O Mosca discorda do mercado #10y #Nasdaq100 #NVDA
Primeiro ponto, e talvez o mais importante: o mundo saiu de um longuíssimo período de juros artificialmente baixos, e só por isso já seria necessária uma reprecificação. A pandemia trouxe de volta a inflação, que agora se acomodou num patamar que prefiro chamar de mínimo, não de ameaça. O crescimento global segue em bases sólidas, turbinado pela nova tecnologia de inteligência artificial, que acelerou a demanda por capital numa velocidade que pegou muita gente de surpresa. Some a isso o déficit público americano, que continua elevado e pressiona os juros por pura questão de oferta, e os conflitos geopolíticos que mexeram com a cadeia do petróleo. Reunidos, esses quatro fatores explicam perfeitamente a alta de juros que estamos vendo — sem qualquer necessidade de recorrer a teorias mais dramáticas.
Se você concorda comigo até aqui, é natural que a taxa de juros sofra o impacto tanto da inflação mais alta quanto do juro real mais alto. E aqui vai um detalhe que faz toda a diferença: o juro está subindo pelo motivo certo, não pelo motivo errado. O choque do petróleo tem efeito temporário nos preços; não estamos diante de uma espiral inflacionária fora de controle.
Vou repetir quantas vezes for preciso: não vejo problema algum no juro de 10 anos rodando perto de 5%. Então por que Wall Street está em polvorosa? Falta de vivência. Noventa por cento dos operadores de mercado se acostumaram com juro zero e simplesmente não sabem lidar com uma mudança de cenário — e, por princípio, detestam mudança de cenário. É natural, e até saudável, que o juro longo fique acima do juro curto; o mercado chama isso de steepening, um processo normal de inclinação da curva. Não tem nada a ver com "debasement", como alguns analistas querem fazer crer — pelo menos ainda não. A diferença entre o juro de 10 anos e o de 2 anos está em torno de 50 pontos-base, o que, na minha vivência de mercado, é perfeitamente normal. Já presenciei esse diferencial chegar a 200 pontos-base sem que isso significasse o fim do mundo. E não custa lembrar: os juros de 30 anos acabaram de bater a máxima desde 2007 — número que assusta quem não viveu ciclo de juros nenhum antes deste.
Dito isso, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, resolveu colocar a cara no mercado e bancar o operador no momento errado, na minha opinião. Anunciou um aumento nas recompras de títulos longos — para algo perto de US$ 32 bilhões por trimestre, o dobro do que vinha praticando — numa tentativa mal disfarçada de segurar os juros mais longos sob o disfarce de "suporte de liquidez". O gráfico abaixo, extraído de um dos relatórios que recebi, deixa isso claro: o volume que o Tesouro pretende recomprar é ínfimo perto da colocação líquida de títulos de 20 e 30 anos prevista para o trimestre, que gira em torno de US$ 97 bilhões líquidos. Ou seja, o gesto é muito mais simbólico do que efetivo — e ainda assim virou munição contra o próprio Bessent: o mercado o escolheu como culpado.
"US Treasury plans to sell net $97bn of long-bonds into the market" — fonte: US Treasury / Financial Times, extraído do roteiro "O Mosca discorda do mercado"]
Os artigos que recebi mostram como esse desconforto se espalhou. Robin Brooks, do Shadow Price Macro, descreve o retorno do que ele batizou de "debasement trade": ouro, prata e moedas de países com pouca dívida voltaram a subir, e o dólar cedeu depois do anúncio das recompras — movimento que, segundo ele, tende a se intensificar. O gráfico que reproduzo a seguir mostra bem esse movimento desde agosto do ano passado, quando o então presidente do Fed deu o discurso mais dovish de Jackson Hole: metais preciosos e petróleo dispararam, enquanto o dólar cai de forma consistente desde o anúncio das recompras.
