Brasil com Z #IBOVESPA

 


Ontem fomos surpreendidos, na verdade não tanto, com o detalhamento das conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o dono do banco Master, Daniel Vorcaro. Não é preciso ser especialista em direito para perceber que a intimidade entre os dois era grande, e isso por si só já levanta uma dúvida enorme sobre o que realmente ocorreu entre eles — não é preciso prova maior do que essa proximidade revelada.

O mais incrível foi a reação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que se apressou em declarar que o conteúdo era ilegal e deveria ser arquivado. Não podia ter sido em pior hora: mesmo que ele tenha razão do ponto de vista técnico, o timing joga contra ele, e no ambiente atual ninguém deu a mínima para o argumento jurídico. Além disso, só pelo que já foi revelado, no mínimo todos os envolvidos deveriam colocar o cargo à disposição. Mas no Brasil nem sempre a justiça de raiz prevalece. Vamos ver como esse caso termina.

Sempre fiquei intrigado com o fato de que em inglês o Brasil é escrito com Z — Brazil. Para quem vive aqui, no entanto, a explicação aparece sozinha. Para gente de fora é difícil entender tudo que temos que atravessar por aqui, entre escândalos que se repetem e instituições que parecem sempre um passo atrás do que já virou público; só podia ser mesmo com Z.

Como já tinha comentado, estou me preparando para a exposição na FEA-USP, e posso dizer que a atualização do conteúdo precisa ser diária — os dados vêm se alterando de forma exponencial e o que era verdade há duas semanas já não é mais. Se não fosse o auxílio do Claude, seria praticamente impossível me manter atualizado. Mas lá o foco é financeiro; hoje quero me deter no aspecto da utilização da inteligência artificial pelas empresas, e principalmente no seu efeito sobre o emprego. Recebi bastante material sobre o tema nos últimos dias.

Diferentemente do que se projetava no início — quando se falava em demissões em massa —, os dados por enquanto não caminham nessa direção. Há casos pontuais, é claro, mas o que mais se pode concluir é que houve uma desaceleração na contratação, e não uma onda de cortes, o que por si só já é um impacto, só que de forma bem mais lenta e menos dramática do que o discurso apocalíptico sugeria.


"Exhibit 8: 22.4% of Firms Are Using Artificial Intelligence in Their Regular Business Functions" — artigo GS.pdf, Goldman Sachs, AI Adoption Tracker, 1º de setembro de 2026]


Os números da Goldman Sachs confirmam essa leitura. A adoção de inteligência artificial pelas empresas americanas chegou a 22,4% em agosto, avanço de 0,9 ponto percentual sobre julho, com expectativa de alcançar 25,9% nos próximos seis meses. É crescimento consistente, mas em ritmo administrável — nada parecido com a curva vertical que muitos previam.


"Exhibit 9: Adoption Is Approaching 50% in the Information Sector" — artigo GS.pdf, Goldman Sachs, AI Adoption Tracker, 1º de setembro de 2026]


A adoção, porém, é bem desigual entre setores. Informação lidera com quase 50% das empresas já usando IA, seguida de perto por profissionais liberais e o setor financeiro. Do outro lado, construção e transporte ainda andam abaixo de 20%. As grandes empresas, com mais de 250 funcionários, também saem na frente: 40% delas já usam IA de forma regular, contra um ritmo bem mais lento entre as menores.

O impacto sobre o emprego segue visível, mas concentrado. Setores como marketing, design gráfico e atendimento ao cliente mostram enfraquecimento na criação de vagas, parcialmente compensado pelo boom da construção ligada a data centers, que já soma cerca de 209 mil empregos a mais desde 2022. As demissões atribuídas diretamente à inteligência artificial somaram 11 mil pessoas em junho, levando o total do ano nos Estados Unidos a 113 mil — relevante para quem foi afetado, mas ainda pequeno diante do tamanho do mercado de trabalho americano.


Exhibit 23: AI Was Cited in Layoff Announcements Affecting 11k Employees in July" — artigo GS.pdf, Goldman Sachs, AI Adoption Tracker, 1º de setembro de 2026]


O levantamento regional do Federal Reserve de Nova York, feito com empresas de serviços e indústria da região, caminha na mesma direção. A adoção de IA por firmas de serviços saltou para 61% este ano, ante 40% no ano passado e apenas 25% em 2024; entre as indústrias, o uso passou de 16% para 51% no mesmo intervalo. Mesmo com esse avanço, o corte de pessoal continua raro: só 4% das empresas de serviços relataram demissões ligadas à IA nos últimos seis meses, e nenhuma indústria relatou.


