Nervos à flor da pele #OURO #GOLD #EURUSD


Todos nós já fizemos, em algum momento, um investimento maior do que seria razoável. Quando as coisas vão bem, o desvio cai no esquecimento; quando o ativo não performa, bate a sensação de que se passou da conta. Nessas situações, meu conselho sempre foi o mesmo: reduzir a posição para o tamanho correto, antes que o desconforto leve a decisões precipitadas.

E qual é o tamanho correto? Hoje, para mim, é aquele definido pelo prejuízo potencial caso o stop loss seja acionado. Se essa perda não tira o sono, a posição está adequada. Se tira, está grande demais, e o mercado costuma cobrar caro de quem descobre isso tarde.

Algo parecido está em curso com a inteligência artificial. Não preciso repetir que os valores investidos estão acima de qualquer cálculo razoável quando comparados aos balanços das empresas. O resultado é que as gigantes da nuvem, antes credoras no fluxo de caixa, passaram a devedoras, enquanto outras já foram penalizadas com o aumento do prêmio cobrado em suas captações.

O argumento para justificar a conta é sempre o mesmo: a produtividade virá e pagará esses investimentos. Os investidores vasculham os dados em todos os cantos à espera de vê-la aparecer na economia. Até aqui, não apareceu.

Um estudo do Federal Reserve de St. Louis, publicado no fim de julho e assinado por Serdar Ozkan, Aakash Kalyani e Nicholas Sullivan, foi buscar a resposta onde os executivos falam diretamente com os investidores: nas teleconferências de resultados. Foram cerca de 490 mil transcrições de 5.198 empresas americanas de capital aberto, entre 2000 e 2025. Com uma pitada de ironia, a triagem das frases sobre produtividade foi feita por um modelo de IA.

O uso da tecnologia já virou rotina. A participação das frases sobre produtividade que mencionam IA era praticamente nula antes do lançamento do ChatGPT e chegou a cerca de 15% no fim de 2025. O vocabulário também mudou: em 2023, dominava a expressão "IA generativa", vaga e passiva; a partir de 2025, ganharam espaço "usando IA" e "ferramentas de IA". A tecnologia saiu da apresentação e entrou no dia a dia.


["AI-Related Phrases per Quarter, 2020:Q1 to 2025:Q4", do artigo "AI and Productivity: What Firms Are Saying on Earnings Calls" (Federal Reserve Bank of St. Louis)]


O tom é quase unânime: 95% dessas menções descrevem a produtividade em alta, contra 75% quando o assunto não é IA. O detalhe revelador, porém, está no tempo verbal. Cerca de 95% das frases que ligam IA a produtividade falam de ganhos futuros; nas demais, a proporção é de aproximadamente três quartos. E o padrão se repetiu em 2023 e em 2025: três anos depois do ChatGPT, os executivos continuam conjugando a promessa no futuro.


["Time Frame of Non-AI vs. AI Productivity Discussions, 2000:Q1 to 2025:Q4", do artigo "AI and Productivity: What Firms Are Saying on Earnings Calls" (Federal Reserve Bank of St. Louis)]


A conclusão dos autores é que as empresas estão investindo, experimentando e se reorganizando em torno da IA hoje, enquanto os efeitos mensuráveis permanecem, em grande parte, à frente. Traduzindo: aguarde, que vai chegar.

O estudo tem pouco mais de dois meses, e neste mercado dois meses são uma eternidade. Seus dados vão até o fim de 2025, e a leitura de produtividade citada, do Fed de São Francisco, mostrava crescimento de apenas 0,07% nos quatro trimestres até o primeiro de 2026. Seria razoável esperar alguma melhora desde então. A atualização veio na segunda-feira, em nota de Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, e não trouxe alívio.

Slok parte de uma distinção que costuma se perder no debate. A produtividade do trabalho, ou produção por hora, pode subir por três motivos: o trabalhador recebe mais ou melhores equipamentos, a força de trabalho fica mais qualificada ou a economia passa a combinar melhor seus recursos. Apenas o terceiro, medido pela produtividade total dos fatores, reflete inovação de verdade.

O exemplo dado é preciso: entregar um segundo monitor a cada funcionário aumenta a produção por hora sem tornar a empresa mais inteligente. Com centenas de bilhões de dólares indo para centros de dados, chips e treinamento de modelos, é natural que a produção por hora suba mecanicamente. A pergunta difícil é se a IA está elevando a produtividade total.

Por enquanto, a resposta é não. A produtividade total dos fatores ajustada pela utilização, que crescia 0,07%, agora está levemente abaixo de zero, sem sinal de aceleração desde o início do ciclo de investimentos em IA. A produção por hora, por sua vez, roda perto de 2,5%, acima da média desde 2005, e é justamente esse número que se apresenta como prova de que a IA já funciona. Produção por hora forte com produtividade total parada, porém, é a marca de mais capital por trabalhador, não de um salto tecnológico.


