Trapezista sem rede #OURO #GOLD #EURUSD

 


Um trabalho recente do Deutsche Bank traz um enfoque de que pouco se tem falado. Durante décadas, sempre que uma crise ameaçava sair do controle, os bancos centrais apareciam para evitar um desastre maior, e os governos abriam os cofres para amortecer a queda. O mercado se acostumou a essa rede de proteção. O problema é que ela está sendo recolhida, e muita gente continua no trapézio como se nada tivesse mudado.

Ao longo da minha vida profissional atravessei uma série de crises, mas nenhuma foi tão grave, concentrada em um único dia, quanto a de 19 de outubro de 1987, a Segunda-Feira Negra. O Dow Jones despencou 22,6%, a maior queda diária de sua história, e o S&P 500 perdeu cerca de 20%.

Lembro que estava na Tendência, observando uma TV adaptada para funcionar como monitor de cotações. A crise começou na Ásia, com Hong Kong desabando antes da abertura de Nova York, passou por Londres e foi se espalhando pelo mundo. Os motivos foram vários: juros em alta, dólar fraco, déficit comercial elevado. Mas a razão da queda foram as ordens automáticas de venda, acionadas como uma metralhadora. As estratégias de “seguro de carteira” vendiam contratos futuros à medida que o mercado caía, e cada venda alimentava a seguinte.

Ficamos atônitos, quase sem ação. Em qualquer ordem executada naquele dia, o preço era detalhe; o S&P 500 oscilava de 1% em 1%. Lembro que fomos almoçar no McDonald’s e a sensação era muito estranha, como se tivéssemos acabado de assistir a um filme de terror, embora na época eu não tivesse envolvimento com a bolsa americana.

Estou falando de uma época sem terminal da Bloomberg, só o da Reuters, sem celular e sem internet do jeito que conhecemos hoje. Até hoje não sei qual teria sido o impacto se tivéssemos todas essas ferramentas. Provavelmente seria pior: seríamos inundados por muito mais notícias, e o contágio correria na velocidade de um clique.

Foi depois disso que se criou o circuit breaker. A comissão presidida por Nicholas Brady concluiu que as vendas automáticas e a falta de coordenação entre o mercado à vista de Nova York e o de futuros de Chicago haviam acelerado o colapso. Em outubro de 1988, a Bolsa de Nova York passou a interromper o pregão diante de quedas bruscas. Hoje os gatilhos são de 7%, 13% e 20% no S&P 500.

O outro amortecedor nasceu no dia seguinte ao crash. Alan Greenspan, havia apenas dois meses no comando do Fed, divulgou uma nota curta em que se declarava pronto para fornecer liquidez ao sistema. O mercado subiu quase 6% naquela terça-feira e mais de 10% na quarta. Ali surgiu o que o mercado batizou de “put” do Greenspan: a certeza de que, diante de qualquer problema mais grave, o Fed entraria em ação.

Desde então, os bancos centrais foram ampliando as salvaguardas. Em 1998, com a crise russa e os problemas do LTCM, vieram três cortes preventivos de juros. Em 2001, após o estouro da bolha da internet, a taxa caiu de 6,5% para 1,75% em um único ano. Em 2008, o déficit americano chegou a 9,8% do PIB, os juros foram a zero e os bancos centrais passaram a comprar ativos em massa. O ápice veio com a Covid: déficit de 14,5% do PIB em 2020, o maior desde 1945.

O resultado aparece nos números. As cinco expansões americanas mais recentes estão entre as sete mais longas desde que o ciclo econômico passou a ser medido. Não foi sorte, e sim intervenção preventiva, com cortes de juros antes que uma desaceleração virasse recessão. E a simples convicção de que a rede estava lá sustentava o preço dos ativos.


“Figura 9: Duração das expansões econômicas americanas (em meses)”, do artigo “The end of the safety net: Life without the macroeconomic stabilisers” (Deutsche Bank)


O documento do Deutsche Bank sugere que essa garantia não existe mais. Do lado monetário, a inflação está acima da meta em boa parte das maiores economias. Ao choque da pandemia seguiram-se a invasão da Ucrânia e, em 2026, o fechamento do Estreito de Ormuz, que empurrou Fed, BCE e Banco do Japão para um ciclo sincronizado de alta de juros.

As forças que seguravam os preços inverteram o sinal: populações em idade ativa encolhendo, globalização estagnada, gastos com defesa em alta. Com a inflação acima da meta, não há espaço para cortar juros ao primeiro tropeço.


