

“O ouro está caminhando bem pela minha contagem: a seguir, nota-se a formação de três ondas. Seguindo esse script, a onda 4 laranja estaria em formação e, quando finalizada, o metal deveria atingir o nível de US$ 4.670 — embora as ondas cinco em commodities tendam a ser estendidas, o que resultaria num patamar superior.”



O ouro está prestes a completar cinco ondas, que se pode observar numa janela de duas horas. Usando essa métrica, abre-se um objetivo adicional em US$ 4.550, ou o que apontei acima. O mercado se animou com o anúncio do Tesouro americano de trocar títulos longos por títulos curtos, como comentei ontem. A partir de agora, vou ficar atento para sugerir um trade de compra. Acompanhem o Mosca.



Em relação ao euro, comentei:

“O pessoal não está tão animado com o euro quanto com o ouro, que costumam andar juntos... O gráfico da moeda única não é nada animador, o que tem ocorrido na grande maioria do tempo. A ideia de debasement, tão badalada na mídia, não seria com essa moeda — agora, se não é com ela, quem poderia ser?”



A moeda única também se animou ontem e deu um salto suficiente para que se possa contar cinco ondas em azul no gráfico. Pelos cálculos, ainda faltaria uma pequena alta para completar cinco ondas no gráfico de duas horas, atingindo € 1,1741 — friso que não é necessário. Como no caso do ouro, pode surgir uma oportunidade de trade.



Sobre o debasement, Robin Brooks, que vem prevendo uma queda do dólar há tempos, viu o movimento de ontem reforçar seu argumento e publicou um relatório com fundamentos para essa tese.

Ontem, o Tesouro americano surpreendeu o mercado ao anunciar um aumento nas recompras de títulos de prazo mais longo. Para Robin Brooks, o gesto carrega dois recados: primeiro, que a alta recente dos juros longos — que haviam chegado ao maior nível em mais de vinte anos — já cruzou um limiar de dor considerável para os cofres americanos; segundo, e mais grave, que não há qualquer disposição de atacar o problema de fundo, que é uma política fiscal fora de controle. Na leitura dele, a recompra é apenas engenharia financeira para maquiar o estresse crescente no mercado de títulos, sem resolver a causa.

Brooks vê nesse movimento o sinal mais claro até agora de que os Estados Unidos estão trilhando o mesmo caminho do Japão rumo à desvalorização da própria moeda: ao tentar conter os juros sem equacionar o fiscal, o país empurra o problema para o câmbio, e uma crise de dívida se transforma em crise cambial — o mesmo mecanismo que há anos corrói o iene. O mercado reagiu na mesma direção: o dólar caiu para o menor nível do ano contra as moedas emergentes, o “trade de debasement” voltou a ganhar força desde a reunião do Fed em 29 de julho, e ouro e outros metais preciosos dispararam. Para Brooks, uma vez que essa espiral de desvalorização começa, a experiência japonesa mostra que pode ser quase impossível revertê-la.



“Trade-weighted Dollar against G10 and EM currencies” — artigo “Dollar Debasement Has Begun”, Robin J Brooks / Shadow Price Macro, 20/ago/2026]

O S&P 500 fechou a 7.641, com queda de 0,87%; o USDBRL a R$ 5,1931, com alta de 0,30%; o EURUSD a € 1,1677, sem alteração e o ouro a U$ 4.522, sem alteração.

Fique ligado!

Comentários