["No AI productivity boost in the data yet", do artigo "No Signs of AI in the Productivity Data" (Apollo, Torsten Slok)]


Seria injusto não registrar o outro lado. A produtividade total oscilou entre cerca de -3% e +4% nos últimos 40 anos, sem tendência definida, de modo que uma leitura abaixo de zero não é, por si só, incomum. A eletricidade e a informática levaram uma década ou mais para aparecer nas estatísticas. A síntese da Apollo é direta: o surto da IA é visível nos investimentos e nas avaliações das ações, mas não nos números de produtividade. O retorno continua sendo uma previsão, não uma observação.

É aqui que volto ao início. Se as quantias envolvidas fossem modestas, o investidor teria calma para esperar a década de que a eletricidade precisou. Não é o caso. Quando a posição é desproporcional ao balanço, cada trimestre sem evidência pesa mais do que o anterior, e a paciência deixa de ser virtude para se tornar custo.

Por isso, o nervosismo vai imperar, e sem data para terminar. Não posso afirmar quando a paciência irá se esgotar. Sei apenas que, à medida que o tempo passa sem que a produtividade dê as caras, a probabilidade de um movimento impulsivo aumenta. Por enquanto, os mercados estão desconfiados, sem dar sinal de esgotamento, mas os nervos podem ficar à flor da pele em breve.


Análise Técnica

No post "trapezista-sem-rede", fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

"A contagem acima se mostrou incorreta e abriu duas possibilidades:

– uma alta até US$ 4.890; nesse caso, o ouro teria que reagir sem atingir US$ 3.950;

– ou a continuidade da queda até US$ 3.480, sem ultrapassar US$ 4.680.

Observando de hoje, o último cenário me parece mais provável."



Não existe muita diferença em relação à semana passada em termos de preço; acontece que o ouro está no limite, ou seja, a onda B azul não deveria cair mais. Caso a primeira hipótese acima prevaleça, uma reação em cinco ondas deveria ocorrer em breve; caso contrário, teria que assumir que a onda (B) vermelha se desloca para a direita, como indica o símbolo no gráfico.

Talvez surja uma minioportunidade de trade. Acompanhe o Mosca.



Em relação ao euro, comentei:

"No gráfico semanal abaixo, deixei abertas as possibilidades à frente. Ou a onda B laranja terá uma nova oportunidade, caso a moeda única dê uma reviravolta, ou estamos no caminho da onda C laranja, que levaria o euro abaixo da paridade."



Com a França sendo a bola da vez, e como ela é (era!) de primeira linha, a situação é bem mais complicada.

Charles Gave, da Gavekal, foi direto ao ponto. Para ele, a disparada do diferencial dos juros franceses na última quinta-feira é apenas o sintoma mais visível de um mal maior: o mundo entrou num período de alta estrutural dos juros reais. A história começa com a poupança excedente acumulada pela Ásia depois da crise de 1997-98, aplicada em títulos do Tesouro americano e em títulos alemães, o que derrubou os juros reais desses papéis de 5% em 1998 para zero em 2021.

Desde 2022, três coisas mudaram: o dólar deixou de ser a única moeda do petróleo, o título alemão não é mais uma reserva de valor confiável e o estoque de poupança excedente está encolhendo, com boa parte do mundo em escassez estrutural de poupança. Os juros reais saíram do terreno negativo para algo entre 1% e 2%, e Gave acredita que continuarão subindo, empurrados pelos custos de reconstruir o Oriente Médio, de erguer nova infraestrutura de energia na Índia e para a inteligência artificial, e do rearmamento.

O problema é que, na França, os juros reais já superam o crescimento: o PIB real cresce no máximo 1,5% ao ano, enquanto os juros reais se aproximam de 3% e podem chegar rapidamente a 4%. Com a dívida pública crescendo 4% ao ano, o custo do seu serviço 6% e a riqueza 1,5%, a dívida francesa se tornará insustentável e impossível de carregar em carteira, e isso pode já ter começado.

E o Banco Central Europeu não salvaria a França, como fez com a Itália em 2012? A resposta de Gave é não. Draghi conseguiu derrubar os juros num mundo de poupança asiática abundante; hoje, se o BCE comprar títulos franceses para trazer os juros abaixo de 2%, os estrangeiros venderão a ele não só papéis franceses, mas também alemães, italianos e holandeses, e o euro acelerará rumo a zero. O banco central terá de escolher entre o colapso do mercado de títulos francês e o do câmbio. Para Gave, o euro é a ideia mais estúpida já concebida pela tecnocracia francesa, e as autoridades parecem ter escolhido o banho de sangue em vez de uma saída ordenada.

Mas, voltando ao técnico, a oportunidade da onda B laranja citada acima tem os seguintes parâmetros: estancar entre US$ 1,1087 e US$ 1,0846, num percurso que tem que ser tortuoso, e não direcional. Visualmente, nota-se que o movimento está bem direcional, o que me deixa desconfiado de que uma queda maior pode estar por vir, embora a grande maioria dos analistas espere uma reversão; afinal, não se pode melar o "debasement trade", que já caiu no esquecimento.



o S&P 500 fechou a 7.765, com queda de 0,47%; o USDBRL a R$ 5,0241, com alta de 0,17%; o EURUSD a € 1,1214, com alta de 0,16%; e o ouro a U$ 4.132, com alta de 0,53%

Fique ligado!

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