O fim do fim da história #nasdaq100 #NVDA

 


Em 1989, Francis Fukuyama anunciou que a humanidade havia chegado ao "fim da história". O Muro de Berlim caiu naquele mesmo ano, a União Soviética se dissolveu em 1991 e os Estados Unidos ficaram sozinhos no topo. Um estudo do Deutsche Bank Research Institute sustenta que esse capítulo acabou, e que a prova mais eloquente está guardada nos cofres dos bancos centrais.

Os números impressionam. A fatia do dólar nas reservas globais caiu de cerca de 60% no auge para 40%. A do ouro dobrou em quatro anos e se aproxima de 30%. No fim dos anos 1990, o dólar pesava mais de quatro vezes o ouro; hoje a distância entre os dois é de apenas dez pontos percentuais. E há um detalhe que me chama atenção: o dólar não perdeu espaço para o euro, o iene ou o yuan. Perdeu para o metal.


A fatia do dólar e do ouro nas reservas dos bancos centrais", do artigo "The return of history: gold, the dollar, and the monetary future" (Deutsche Bank Research Institute)]


A tese contraria o senso comum. A maioria imagina que o ouro saiu de cena com o fim de Bretton Woods, quando Nixon encerrou a conversibilidade do dólar em 1971. Não foi o que aconteceu. Ao longo da década de 1970, o ouro manteve cerca de metade das reservas e subiu mais de 1.000%, impulsionado pela inflação, pelo embargo do petróleo de 1973 e pela revolução iraniana. A queda veio vinte anos depois, e por outro motivo.

Nos anos 1990, os Estados Unidos viviam a Grande Moderação: inflação em queda, superávit fiscal, banco central independente e títulos do Tesouro pagando juros num mercado profundo, sem custo de armazenagem. Os bancos centrais europeus passaram a vender ouro, tratado então como "relíquia bárbara". Mas o golpe decisivo não foi a venda, e sim o denominador. As reservas cambiais do mundo se multiplicaram por nove entre 1990 e 2007, primeiro com o Japão, depois com a China e uma longa fila de emergentes, quase tudo aplicado em dólar.

Daí a conclusão central: o peso do ouro nas reservas não depende do sistema monetário, depende da geopolítica. E os pilares que sustentaram o "fim da história" estão girando em sentido contrário. O mundo voltou a ter disputa entre superpotências, agora entre Estados Unidos e China. Washington recua do livre comércio e das alianças, a garantia de navegação foi posta em xeque com o fechamento do Estreito de Ormuz, a inflação americana está acima da meta há mais de cinco anos e a trajetória fiscal preocupa.

Por fim, o congelamento das reservas russas em 2022 ensinou que dólar guardado fora de casa pode ser confiscado. Rússia e China mantêm todo o seu ouro em território próprio.

Quem compra são os emergentes. Desde a crise de 2008, seus bancos centrais adicionaram mais de 225 milhões de onças, mais do que os desenvolvidos venderam nos anos 1990. Ainda assim, têm apenas 16% das reservas em ouro, contra 34% nos países ricos. A China, maior detentora de reservas do planeta, tem só 9%. Na República Tcheca e na Polônia, mais da metade do ouro foi comprada depois da invasão da Ucrânia. O Brasil está na lista: cerca de um quarto do nosso estoque foi adquirido desde 2022.

Outro dado revelador: emergentes que compram armas da China ou da Rússia têm o dobro de ouro nas reservas dos que dependem do Ocidente. A lealdade militar se mede em toneladas.

Agora a parte que vai virar manchete. Os autores simulam cenários combinando o tamanho das reservas emergentes e a fatia de ouro desejada. Mesmo com as reservas caindo de US$ 8 trilhões para US$ 5 trilhões, se os emergentes mirarem 40% em ouro, o patamar mínimo anterior aos anos 1990, o preço poderia chegar perto de US$ 8.000 em cinco anos. No cenário mais otimista, US$ 14.000.

Aqui eu tiro o pé do acelerador. O próprio estudo reconhece que cerca de 80% do avanço da fatia do ouro veio do preço, não do volume. Há uma circularidade incômoda: o preço sobe, a fatia sobe, e a fatia maior passa a justificar preço ainda maior. A regra usada, segundo a qual cada milhão de onças compradas eleva a cotação em 1%, sai de uma regressão de poder explicativo modesto. Os autores avisam que não são previsões. O mercado vai ler como se fossem.

