Congestão econômica #OURO #GOLD #EURUSD #10TB

 


Saber a hora de parar é uma sabedoria que vale para a mesa e para a economia. Quem raspa o prato com gula pode acabar com uma congestão, e o que era bom vira problema. O crescimento econômico segue a mesma lógica quando avança mais depressa do que os recursos disponíveis permitem.

Ontem, um relatório da S&P Global jogou mais lenha nessa fogueira ao mostrar a atividade das empresas americanas crescendo no ritmo mais forte em cinco anos. Os juros dos títulos de 10 anos do Tesouro passaram de 5% e voltaram a níveis de 2007. No post “o-nível-da-febre” comentei a importância desse patamar, que agora ficou para trás.


“10-Year US Treasury Bond Yield & the Old Normal Range”, do boletim “Booming Economy Pushes Bond Yields Higher” (Yardeni QuickTakes)]


Depois de quatro décadas de queda, que levaram o juro de 10 anos de perto de 16% no começo dos anos 1980 para menos de 1% na pandemia, a taxa entrou num novo ciclo de alta. Hoje ela está de volta à faixa entre 4% e 5%, o “normal antigo” dos cinco anos que antecederam a crise financeira de 2008. O excepcional foi o dinheiro quase de graça da última década, não o juro de agora.

E não é só nos Estados Unidos: Alemanha, Japão e França também convivem com juros longos nas máximas de décadas.

Desta vez, o motivo da alta não tem nada a ver com o aviltamento da moeda, o famoso “debasement”, termo que o economista Robin Brooks tanto repetiu até trocar de camisa e mudar o discurso. O motor é a força da economia americana. O GDPNow, do Fed de Atlanta, aponta crescimento de 5,1% neste trimestre, cerca do dobro do consenso dos economistas. Ninguém no mundo desenvolvido chega perto, e até a China, que crescia com uma regularidade quase religiosa, a ponto de causar estranheza, perdeu o pódio.


“Atlanta Fed GDPNow estimate”, do gráfico “GDPNow Forecast Evolution” (Federal Reserve Bank of Atlanta)]


Os mercados confirmam que não se trata de medo de inflação. Dos cerca de 0,97 ponto que o juro de 10 anos subiu neste ano, só uns 0,10 vieram da inflação implícita, praticamente estável há mais de três anos. O restante é juro real, hoje em níveis de 2008. Esse juro, que era negativo em 2021 e alimentou o crédito farto daquele período, virou de sinal. Quem sobe é o preço do crescimento, e não o prêmio de inflação.


“10-year US Treasury Yields broken down by Breakevens and Real Yields”, do boletim “DB CoTD: What If?”, de Jim Reid (Deutsche Bank)]


Tampouco é medo fiscal. O prêmio de prazo, a compensação extra que o investidor exige para carregar títulos longos, está estável há um ano e meio. A leitura mais consistente é a de um juro neutro mais alto, e a tal competição por capital, como observa o Deutsche Bank, é cada vez mais o investimento em inteligência artificial com outro nome. É o crescimento disputando recursos que não são infinitos.

A diferença entre os juros de 2 e de 10 anos é um termômetro interessante. Se, num ciclo de alta, esse diferencial se alarga, o motivo é ruim: ou o mercado desconfia de que vem inflação por aí, ou duvida da sustentabilidade da dívida, e isso é aviltamento. Se ocorre o inverso, a leitura é que o banco central vai apertar agora e que, no futuro, a taxa longa será menor. Sem aviltamento!

É exatamente o que está acontecendo. No começo do ano o diferencial estava perto de 0,7 ponto percentual e, desde então, veio recuando de forma persistente até encostar em 0,20 nesta semana, quase nas mínimas desde que a curva deixou de ser invertida, no fim de 2024. O Fed, que no início do ano ainda discutia novos cortes, fez na semana passada a primeira alta em três anos, e a taxa terminal esperada saltou de cerca de 3% para 4,75%.