“Figura 4: Inflação acima da meta dos bancos centrais nos anos 2020”, do artigo “The end of the safety net: Life without the macroeconomic stabilisers” (Deutsche Bank)


Do lado fiscal, a amarra é dupla. O juro de dez anos do Tesouro americano saiu de 1,9% no início de 2020 para 5,2%; o título alemão foi de -0,2% para 3,6%. A dívida pública líquida das economias avançadas passou de 52% do PIB em 2000 para 80% em 2025.


“Figura 5: Juros dos títulos de 10 anos (%) em máximas de vários anos”, do artigo “The end of the safety net: Life without the macroeconomic stabilisers” (Deutsche Bank)


O custo líquido de juros dos Estados Unidos já superou o pico do início dos anos 1990 e, pelas projeções do Escritório de Orçamento do Congresso, continuará subindo. Partindo de déficits já elevados, um novo estímulo arriscaria turbulência no mercado de títulos. E, com inflação alta, mais demanda vira mais preço, não mais produção.


“Figura 6: Custo líquido de juros dos EUA (% do PIB) com projeções do CBO”, do artigo “The end of the safety net: Life without the macroeconomic stabilisers” (Deutsche Bank)


A história mostra o que acontece sem rede. No padrão-ouro anterior à Primeira Guerra, o pânico de 1873 abriu uma contração americana mais longa que a de 1929-33, e o de 1907 quase cortou o Dow pela metade. Nos anos 1970, com dois choques do petróleo, os Estados Unidos tiveram três recessões em uma década, e ações e títulos perderam em termos reais.

O relatório faz a ressalva: não há padrão-ouro, e a inflação não está em dois dígitos. Ainda assim, o mundo é mais restrito do que nas últimas quatro décadas, e 2022 já deu uma amostra, quando ações e títulos caíram juntos como raramente se viu.

Em 1987 nasceram juntos os dois amortecedores do mercado. O circuit breaker continua de pé, mas ele apenas interrompe o pregão; não segura o preço. A rede que segurava, a do banco central, está sendo recolhida. O mercado lembra o trapezista que segue fazendo suas manobras, agora sem nada embaixo, torcendo para não dar nada errado. A volatilidade macroeconômica, avisa o Deutsche Bank, veio para ficar.


Análise Técnica

No post “congestão- econômica”, fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

“Tentar ‘adivinhar’ o caminho de uma correção é sempre um desafio e uma frustração, e essa é a principal razão pela qual prefiro assistir da numerada até que alguma pista mais concreta aconteça. A opção que tracei acima está sob teste e, caso o preço ultrapasse o nível estabelecido como stop loss, de US$ 4.235, vou ter que refazer minha hipótese. Nem pensem em se envolver agora: aguardem o Mosca.”



A contagem acima se mostrou incorreta e abriu duas possibilidades:

– uma alta até US$ 4.890; nesse caso, o ouro teria que reagir sem atingir US$ 3.950;

– ou a continuidade da queda até US$ 3.480, sem ultrapassar US$ 4.680.

Observando de hoje, o último cenário me parece mais provável. Existe mais só um pouquinho, que não merece nenhum trade, como já havia apontado acima.



Em relação ao erro, comentei:

“Agora estamos no sentido inverso, perto de eliminar essa possibilidade e, assim como no ouro, o stop loss está muito perto, a € 1,1324. Let’s see! Quem achava que o dólar tinha virado pó não deve estar muito satisfeito!”



A alta esperada do euro foi por água abaixo, e isso é mais uma amostra de que não se pode confiar em correções: somente nos movimentos direcionais se tem uma confiança maior. No gráfico semanal abaixo, deixei abertas as possibilidades à frente. Ou a onda B laranja terá uma nova oportunidade, caso a moeda única dê uma reviravolta, ou estamos no caminho da onda C laranja, que levaria o euro abaixo da paridade.

O que chama a atenção nas últimas três semanas são as quedas mais expressivas. Acredito que deve haver muitas liquidações de posições contrárias ao dólar, o debasement trade, algo em que nunca embarquei.



O S&P 500 fechou a 7.667, com alta de 0,20%; o USDBRL a R$ 5,2193, com alta de 0,88%; o EURUSD a € 1,1244, com queda de 0,75%; e o ouro a U$ 4.178, com alta de 0,53%.

Fique ligado!

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