Você acerta por sorte ou competência #Strategy #IBOVESPA
Eu seria injusto com a academia se não desse importância ao fundamento. Ele está sempre presente, mas já faz um bom tempo que deixou de ser o principal para mim. Vou dar um exemplo prático: ao observar a situação fiscal do Brasil, eu diria que apostar contra o real seria a opção mais atrativa em termos de preço. Os leitores são testemunhas de que venho buscando um ponto de entrada usando a análise técnica, mas ele ainda não apareceu. Esse é um caso típico em que o fundamento aponta para um lado e o técnico ainda não confirma, e para mim esse último tem muito mais peso na hora de apertar o gatilho.
Essa disputa entre fundamento e técnico ganhou um capítulo novo com a inteligência artificial, e a Bloomberg fez um retrato interessante disso. A reportagem mostra investidores individuais tentando replicar em casa o que fundos como Millennium e Citadel fazem com exércitos de doutores: um deles passou mais de um ano programando um sistema automatizado de opções, sem resultados melhores que um simples fundo de índice, até reconstruir o modelo com testes mais rigorosos e limites de perda; outro conectou um painel de IA à própria conta de corretora e diz ter lucrado mais do que conseguia sozinho, sem precisar acompanhar o mercado o dia inteiro; um terceiro terceirizou as decisões para um agente de IA, alegando que a máquina remove o viés e o medo que um ser humano carrega em cada operação. Não sei dizer se esses modelos caseiros vão de fato dar certo no longo prazo, mas, olhando para o que aconteceu com a indústria de fundos — inclusive os hedge funds —, não me parece uma boa ideia querer copiar o que eles fazem. A reportagem cita justamente Millennium e Citadel como referência, mas talvez quem escreveu não saiba bem o que esses fundos fazem na prática: eles alocam capital entre dezenas de gestores internos, com um modelo constante de entrada de quem performa bem e saída de quem não entrega. É uma estratégia inteligente, porque captura o lado bom de cada gestor e descarta assim que o resultado começa a piorar — e é justamente isso que esses investidores amadores não conseguem fazer sozinhos, sem estrutura para substituir rapidamente o que não funciona.
Esse movimento de amadores virando “hedge funds” caseiros não é isolado. Ele se encaixa num quadro maior de migração de capital que venho acompanhando: os fundos tradicionais estão perdendo espaço para os ETFs. Nos últimos dez anos, saíram cento e setenta bilhões de dólares dos fundos multimercado na América do Norte, enquanto os ETFs captaram mais de sete trilhões de dólares desde 2016. A explicação não é mistério: replicar índice custa pouco e entrega, na maioria das vezes, o que a maioria dos gestores ativos não consegue de forma consistente. Quem acerta, acerta por um tempo; ser vencedor por um período curto não paga as taxas de administração no longo prazo. Não é à toa que os ETFs fazem tanto sucesso no mercado americano.
Falando em gestão duvidosa, Michael Saylor, da Strategy, finalmente deu um passo positivo. A empresa vendeu 333,7 milhões de dólares em ações ordinárias para recomprar ações preferenciais e reforçar o caixa, não para comprar mais bitcoins. Não houve nenhuma movimentação na criptomoeda nos sete dias encerrados em 16 de agosto, e a empresa não compra bitcoin desde meados de junho. É um passo só um pouco positivo, porque o ideal seria vender parte dos bitcoins para financiar a recompra. Mas talvez Saylor esteja percebendo, ainda que tarde, que o modelo de acumulação infinita não está funcionando como antes. Se ele continuar nesse caminho, os acionistas vão perceber que, no limite, a Strategy se parece cada vez mais com um ETF de bitcoin, só que com custos muito mais elevados. Acredito que todo esse esforço para sustentar a estrutura, no fim, será em vão.
Volto então à pergunta do título. É muito mais prazeroso atribuir o acerto à competência do que admitir a sorte, porque isso pode soar como se você tivesse jogado uma moeda para o ar e ela tivesse decidido por você. Mas posso garantir: se você não for honesto consigo mesmo nessa avaliação, o ego vai te custar dinheiro. Ao fechar um trade, faça esse balanço com sinceridade. Com o tempo, acredito que você vai chegar à mesma conclusão que eu. É o mesmo motivo pelo qual tantos gestores profissionais, com toda a estrutura e o Ph.D. ao lado, não conseguem repetir o desempenho ano após ano. Acertar uma vez é sorte disfarçada de talento; acertar sempre é outra história. Exige um modelo, disciplina e, acima de tudo, gestão de risco. Não adianta tentar recuperar perdas aumentando o volume das apostas, nem sair atrás daquela tacada que resolve a vida de uma vez só — isso, quando dá certo, é muita, muita sorte. É aí que mora a diferença entre um trader e um sobrevivente.
Análise Técnica
No post “nvidia-garante-galera” fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:
“Nessa nova hipótese, a onda C laranja pode terminar em 160 mil (-4%) ou ao redor de 150 mil (-6%); usei símbolos em laranja para identificar. Muito importante: se a bolsa cair precipitadamente e continuar na descendência, atingindo 119,5 mil, meu cenário de ainda uma alta fica comprometido, e terei que refazer minhas hipóteses.”
Como comentei acima, no cenário em que trabalho, a bolsa ainda teria uma queda pequena a partir dos níveis atuais. Embora não tenha atingido o primeiro patamar de 160 mil, a correção pode ter terminado — grifei o “pode”: não estou insinuando que terminou.
Como se posicionar? Por enquanto, observar. Se estamos no movimento de alta, duas coisas devem acontecer: ultrapassar os níveis de 174 mil e 178 mil, e apresentar cinco ondas em uma janela menor. Por outro lado, se a queda está em curso, deve voltar a cair sem que os níveis acima sejam ultrapassados — um detalhe técnico: para eliminar a chance de novas quedas, o patamar de 180,6 mil deve ser ultrapassado.
O S&P 500 estava as 16h30 a 7.719, com alta de 0,36%; o USDBRL a R$ 5,1711, com queda de 0,91%; o EURUSD a € 1,1678, com alta de 0,89%; e o ouro a U$ 4.508, com alta de 4,01%.
Fique ligado!
Comentários
Postar um comentário