Opinião acima da realidade #USDBRL

 


Durante minha vida profissional sempre convivi com economistas ao meu lado. Essa convivência me ensinou a ter muita cautela com previsões e me fez cunhar uma frase que uso há décadas: economistas mudam de opinião como eu mudo de camisa. Não sei se essa é também a experiência de vocês, mas talvez o motivo esteja na própria natureza da economia, que não é uma ciência exata. Ela conjuga econometria, disciplina forte em estatística, com inferência sobre comportamento humano, e essa mistura abre espaço para opiniões que soam técnicas mas carregam, na origem, uma dose de convicção pessoal.

Por que essa ressalva hoje? Eu gosto muito e respeito o trabalho de Robin Brooks, que acompanho diariamente e cujos relatórios recebo pela manhã. Mas ultimamente sinto que suas colocações estão mais enviesadas do que de costume. Ele realiza dois calls nos finais de semana sobre os temas mais recentes e, neles, percebo com clareza como busca justificar posições já tomadas, não construir uma leitura nova a partir dos dados.

Atualmente ele está com uma ideia fixa: o "debasement trade", a tese de que o dólar está estruturalmente condenado a perder valor e o ouro, a subir sem parar. Na minha avaliação, os movimentos recentes de mercado não justificam esse entusiasmo todo. No material que recebi neste fim de semana, ele defende que o discurso "hawkish" de Kevin Warsh em Jackson Hole na sexta-feira não passou de teatro, uma tentativa de conter a alta dos juros longos sem qualquer intenção real de apertar. Na leitura dele, Tesouro e Fed estão selando um novo acordo para manter os juros artificialmente ancorados. É uma tese até interessante, mas ele a repete de tal forma, em post após post, que carimba antes de testar.

Vale abrir um parêntese sobre a recompra de títulos longos anunciada pelo Tesouro americano na semana passada, sob o comando de Scott Bessent. Para Brooks, é prova de que Washington está disposta a intervir no mercado de juros para segurar o custo da dívida, como já fazem Japão e parte da Europa. Ele também nota que o mercado não precifica prêmio de risco fiscal algum nos Treasuries frente ao G10, mesmo com a dívida americana crescendo mais rápido que a dos pares ricos, algo que considera preocupante, pois sem esse sinal os formuladores de política não têm incentivo para corrigir rota. Discordo do tom apocalíptico, mas esse ponto específico é o mais sólido da sequência de posts do fim de semana.

Há um detalhe que chama atenção nesse conjunto de posições: a insistência de Brooks em citar seu tempo como estrategista-chefe de câmbio do Goldman Sachs sempre que precisa reforçar a própria autoridade. Pesquisei essa passagem da carreira dele: não há nenhum episódio público, prejuízo relevante, escândalo ou saída forçada que explique por que deixou o banco em 2017 rumo ao IIF. O que existe é uma coincidência pouco lembrada: justamente nos anos em que comandava a mesa de câmbio, a divisão de FICC do Goldman atravessava sua pior fase em quase uma década, com quedas de receita de até 47% num trimestre e a própria instituição admitindo, em 2017, más apostas em commodities e câmbio. Não afirmo que a queda seja dele, a área é ampla e a atribuição individual é impossível a distância, mas soa, no mínimo, curioso que o crachá da Goldman vire selo de autoridade justamente sobre um período de fraqueza estrutural naquela mesa.

Sigo no roteiro do fim de semana. Sobre a posição de que o dólar está em queda livre, Brooks prefere, em vez do índice DXY tradicional, comparar a moeda americana com uma cesta de moedas de países emergentes, o que reforça visualmente sua tese. Não me parece razoável. O mercado global de câmbio negocia hoje cerca de US$ 9,6 trilhões por dia, segundo o levantamento trienal do BIS, e o dólar está presente em 89% de todas essas operações; o euro, segunda moeda mais negociada, aparece em menos de 29%. Câmbios de emergentes não chegam perto disso. Escolher a régua que confirma a tese, em vez da régua que o mercado de fato usa, é um viés metodológico clássico.

