A frenesi dos bonds #SP500
Escolher os assuntos do dia é, de certa forma, um exercício especulativo. Meu termômetro são as visualizações, que acompanho diariamente: hoje a média está na casa de 15 mil por semana e o total acumulado já passou de 1,6 milhão. Isso me diz que, de alguma forma, ando acertando na mosca.
No post de ontem me posicionei sobre o debasement do dólar, tema que deveria afetar principalmente os títulos americanos. É nessa linha que Robin Brooks argumenta em seu relatório de hoje. Mas discordo do enquadramento. O que realmente está em curso é um realinhamento global das taxas de juros, como bem mostra Ed Yardeni ao comparar o endividamento das principais economias desenvolvidas. Se houvesse mesmo debasement, ele deveria aparecer em todas as moedas de países desenvolvidos, e com muito mais intensidade no Japão e na Europa do que nos Estados Unidos — não é isso que vemos.
Government Debt as a Percent of GDP (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Canadá)
Mas o que é, afinal, uma crise da dívida, e com que velocidade ela se instala? Uma crise de dívida não avisa. Ela se anuncia com juros subindo aos poucos, dentro da normalidade, até o dia em que o mercado decide que não confia mais na promessa fiscal de quem emite o título. Foi o que aconteceu no Reino Unido em setembro de 2022. O gilt de 30 anos, que rondava 3,2% no início do mês, ainda parecia estável em torno de 3,5% duas semanas depois. Bastou o anúncio do pacote de cortes de impostos sem lastro fiscal da primeira-ministra Liz Truss, em 23 de setembro, para o juro saltar de 3,81% para quase 4,90% em pouco mais de uma semana — um movimento que normalmente levaria um ciclo inteiro de aperto monetário para se completar.
3-annuity-yields-chart-september-2022 — rendimento do gilt britânico de 30 anos, setembro de 2022
Essa é a assinatura de uma crise de dívida: não é o nível do juro que assusta, é a velocidade da subida. Fundos de pensão alavancados em estratégias de proteção contra esse mesmo risco viram-se forçados a vender títulos às pressas para cobrir chamadas de margem, empurrando os juros ainda mais para cima — um círculo vicioso que só parou quando o Banco da Inglaterra interveio comprando títulos "na escala que fosse necessária". Truss caiu em quarenta e nove dias.
Ainda fico perplexo com a intensidade dada pela imprensa, e naturalmente pelo mercado, ao debate atual sobre a dívida americana. Se tivessem um histórico mais longo de convivência com este espaço — e aqui vai o meu marketing, confesso, rs —, saberiam que venho advogando, do ponto de vista técnico, que os juros subiriam desde 2022. Mais recentemente, o volume de investimentos que a inteligência artificial está demandando talvez explique boa parte do frenesi atual. Com uma inflação de 3% e um juro real de 2%, imaginar que a taxa de 10 anos chegue a 5% ao ano é até uma conta modesta, dado o prêmio de risco que ainda deveria ser embutido. Mas não são minhas palavras que vão acalmar o mercado, será o preço: uma alta de 100 pontos nos juros provoca uma queda de 2,2% no preço do título, enquanto uma queda de 100 pontos gera uma alta de 12,3% — a assimetria da convexidade, que poucos param para calcular antes de apostar numa direção.
É justamente esse tipo de aposta que vejo no relatório de Brooks de hoje, e por isso quero destacar um gráfico específico: o que relaciona as surpresas de dados econômicos (positivas ou negativas em relação ao consenso) com o rendimento do título de 10 anos americano.
Positive data surprises (+) vs. 10-year US Treasury yield — correlação móvel de 30 dias entre surpresas de dados e variação diária do juro de 10 anos
Na minha leitura, esse gráfico é frágil demais para sustentar a tese que ele carrega. É uma série de dados diários tentando explicar uma variável — o juro de 10 anos — que reflete expectativas de médio e longo prazo, não o resultado de um payroll ou de um PMI isolado. Além disso, as notícias não têm o mesmo peso nem o mesmo grau de importância entre si: comparar uma surpresa de inflação com uma de vendas no varejo, como se ambas movessem os juros da mesma forma, é forçar uma correlação que os próprios dados não sustentam. Pior: não enxergo relação consistente nenhuma entre essas duas séries ao longo do tempo, apenas coincidências pontuais em torno de eventos como o SVB - falência do Silicon Valley Bank ou as eleições de 2024. Esse é um raciocínio típico de quem opera no mercado tentando validar uma posição já tomada, não de quem analisa com o distanciamento de um economista. Trader defende preço; economista busca causa. São ofícios diferentes, e vale a pena não confundi-los quando se lê um relatório como esse.
Análise Técnica
No post "crise-não-é-ctrlc-ctrlv" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
"Meu analista técnico associa uma probabilidade de 60% a 65% de que a onda 2 azul tenha terminado — para tanto, a bolsa precisa ultrapassar 7.800. O cenário alternativo é que essa onda ainda não terminou e poderia recuar até 7.489–7.500 e, por último, algo menos provável, mas que não pode ser totalmente descartado, é que a onda ainda não terminou, o que levaria a bolsa até 7.300–7.250."
O mercado não abriu até o momento em que estou escrevendo, mas é possível que ultrapasse o nível indicado de 7.638. Nesta situação, terei que reclassificar as ondas conforme mostrado no gráfico abaixo.
Destaquei, com o retângulo rosa, os níveis mais prováveis, e acredito que estejam ao redor de 7.500; muito abaixo disso, terei que considerar a opção descrita no post anterior.
Let The Market Speak!
Primeiro, a bolsa pode cair até 5% dentro do meu cenário mais pessimista — não acho pouco. Segundo, existem outras possibilidades que não externei, por serem ainda pouco prováveis. E, por último, achei que você já tivesse aprendido: sempre quero ver cinco ondas antes de entrar.
O S&P 500 fechou a 7.631, com queda de 0,71%; o USDBRL a R$ 5,1669, com queda de 0,56%; o EURUSD a € 1,1589, com queda de 0,24%; e o ouro a U$ 4.328, com queda de 2,71%.
Fique ligado!
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