E tem a Turquia. Em março, durante a guerra com o Irã, o banco central turco mobilizou cerca de US$ 20 bilhões em ouro para defender a lira. O metal comprado para a eternidade foi o primeiro a ser vendido quando o aperto chegou. O estudo trata o episódio como exceção; eu vejo um aviso.

Fica uma pergunta que o trabalho não responde: se os emergentes de fato começarem a vender dólares para financiar defesa e energia, quem compra esses títulos do Tesouro, e a que taxa? É a ponte entre essa tese e o fiscal americano, e é ali que mora o risco que mais me interessa.

Os autores vão além e especulam sobre o ouro como âncora de uma futura ordem monetária, citando a ideia de uma unidade do BRICS lastreada 40% em ouro, que eles mesmos tratam como exercício de pensamento. Enquanto os Estados Unidos apostam em moedas digitais lastreadas em títulos do Tesouro, o Sul Global pode preferir lastro físico. Afinal, o ouro não é dívida de ninguém.

O fecho do estudo é o que guardo. No ano passado, o valor de todo o ouro acima do solo superou o da dívida negociável do Tesouro americano, pela primeira vez em 40 anos. O ativo que o mundo chamou de relíquia ficou maior do que o ativo que o mundo chama de seguro.


Valor do estoque de ouro versus dívida negociável do Tesouro americano", do artigo "The return of history: gold, the dollar, and the monetary future" (Deutsche Bank Research Institute)]


A história voltou. Resta saber quem vai escrevê-la.


Análise Técnica

No post "pandas-não-assinam-acordos", fiz os seguintes comentários sobre a Nasdaq 100:

"Pode ser que a bolsa esteja tomando fôlego para subir (...). A retração que ocorreu esta semana pode continuar por mais alguns dias e não deveria ultrapassar a área delimitada no gráfico como 'stop', embora possa ir até 28.756; porém, pode também subir na sequência. Fiquem atentos a uma eventual sugestão de trade."



O mercado ficou animado com os dados de emprego: foram criados 29 mil postos, e a taxa de desemprego foi para 4,2%. É interessante que, às vezes, dados medianos como esse desempenham um papel positivo por conta de outro mercado, e esse outro mercado são os juros, que trazem certo alívio. No fundo, tudo me indica que a bolsa quer subir independentemente das notícias; sendo assim, obedecemos à vontade do mercado. Atentos à sugestão de trade, que pode ocorrer ainda hoje.



Em relação à Nvidia, comentei:

"O resultado é que a Nvidia continua entregando resultados estelares, e seu P/L está no nível mais baixo dos últimos anos. Como comentou seu CEO, Jensen Huang: 'A Nvidia é uma empresa de crescimento com performance de uma empresa de valor'. Mas, como dinheiro não leva desaforo, lucro também não, e em algum momento isso vai se alterar."



A Nvidia está muito próxima de romper a máxima histórica (ATH), o que pode acontecer hoje. O primeiro objetivo seria US$ 283, como mostra o gráfico abaixo, uma alta expressiva de 20%.

Minha experiência de mercado me mostrou que, quando existe uma tese central bem estruturada, como os lucros atuais, e um determinado ativo subiu muito, o mercado tenta, com vários argumentos, desbancar essa ideia. Atualmente existem muitos: guerra, inflação, juros, riscos da IA. Se as cotações mal e mal se afetam, é porque a tese principal é mais sólida.



Michael Burry, que previu corretamente a bolha imobiliária de 2008, entrou numa nova tese desde 2023, dizendo que a bolsa, e principalmente a IA, está numa bolha. Fez apostas grandes no mercado de opções que, por enquanto, não se mostraram lucrativas. Segundo um artigo publicado hoje no UOL, ele rolou sua tese para 2027. Mas veja o gráfico abaixo.



Em relação à bolha dos anos 2000, pode-se ver nitidamente que existe uma diferença básica: os lucros, além do fato de que o juro na época era muito baixo, e essa moleza acabou. Normalmente, os grandes acertadores de um dia não têm sucesso em suas previsões futuras, o que levanta a possibilidade de terem acertado por sorte. Quanto a Michael, em sua predição atual, ele vai acertar algum dia; só não se sabe se ainda terá fichas suficientes para apostar.

Observo essas situações e, nitidamente, ele está sendo levado pelo ego e pela opinião, desprezando o que o mercado está dizendo. Ele não está seguindo uma das minhas premissas: "Let the Market Speak".



O S&P 500 fechou a 7.722 com alta de 0,72%; o USDBRL a R$ 5,2138, com queda de 0,11%; o EURUSD a € 1,1257, com alta de 0,13%; e o ouro a U$ 4.144, com queda de 0,77%.

Fique ligado!


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