Federal Reserve Bank de Nova York, Liberty Street Economics, 1º de setembro de 2026]


O caminho preferido é outro — a recapacitação. Mais de um terço das firmas de serviços e cerca de um quinto das indústrias afirmaram estar treinando seus funcionários para trabalhar com as novas ferramentas, em vez de simplesmente substituí-los. E os ganhos de produtividade ajudam a explicar essa escolha: estudos acadêmicos apontam um aumento médio de 23% onde a IA já foi implementada, e as próprias empresas relatam ganhos ainda maiores, em torno de 32%.

É esse descompasso — entre o medo do desemprego em massa e a realidade de um mercado que está mudando de forma mais lenta e desigual do que o anunciado — que confirma minha leitura de meses atrás: a inteligência artificial não está varrendo empregos da noite para o dia, ela está reformatando funções, redistribuindo tarefas e cobrando um novo tipo de qualificação.

Fico pensando nisso enquanto termino de organizar o material para a FEA. Se um evento acadêmico já exige atualização diária para não ficar defasado, imagino o desafio que isso representa para empresas, governos e trabalhadores tentando se ajustar em tempo real a uma tecnologia que muda o próprio ritmo da economia. Entre a política que se arrasta em escândalos antigos e a tecnologia que avança em semanas, o Brasil segue, como sempre, tentando decidir com qual velocidade quer correr — e continua sendo, de fato, com Z.


Análise Técnica

No post "o-mercado-respira" fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:

"Vamos aguardar mais alguns dias para ver se o Ibovespa ultrapassa os 178 mil e, principalmente, os 180,4 mil. Se isso acontecer, vou atualizar minha contagem. Mas nem pense em estourar a champanhe: mesmo que o mercado suba até algo como 186 mil / 192 mil, depois deve se suceder uma queda."



A bolsa reagiu de forma pujante nas últimas semanas e ultrapassou os níveis sugeridos acima, o que fez com que eu alterasse principalmente onde a onda A laranja se posiciona. Notem também que a onda B laranja, segundo esse critério, estaria em andamento e, como vocês já devem saber, ela é traiçoeira. E por que ela se comporta dessa forma? É uma combinação de forças: por um lado está na direção do movimento de prazo maior — no caso, alta — e uma força se contrapondo no momento — no caso, de baixa. A intensidade depende do volume de cada lado.

Mas pode ser uma outra opção: a de que a correção terminou; nesse caso, a onda B laranja deveria terminar entre 186 mil / 192 mil. Acima disso, essa alternativa ganha mais peso.

Se a ideia com que estou trabalhando estiver certa, enfatizo: cuidado com essa onda B, ela é traiçoeira e de repente muda de direção.



Um leitor e amigo me mandou um vídeo contando o que teria acontecido na bolsa. Segundo ele, um volume enorme de compra teria sido executado nos contratos de EWZ — negociados nos EUA — e também na compra de índice futuro, ambos para dezembro deste ano. Esse vídeo sugeria que "alguém" tinha alguma informação privilegiada, enfatizando que ambos os contratos vencem depois das eleições. Meu amigo perguntou o que eu achava. A primeira ideia que passou na minha cabeça era que esse "alguém" estava vendido e resolveu zerar, o que levou outros nesse sentido com a alta, ou então, fazer uma aposta na bolsa por algum motivo qualquer.

Se for o primeiro caso, enfatizo que em algum momento ele pode vender de volta e não comprar; talvez esta hipótese combine com a ideia da onda B. Agora, que informação ele poderia ter sobre as eleições, como sugere o vídeo? Nenhuma! Se foi por esse motivo, estaria especulando que, tanto faça quem ganhe, a bolsa teria que subir — está barata?

Conclusão: não percam seu tempo tentando descobrir quem comprou nem qual o motivo — o que vale é o gráfico, está tudo nos preços!

O S&P 500 fechou a 7.666, com alta de 0,46%; o USDBRL a R$ 5,1059, com queda de 0,96%; o EURUSD a € 1,1589, sem variação; e o ouro a U$ 4.389, com alta de 1,40%.

Fique ligado!

Comentários

  1. Tenho um e-commerce e por experiência própria eles estão se “matando” sozinhos, a maioria tem aversão a IA, diz que “fazer a mão fica mais bonito”. A maioria dos que não usam IA está a meses procurando vaga no linkedin, eu mesmo to até contratando mais, refazendo todas as fotos dos produtos novas. talvez o designer que fazia para marketing tenha sentido um pouco o baque da IA

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