Crise não é ctrl+C, ctrl+V #SP500
Ray Dalio é, sem dúvida, um dos personagens mais bem-sucedidos que o mercado financeiro já produziu. Fundou um dos hedge funds de maior visibilidade do mundo, a Bridgewater Associates, com um detalhe que diz muito sobre sua filosofia: o ticket mínimo para investir era de "50 paus" — no jargão do mercado, 50 milhões de dólares. Não é difícil entender o recado por trás dessa barreira: ele nunca quis ser incomodado com opiniões de quem não tivesse repertório para justificá-las.
Prever o futuro é ofício arriscado, e mesmo os melhores erram. Dalio acertou em cheio a crise de 2008, antecipando as quebras de bancos e empresas que pegaram praticamente todo o mercado de surpresa. Mas sua história tem tantos tropeços quanto acertos — vale um resumo enxuto:
| Previsão | Ano | Resultado |
| Depressão americana iminente | 1981–1982 | Errou — perdeu quase tudo e teve de demitir a equipe |
| Colapso do mercado após fim do padrão-ouro | 1971 | Errou — o Dow subiu quase 4% no dia seguinte |
| Crise do subprime | 2007–2008 | Acertou — Pure Alpha subiu 9,4% enquanto o mercado desabava |
| "Cash is trash", sem recessão à vista | Jan/2020 | Errou o timing — a recessão da Covid chegou dois meses depois |
| "Tempestade perfeita" na economia | Out/2022 | Errou o timing — coincidiu com o fundo do mercado |
E não foi só nas previsões que Dalio colecionou reviravoltas. Depois de meio século à frente da gestora que ele mesmo fundou, sua saída também rendeu capítulos, e teve mais disputa nos bastidores do que a narrativa de "transição planejada" deixa transparecer. Segundo relatos que vieram a público, três de seus principais executivos — dois deles ex-parceiros de longa data, que dividiam com ele a direção de investimentos — propuseram-lhe um pacote de saída: assumiriam dívida pessoal para comprar sua fatia majoritária, e em troca ele abriria mão dos cargos de comando. Dalio aceitou, perdeu o poder de decisão formal e virou uma espécie de mentor, mas saiu com um pacote financeiro bilionário. Só neste ano vendeu a última fatia que ainda detinha e deixou também o conselho, encerrando de vez o vínculo com a empresa que criou.
Mas o que me traz a Dalio hoje não é o passado, e sim um documento que ele publicou recentemente em seu perfil no LinkedIn, com um título que dispensa qualquer explicação adicional: "How Countries Go Broke" — como os países quebram. É sobre ele que quero falar.
Dalio recorre à sua tese central sobre o que chama de Grande Ciclo da Dívida: uma dinâmica que, segundo ele, se repete há séculos em praticamente todos os países que já tiveram moeda de reserva — do florim holandês à libra esterlina. O mecanismo, do jeito que ele conta, é simples de enunciar e devastador na prática. Quando o serviço da dívida de um governo cresce mais rápido que sua receita, o excesso de oferta de títulos públicos em relação à demanda obriga o banco central a escolher entre dois males: deixar os juros subirem, derrubando mercado e economia, ou imprimir dinheiro para comprar a própria dívida, desvalorizando a moeda. Os três sinais que ele recomenda observar são o peso do serviço da dívida sobre a receita do governo, o volume de venda de títulos em relação à demanda por eles, e o quanto o banco central está imprimindo para tapar esse buraco.
Aplicado aos Estados Unidos, o retrato que ele traça é desconfortável. A receita federal neste ano gira em torno de US$ 5,5 trilhões, contra despesas de US$ 7,5 trilhões — um rombo de US$ 2 trilhões, praticamente todo comprometido com gastos que não podem ser cortados no curto prazo. A dívida acumulada soma cerca de US$ 32 trilhões, seis vezes a receita anual, o equivalente a US$ 240 mil por família americana. Só o pagamento de juros consome US$ 1 trilhão, cerca de 20% da receita; somando o principal a vencer, o serviço total da dívida bate US$ 11 trilhões — o dobro de tudo que o governo arrecada. Na projeção de Dalio, sem mudança de rota, essa dívida pode chegar a US$ 55–60 trilhões em dez anos.
A solução que ele propõe — reduzir o déficit para 3% do PIB combinando corte de gastos, aumento de receita e queda de juros, ao mesmo tempo e em doses equilibradas — não é original nem surpreendente. O que chama atenção é o prazo que ele arrisca dar: "três anos, para mais ou para menos dois", caso o rumo atual não mude.
E é aqui que confesso minha desconfiança. Dalio colocou data para sua profecia se cumprir — e quem conhece o personagem sabe o que vem a seguir. Se acertar, não vai faltar quem lembre, em rede social, do "eu avisei". Se errar, ele empurra o prazo mais adiante, como já fez antes, porque nessa fase da vida ele não corre atrás de mais alguns dólares: corre atrás de notoriedade.
Não sei o que fazer com essa previsão, e friso: ela não me parece exigir nenhuma ação de curto prazo. Como dizia minha saudosa analista, você confronta a realidade com o sonho — no caso, com a previsão. Uma coisa é reconhecer os desequilíbrios fiscais americanos, que são reais e mensuráveis. Outra, bem diferente, é agir com base num prazo que o próprio autor admite, nas entrelinhas, que pode ser só um chute.
Em quase cinquenta anos de mercado, nunca vivi duas crises iguais. Elas não se repetem — cada uma nasce de um conjunto próprio de desequilíbrios, gatilhos e erros de avaliação. Por isso não acredito em "copy past de crises": a régua do passado ajuda a entender mecanismos, mas nunca serve para copiar e colar o futuro.
Análise Técnica
No post "Tudo tem dois lados" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
"A correção da onda c laranja está em andamento e, como tal, deve parar em 7.740 (nível já ultrapassado na abertura) ou em 7.710 — abaixo disso, é preciso analisar. Se a visão para calcular a retração for pela onda 2 azul, o espaço para a queda é superior a esses níveis, pois, como mostra o gráfico abaixo, o nível de 7.678 é o menor nível esperado."
Meu analista técnico associa uma probabilidade de 60% a 65% de que a onda 2 azul tenha terminado — para tanto, a bolsa precisa ultrapassar 7.800. O cenário alternativo é que essa onda ainda não terminou e poderia recuar até 7.489–7.500 e, por último, algo menos provável, mas que não pode ser totalmente descartado, a não terminou, o que levaria a bolsa até 7.300–7.250.
O S&P 500 fechou a 7.677, com alta de 0,32%; o USDBRL a R$ 5,1430, com queda de 0,19%; o EURUSD a € 1,1675, com alta de 0,10%; e o ouro a U$ 4.667, com alta de 0,31%.
Fique ligado!
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