“EUA: diferença entre os juros de 10 anos e de 2 anos (dados diários)”, elaboração própria com dados do FRED (Federal Reserve Bank of St. Louis)]


Há, porém, um sinal a vigiar. Se o diferencial cair abaixo de zero, a curva volta a se inverter, e o mercado costuma ler isso como aviso de recessão: o banco central aperta tanto hoje que terá de cortar amanhã. Só que esse alarme falhou da última vez. A inversão que começou em 2022 durou quase dois anos, a mais longa da história, e a recessão anunciada nunca chegou. Um indicador que erra desse jeito merece atenção, não devoção.

Mas, como à mesa, crescer demais não faz bem, e os juros são o primeiro lugar onde a indigestão aparece. Por enquanto, o juro de 10 anos segue abaixo do crescimento nominal do PIB. O agravante é de longo prazo: desde 2009, a dívida federal saltou de cerca de 25% para perto de 100% do PIB, e cada ponto a mais de juro pesa na conta.

No post citado, do ponto de vista técnico, escrevi: "em algum desses níveis o juro deveria terminar o ciclo de alta que começou na Covid, e pode ser qualquer um deles: 5,65%, 6,20% ou 6,73%". Só um rompimento falso faria as taxas voltarem para baixo de 5%. Caso contrário, vamos conviver com manchetes diárias anunciando que o juro atingiu a máxima desde 20XX, até que o calendário das manchetes tenha de recuar para 19XX.

E o que isso pode provocar? Primeiro, uma atratividade maior da renda fixa, que foi o patinho feio das últimas décadas. Segundo, títulos dos países desenvolvidos mais atraentes que os dos emergentes, que já sofrem com um dólar mais forte.


“Emerging Markets Catch Fed’s Cold”, do boletim “Points of Return”, de John Authers (Bloomberg)]


Terceiro, pressão sobre os ativos imobiliários, com as hipotecas americanas de 30 anos acima de 7%. Quarto, reprecificação dos múltiplos das bolsas, sobretudo das ações de crescimento. Por último, se a inflação ficar contida, queda de ativos como ouro e criptomoedas.

Resta uma pergunta incômoda. O petróleo subiu cerca de 73% no ano, e a inflação ao consumidor deve sair de 2,4% em janeiro para 3,6% em setembro. Se, sem estar preocupado com a inflação, o mercado já levou o juro para onde está, onde ele estaria se estivesse?

Se tudo ocorrer de forma ordenada, com os juros subindo e os ativos se ajustando, podemos ter um cenário muito positivo pela frente. Mas, como acontece com a comida, se for rápido demais dá congestão, e aí é preciso correr para o banheiro! Hahaha.


Análise Técnica

No post “in-warsh-we-trust”, fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

“Meu cenário principal, sem muita convicção, é que a correção aconteça na forma complexa w – x – y vermelho; nessa situação, ocorreria ainda uma alta seguida de uma queda.”



Tentar “adivinhar” o caminho de uma correção é sempre um desafio e uma frustração, e essa é a principal razão pela qual prefiro assistir da numerada até que alguma pista mais concreta aconteça. A opção que tracei acima está sob teste e, caso o preço ultrapasse o nível estabelecido como stop loss, de US$ 4.235, vou ter que refazer minha hipótese. Nem pensem em se envolver agora: aguardem o Mosca.



Em relação ao euro, comentei:

“Como podem verificar aqui, fico mais propenso a acreditar que o ciclo de baixa já tenha terminado” (...) “Mas não é líquido e certo que a alta tenha começado — ainda é cedo, pois não vejo 5 ondas no intervalo mais curto.”



A pequena alta que estava ocorrendo na semana passada sumiu e deu lugar a novas baixas, o que inviabilizou minha ideia. Agora estamos no sentido inverso, perto de eliminar essa possibilidade e, assim como no ouro, o stop loss está muito perto, a € 1,1324. Let’s see!

Quem achava que o dólar tinha virado pó não deve estar muito satisfeito!



O S&P 500 fechou a 7.704, sem variação; o USDBRL  a R$ 5,1974, com alta de 0,53%; o EURUSD a € 1,1372, com queda de 0,10%; e o ouro a U$ 4.267, com queda de 0,46%.

Fique ligado!


Comentários