A bola de cristal sempre falhou #IBOVESP


A vontade de saber o futuro não é coisa nova — a profissão de cartomante existe há séculos, prova de que a curiosidade sobre o que está por vir é praticamente estrutural na natureza humana. Há algum tempo fiz, a convite de um amigo que medita todos os dias, um curso de meditação. Sobraram dali alguns áudios que uso em dias mais agitados, embora confesse que às vezes durmo no meio da sessão — o que, sei bem, não é exatamente o objetivo. Mas o que ficou de mais valioso da técnica foi a constatação de como carregamos um sentimento duplo em relação ao tempo: olhamos para trás com saudade do que foi bom e não volta, ou com angústia do que foi ruim e ainda dói; olhamos para frente com a ansiedade de não saber o que vem. A meditação insiste que, nesse estado, deixamos de viver o presente — o único tempo que realmente temos.

Isso vale, e vale muito, para os mercados. Quanto não pagaríamos por uma informação confiável sobre qualquer ativo daqui a um ano? Se pudesse escolher, eu quereria saber o nível do S&P 500 — que delícia seria. Mas no fundo sabemos que prever o futuro é impossível, e mesmo assim insistimos em acreditar que alguém, em algum lugar, sabe mais do que nós.

Tive um exemplo fresco disso na bolsa brasileira. Entre abril e agosto o Ibovespa vinha de queda, até que, do nada, deu um salto. Espalhou-se pelo mercado que "alguém" havia comprado um volume expressivo de índice futuro e opções de EWZ, o ETF que replica ações brasileiras negociadas lá fora. Se a compra foi tão grande, o raciocínio automático é: aquele alguém deve saber de algo que os demais ainda não sabem. Poucos pararam para considerar hipóteses mais banais, como cobertura de posições vendidas ou simples especulação de que a bolsa tinha espaço para subir por uma dezena de razões distintas.

Mesmo hoje ainda li a mesma lógica confortável: que, seja quem ganhar as eleições, virá ajuste fiscal, e isso será positivo para a bolsa. Ajuste fiscal do PT? Francamente, notável a fé de quem escreve isso.

Ninguém tampouco parou para notar que EWZ e Ibovespa são compostos de forma bem diferente. Veja a comparação setorial:


Peso setorial: EWZ vs. Ibovespa (elaboração própria)


O EWZ tem peso maior em financeiro; o Ibovespa, em mineração — sem contar que um é negociado em dólar e o outro em reais. O máximo que consigo concluir é que são parecidos, não idênticos. Ainda assim, o mercado raciocina do mesmo jeito de sempre: se alguém comprou volume grande, é porque sabe de algo. Raramente é assim.

Essa mesma ilusão de que é possível antecipar o inevitável apareceu com força maior esta semana, ofuscada até pela expectativa em torno da decisão do Federal Reserve, que sai hoje. Os principais laboratórios de inteligência artificial voltaram a declarar, em uníssono, que a humanidade corre risco de extinção dentro de dez anos caso a tecnologia não seja contida. Já tratei do tema aqui no post "pé-no-breque-da-ia", e não deixa de ser sintomático que o prazo escolhido — dez anos — seja longo o suficiente para ser esquecido se a previsão não se confirmar, e vago o bastante para nunca poder ser cobrado com precisão.

Por coincidência, o Deutsche Bank publicou nos últimos dias um estudo reunindo um século de previsões tecnológicas fracassadas — e a lista inclui nomes de peso. Einstein, em 1934, descartou por completo a possibilidade de obtenção prática de energia nuclear; menos de dez anos depois, em 1942, uma equipe em Chicago já havia produzido a primeira reação em cadeia sustentada. O fundador da Ethernet previu em 1995 que a internet ia "explodir" e desaparecer em 1996 — e, para pagar a aposta perdida, literalmente bebeu uma versão liquidificada do próprio artigo em uma conferência dois anos depois. O presidente da IBM, em 1943, imaginou um mercado mundial de talvez cinco computadores. O CEO da Microsoft, em 2007, garantiu que o iPhone jamais ganharia participação de mercado relevante — hoje já foram vendidos mais de três bilhões de unidades. E um dos próprios "padrinhos" da inteligência artificial recomendou, em 2016, parar de formar radiologistas porque a profissão desapareceria em cinco ou dez anos; uma década depois, o número de radiologistas no mundo cresceu.