Comparativo S&P 500, ouro, prata, bitcoin, dólar (DXY) e Brent, indexados a 100 em 21/08/2025 — fonte: Haver Analytics, extraído do artigo de Robin Brooks, "The Debasement Trade Takes Off"]
Bill Dudley, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York, vai além e defende que a bolha acionária americana pode estourar antes do fim de 2027, à medida que o impulso do investimento em IA perder força. Jonathan Levin resgata o precedente de 1951 — quando Tesouro e Federal Reserve protagonizaram um confronto público — para sugerir que as manobras de Bessent podem estar minando a autoridade do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, empossado há apenas três meses. E tanto o Wall Street Journal quanto Greg Ip lembram que a dívida pública americana acabou de ultrapassar US$ 40 trilhões — um patamar comparável, como proporção do PIB, ao visto na Segunda Guerra Mundial —, alimentando a percepção, ainda que contestável a meu ver, de que os títulos do Tesouro estão perdendo seu histórico status de porto seguro.
"U.S. public debt outstanding" (dívida intragovernamental vs. dívida em poder do público, 2010–2026) — fonte: Treasury Department, extraído do artigo do Wall Street Journal, "U.S. Debt Just Topped $40 Trillion: How We Got Here"]
Recebi também a leitura de Ed Yardeni sobre o mesmo episódio, e ela reforça meu ponto de vista. Yardeni é da velha guarda, como eu — acompanha mercado há décadas e não se impressiona com esse tipo de sobressalto. Segundo ele, o objetivo das recompras não é derrubar os juros, e sim estabilizar o funcionamento dos leilões do Tesouro — inclusive o de 20 anos realizado nesta semana — recomprando papéis mais antigos e menos líquidos dos dealers primários. Yardeni mantém o cenário-base de que o juro de 10 anos deve permanecer entre 4% e 5% até o fim do próximo ano, e lembra que a economia americana segue bem: os indicadores coincidentes bateram recorde em julho, os pedidos de seguro-desemprego seguem controlados e as margens das empresas continuam subindo a níveis recordes. Ou seja, nada na dinâmica atual sustenta o tom apocalíptico de quem já vem anunciando uma crise de dívida há anos.
"10-Year US Treasury Bond Yield vs 10-Year TIPS Yield" — fonte: LSEG Datastream / Yardeni Research, extraído do artigo de Ed Yardeni, "Freaking Out Over The Bond Market"]
Reconheço todo esse pano de fundo. Discordo, porém, da conclusão apressada de que estamos diante de um processo de desvalorização deliberada da moeda americana. No curto prazo, é bem possível que os juros ainda subam mais — não tenho bola de cristal para descartar isso. O que não compro é a narrativa do fim do dólar como referência global só porque um secretário do Tesouro tentou, de forma canhestra, mexer no funcionamento normal da curva. Os investidores continuam comprando Treasuries, mesmo sabendo que a oferta de títulos só tende a crescer, e isso por si só já derruba boa parte da tese do fim do porto seguro. Enquanto o diferencial entre o juro longo e o juro curto permanecer nesses patamares — e repito que já presenciei esse número bater 200 pontos-base sem que isso representasse catástrofe alguma — sigo firme na minha afirmação: o mercado está errado.
Análise Técnica
No post "2075: um-chute-sobre-o-futuro", sobre a Nasdaq100 fiz os seguintes comentários: "Consigo contar cinco ondas na área demarcada no triângulo amarelo. Segundo essa opção, e observando numa janela de duas horas, a onda 5 deveria terminar próximo do ATH em 3.070, talvez um pouco acima. Nessas condições, uma onda 2 deveria retroceder parte dessa última alta."
"Se tudo estiver correto, o objetivo da onda 1 laranja seria ao redor de US$ 240. A publicação de resultados da Nvidia é dia 26/08, ainda oito pregões à frente."
Meus argumentos se basearam nos dois gráficos abaixo: as margens obtidas pelas empresas americanas e o fluxo de recursos.
O S&P 500 fechou a 7.674, com alta de 0,44%; o USDBRL a R$ 5,1435, com queda de 1,04%; o EURUSD a € 1,1677, sem variação; e o ouro a U$ 4.6161, com alta de 2,15%.
Fique ligado!
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