O próprio Yardeni reforça esse contraponto, e, nesse ponto específico, sua leitura se aproxima bastante da minha. Em relatório publicado no mesmo fim de semana, ele afirma seguir "no campo construtivo" quanto ao dólar e diz não comprar a tese de desdolarização. Segundo ele, o DXY chegou a tocar mínima de três meses após a intervenção do Tesouro na ponta longa dos Treasuries, mas o dólar segue relativamente estável frente às economias desenvolvidas e vem se fortalecendo frente às moedas emergentes há décadas, o inverso do enfraquecimento generalizado que o "debasement trade" pressupõe. É sintomático que o próprio gráfico usado por Yardeni para mostrar essa força cambial contra emergentes cubra três décadas, não semanas. Brooks, ao contrário, costuma trabalhar com janelas curtíssimas, às vezes um único evento, como o discurso de Warsh, e eu nem sei ao certo qual é a composição exata da cesta de moedas emergentes que ele usa para sustentar a tese do dólar em queda livre; isso por si só já deveria acender um sinal de alerta.



Índice de moedas de mercados emergentes vs. dólar, escala invertida (1996–2026). Artigo de origem: "GLOBAL MARKETS CALL: Bull Market In Stocks Despite Bear Market In Bonds", Ed Yardeni & Toby Hearst (Yardeni QuickTakes), 30/08/2026.]


Sobre o ouro, que caiu US$ 160 por onça na sexta-feira logo após o discurso de Warsh, Brooks simplesmente descarta o movimento como ruído, quase uma negação da realidade, para usar seus próprios termos contra ele. É interessante contrastar essa leitura com a de Ed Yardeni, que também é otimista com o metal e mantém meta de US$ 5.000 até o fim do ano, mas reconhece a queda, nota que o ouro segue abaixo da média móvel de 200 dias e trata a correção como parte do quadro, não como algo a ser varrido para debaixo do tapete.



Preço do ouro (escala log) vs juro real de 10 anos, 2000–2026. Artigo de origem: "Will a September Hike Hurt Gold?", Robin J Brooks (Shadow Price Macro), 30/08/2026. 


O leitor pode se perguntar por que escolhi esse assunto hoje: estaria com raiva porque as projeções de Brooks divergem das minhas? Não é o caso. Posso ter viés, todos temos, mas existem economistas igualmente renomados, como o próprio Yardeni, que não compartilham desse mesmo entusiasmo. Meu ponto central é outro: previsões são apenas previsões, e mesmo vindas de profissionais muito qualificados, com currículo de peso em bancos centrais e grandes bancos, podem simplesmente não se confirmar.

Quando situações assim aparecerem no caminho de vocês, ouçam, e avaliem se vale a pena mudar de posição ou esperar a realidade indicar quem está certo. Eu, particularmente, prefiro sempre a segunda opção. E, claro, isso depende do tamanho da própria convicção.


Análise Técnica

No post "curto-circuito-na-política-monetária" fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

"O dólar acabou não atingindo nem uma coisa nem outra e está estagnado em um intervalo restrito (...) Na parte superior, ultrapassar R$ 5,2622 aumenta as chances de um ciclo de alta; abaixo de R$ 5,00, o contrário. Fora isso, não há o que fazer."



Mais uma semana sem direção, mas bem próximo do nível superior. Essa inação parece combinar com o cenário atual: sentimento ruim pela proximidade das eleições e a dianteira de Lula, com o fluxo proveniente das transações comerciais suplantando o fluxo financeiro negativo.

O nível de endividamento cresce de forma exponencial com o nível de juros praticados. Noto um esforço do atual Ministro das Finanças em se comprometer a cortar gastos. Por um lado, nem sabemos se ele seria o escolhido no próximo governo; por outro, foi prometido tantas vezes antes e não cumprido, que agora ninguém acredita. Vale a frase "não basta ser comprometido, precisa parecer comprometido", a frase original é "ser honesto", mas essa não dá para colocar, né! Sobre o dólar, repito o comentário acima.



"David, suas previsões estão parecendo os livros de autoajuda do Augusto Cury, que na entrevista da Rede Globo foi um horror na minha visão, mas faturou muitos adeptos, como mostra pesquisa publicada hoje. Acho melhor você se posicionar por um lado para não perder leitores!"

Você sabe bem meus critérios para sugerir trades: só entro quando tenho boas chances de sucesso, e mesmo assim algumas dão errado. Não tenho obrigação de ter posição para competir com os concorrentes, como acaba acontecendo no mercado de fundos. No mercado financeiro, a maior parte do tempo é melhor não ter posições; quando ocorrem as correções, somente nos movimentos direcionais é recomendado entrar.

Na cara ou coroa não faço nada, é preciso paciência.

O S&P 500 fechou a 7.686, com queda de 0,33%; o USDBRL a R$ 5,1853, com queda de 0,16%; o EURUSD a € 1,1616, com alta de 0,28%; e o ouro a U$ 4.448, com queda de 0,16%.

Fique ligado! 

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