O estudo lista quatro razões para esse histórico de erros: sistemas complexos tratados como se fossem lineares e simples; vieses cognitivos que nos fazem subestimar mudanças exponenciais e superestimar benefícios; a impossibilidade prática de isolar causa de correlação em tempo real; e, por fim, o incentivo econômico de todo mundo envolvido — fundadores precisam de convicção, investidores de ímpeto, formuladores de políticas de relevância, jornalistas de drama — para exagerar tanto o lado otimista quanto o apocalíptico.

Nada disso é exclusividade da inteligência artificial. É a mesma dinâmica que faz o mercado inventar um "comprador misterioso" para explicar uma alta do Ibovespa, ou que faz investidores apostarem repetidamente contra o que os próprios contratos futuros de juros americanos precificam — e errarem quase sempre, como mostra um dos gráficos do próprio estudo do Deutsche Bank, comparando a taxa efetiva de juros do Fed com o que o mercado esperava em cada momento ao longo dos últimos vinte anos:


"Taxa efetiva dos Fed Funds raramente bateu com a expectativa dos futuros", do artigo "AI doom: A brief history of bad tech predictions" (Deutsche Bank Research)


É bem a decisão de hoje: o mercado vai reagir, comentaristas vão explicar o óbvio depois de acontecido, e daqui a alguns meses o consenso atual provavelmente vai parecer tão equivocado quanto os exemplos acima.

Por isso trabalho com gráficos e ondas, não com bolas de cristal. A análise técnica que uso não promete certeza — trabalha com probabilidades, cenários e invalidações. Quando uma contagem de Elliott se mostra errada, ela é descartada e substituída, sem drama e sem apego. É desconfortável admitir que não sabemos o que vem a seguir, mas é bem mais honesto — e mais rentável — do que fingir que sabemos.


Análise Técnica

No post "Preço não leva desaforo" fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:

"Nesta última semana o mercado está oscilando dentro da faixa apontada acima, como se estivesse ouvindo o Mosca e indeciso sobre qual caminho seguir — vale uma observação de como a teoria de Elliott Wave fornece elementos importantes na tomada de decisão. Nesta situação, não tenho nada a acrescentar, a não ser esperar para ver que rumo a bolsa toma."



Observando com mais detalhe o gráfico, é possível notar que a duração da onda 2 verde foi de cinco trimestres. Existe uma relação no tempo entre as ondas 2 e 4; sob essa ótica, seria de se esperar que o Ibovespa ficasse contido entre 160 mil e 200 mil pontos por um bom tempo, já que esse tipo de configuração costuma resultar em formações de triângulo. Em todo caso, não é o que está expresso no gráfico abaixo, que mostra um zigue-zague das ondas A-B-C laranja.

Por que então não coloco o triângulo? Existe também uma diretriz segundo a qual as ondas 2 e 4 exibem alternância: se uma é complexa e profunda, a outra costuma ser rasa e mais simples. No caso, a onda 2 verde é rasa e lateral, logo a onda 4 verde deveria ser profunda e extensa — daí meu zigue-zague. O post de hoje reforça o que é a teoria de Elliott Wave: nela existem apenas três regras básicas e muitas diretrizes. Tudo isso pode mudar, mas estou usando o cenário mais provável.

Para finalizar, se minha leitura se confirmar, vamos passar um bom tempo assistindo sem se posicionar na bolsa, com uma exceção: se ultrapassar 200 mil pontos ou cair abaixo de 134 mil pontos, terei que refazer minha contagem.



O S&P 500 estava as 16h30 a 7.523, com queda de 0,82%; o USDBRL a R$ 5,1629, com alta de 0,36%; o EURUSD a € 1,1468, com queda de 0,64%; e o ouro a U$ 4.258, com queda de 0,83%.

O presidente do Fed, Kevin Warsh, foi muito explícito sobre a inflação. Resumo o recado dele em poucas palavras: a inflação está alta, e os juros vão subir até que ela ceda diante do mandato de 2%. Ual... acho que o Trump se arrependeu da escolha que fez. Na sessão de perguntas, os jornalistas ficaram tão chocados com a clareza da fala que nem sequer sabiam o que perguntar.

Fique ligado!

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