A bola de cristal sempre falhou #IBOVESP
Isso vale, e vale muito, para os mercados. Quanto não pagaríamos por uma informação confiável sobre qualquer ativo daqui a um ano? Se pudesse escolher, eu quereria saber o nível do S&P 500 — que delícia seria. Mas no fundo sabemos que prever o futuro é impossível, e mesmo assim insistimos em acreditar que alguém, em algum lugar, sabe mais do que nós.
Tive um exemplo fresco disso na bolsa brasileira. Entre abril e agosto o Ibovespa vinha de queda, até que, do nada, deu um salto. Espalhou-se pelo mercado que "alguém" havia comprado um volume expressivo de índice futuro e opções de EWZ, o ETF que replica ações brasileiras negociadas lá fora. Se a compra foi tão grande, o raciocínio automático é: aquele alguém deve saber de algo que os demais ainda não sabem. Poucos pararam para considerar hipóteses mais banais, como cobertura de posições vendidas ou simples especulação de que a bolsa tinha espaço para subir por uma dezena de razões distintas.
Mesmo hoje ainda li a mesma lógica confortável: que, seja quem ganhar as eleições, virá ajuste fiscal, e isso será positivo para a bolsa. Ajuste fiscal do PT? Francamente, notável a fé de quem escreve isso.
Ninguém tampouco parou para notar que EWZ e Ibovespa são compostos de forma bem diferente. Veja a comparação setorial:
O EWZ tem peso maior em financeiro; o Ibovespa, em mineração — sem contar que um é negociado em dólar e o outro em reais. O máximo que consigo concluir é que são parecidos, não idênticos. Ainda assim, o mercado raciocina do mesmo jeito de sempre: se alguém comprou volume grande, é porque sabe de algo. Raramente é assim.
Essa mesma ilusão de que é possível antecipar o inevitável apareceu com força maior esta semana, ofuscada até pela expectativa em torno da decisão do Federal Reserve, que sai hoje. Os principais laboratórios de inteligência artificial voltaram a declarar, em uníssono, que a humanidade corre risco de extinção dentro de dez anos caso a tecnologia não seja contida. Já tratei do tema aqui no post "pé-no-breque-da-ia", e não deixa de ser sintomático que o prazo escolhido — dez anos — seja longo o suficiente para ser esquecido se a previsão não se confirmar, e vago o bastante para nunca poder ser cobrado com precisão.
Por coincidência, o Deutsche Bank publicou nos últimos dias um estudo reunindo um século de previsões tecnológicas fracassadas — e a lista inclui nomes de peso. Einstein, em 1934, descartou por completo a possibilidade de obtenção prática de energia nuclear; menos de dez anos depois, em 1942, uma equipe em Chicago já havia produzido a primeira reação em cadeia sustentada. O fundador da Ethernet previu em 1995 que a internet ia "explodir" e desaparecer em 1996 — e, para pagar a aposta perdida, literalmente bebeu uma versão liquidificada do próprio artigo em uma conferência dois anos depois. O presidente da IBM, em 1943, imaginou um mercado mundial de talvez cinco computadores. O CEO da Microsoft, em 2007, garantiu que o iPhone jamais ganharia participação de mercado relevante — hoje já foram vendidos mais de três bilhões de unidades. E um dos próprios "padrinhos" da inteligência artificial recomendou, em 2016, parar de formar radiologistas porque a profissão desapareceria em cinco ou dez anos; uma década depois, o número de radiologistas no mundo cresceu.
O estudo lista quatro razões para esse histórico de erros: sistemas complexos tratados como se fossem lineares e simples; vieses cognitivos que nos fazem subestimar mudanças exponenciais e superestimar benefícios; a impossibilidade prática de isolar causa de correlação em tempo real; e, por fim, o incentivo econômico de todo mundo envolvido — fundadores precisam de convicção, investidores de ímpeto, formuladores de políticas de relevância, jornalistas de drama — para exagerar tanto o lado otimista quanto o apocalíptico.
Nada disso é exclusividade da inteligência artificial. É a mesma dinâmica que faz o mercado inventar um "comprador misterioso" para explicar uma alta do Ibovespa, ou que faz investidores apostarem repetidamente contra o que os próprios contratos futuros de juros americanos precificam — e errarem quase sempre, como mostra um dos gráficos do próprio estudo do Deutsche Bank, comparando a taxa efetiva de juros do Fed com o que o mercado esperava em cada momento ao longo dos últimos vinte anos:
É bem a decisão de hoje: o mercado vai reagir, comentaristas vão explicar o óbvio depois de acontecido, e daqui a alguns meses o consenso atual provavelmente vai parecer tão equivocado quanto os exemplos acima.
Por isso trabalho com gráficos e ondas, não com bolas de cristal. A análise técnica que uso não promete certeza — trabalha com probabilidades, cenários e invalidações. Quando uma contagem de Elliott se mostra errada, ela é descartada e substituída, sem drama e sem apego. É desconfortável admitir que não sabemos o que vem a seguir, mas é bem mais honesto — e mais rentável — do que fingir que sabemos.
Análise Técnica
No post "Preço não leva desaforo" fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:
"Nesta última semana o mercado está oscilando dentro da faixa apontada acima, como se estivesse ouvindo o Mosca e indeciso sobre qual caminho seguir — vale uma observação de como a teoria de Elliott Wave fornece elementos importantes na tomada de decisão. Nesta situação, não tenho nada a acrescentar, a não ser esperar para ver que rumo a bolsa toma."
Por que então não coloco o triângulo? Existe também uma diretriz segundo a qual as ondas 2 e 4 exibem alternância: se uma é complexa e profunda, a outra costuma ser rasa e mais simples. No caso, a onda 2 verde é rasa e lateral, logo a onda 4 verde deveria ser profunda e extensa — daí meu zigue-zague. O post de hoje reforça o que é a teoria de Elliott Wave: nela existem apenas três regras básicas e muitas diretrizes. Tudo isso pode mudar, mas estou usando o cenário mais provável.
Para finalizar, se minha leitura se confirmar, vamos passar um bom tempo assistindo sem se posicionar na bolsa, com uma exceção: se ultrapassar 200 mil pontos ou cair abaixo de 134 mil pontos, terei que refazer minha contagem.
O S&P 500 estava as 16h30 a 7.523, com queda de 0,82%; o USDBRL a R$ 5,1629, com alta de 0,36%; o EURUSD a € 1,1468, com queda de 0,64%; e o ouro a U$ 4.258, com queda de 0,83%.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, foi muito explícito sobre a inflação. Resumo o recado dele em poucas palavras: a inflação está alta, e os juros vão subir até que ela ceda diante do mandato de 2%. Ual... acho que o Trump se arrependeu da escolha que fez. Na sessão de perguntas, os jornalistas ficaram tão chocados com a clareza da fala que nem sequer sabiam o que perguntar.
Fique ligado!
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