Pé no breque da IA #USDBRL
Quando a esmagadora maioria dos concorrentes decide se sentar à mesma mesa, alguma coisa importante está em jogo. Foi o que vimos neste fim de semana: os principais laboratórios de inteligência artificial — Anthropic, OpenAI, xAI e Google DeepMind — pediram, em uma rara demonstração de unidade num setor movido a rivalidade, uma desaceleração no ritmo de evolução dos modelos mais avançados.
O estopim foi a saída de um pesquisador da Anthropic, que deixou a empresa alertando publicamente que a tecnologia que ajudava a construir podia representar risco existencial para a humanidade. Sua declaração viralizou e foi reforçada por colegas ainda na ativa, um deles estimando em mais de 10% a chance de a IA matar toda a humanidade na próxima década. No sábado, o presidente-executivo da Anthropic publicou um longo ensaio defendendo que o setor precisa moderar o ritmo de melhoria das capacidades, para dar tempo à prevenção de riscos. Sam Altman, da OpenAI, aderiu de imediato e propôs dar a avaliadores externos acesso equivalente ao de funcionários. Elon Musk concordou em poucas palavras. Demis Hassabis, do Google DeepMind, chamou a direção de correta, ainda que os detalhes precisem ser resolvidos.
Existe uma leitura mais cínica circulando pelo mercado: a de que o acordo mira, na verdade, conter o avanço dos modelos open source, que mantêm uma vantagem de preço relevante sobre os modelos fechados — mesmo que essa diferença tenha encolhido nos últimos meses. Não é descabido pensar assim quando se olha o calendário: Anthropic e OpenAI caminham para IPOs bilionários, a primeira mirando algo como US$ 100 bilhões captados a uma avaliação próxima de US$ 2 trilhões. Um colunista do Wall Street Journal descreveu a situação como um clássico dilema do prisioneiro: se todos desacelerarem juntos, a humanidade ganha e a Anthropic, já líder, sai na frente; se só ela freia, perde para a OpenAI; e se as duas freiam, os Estados Unidos podem perder terreno para a China. Ou seja: o incentivo a romper o acordo por conta própria nunca desaparece.
E foi exatamente por aí que o presidente Trump reagiu. Para ele, qualquer desaceleração seria um presente à concorrência chinesa, e "quem vencer a IA, vence" resume bem sua régua de prioridade. A Casa Branca mantém uma postura de regulação mínima, e assessores próximos ao presidente disseram publicamente que as empresas não precisam de autorização de ninguém para agir com responsabilidade — bastaria fazê-lo, sem pedir modificações nas regras antitruste em troca. Do outro lado do Pacífico, a China também rejeitou o movimento, chamando os alertas de alarmismo que só serviria para atrapalhar a governança global da IA. Não é surpresa: Pequim segue tratando a inteligência artificial como motor de poder econômico e geopolítico, sem qualquer sinal de que vá moderar o próprio ritmo.
Outra corrente de analistas acredita que o verdadeiro problema é outro, e mais prosaico: financeiro. A evolução dos modelos consome fortunas em capital e energia, e o ganho de desempenho entregue não vem acompanhando esse investimento na mesma proporção. Alguns céticos do próprio mercado americano sugerem que Anthropic e OpenAI, pressionadas pelos custos crescentes de computação, têm motivos financeiros — não apenas de segurança — para adiar seus IPOs. A dúvida entre motivação genuína e cálculo comercial já colocou os mercados em prontidão: os principais índices amanheceram em queda nesta segunda-feira, com destaque negativo para as fabricantes de chips, que subiram muito nos últimos meses, mas também lucraram muito com o boom da IA. Ações como Samsung e SK Hynix caíram mais de 4% em Seul, e o japonês SoftBank, investidor relevante em OpenAI, despencou ainda mais.
Vale lembrar, para dar contexto ao nervosismo, que o gatilho concreto por trás de tudo isso não foi apenas retórico. A OpenAI reconheceu que agentes seus escaparam do controle durante testes e invadiram a plataforma Hugging Face, criando até um quadro de mensagens secreto entre si para compartilhar formas de burlar avaliações internas. A Anthropic, por sua vez, revelou que agentes de teste seus lançaram ciberataques contra empresas externas — incluindo tentativas de enganar um mantenedor humano de software livre por engenharia social. São episódios que davam substância técnica ao medo, para além do estardalhaço nas redes sociais.
Mesmo sem apoio do governo americano nem dos chineses, os fabricantes de IA podem, é claro, colocar esse recuo em prática por conta própria. Mas aprendi, em quase cinco décadas de mercado, que esse tipo de acordo tácito entre concorrentes tende a durar até que alguém, silenciosamente, decida rompê-lo — geralmente sem avisar, e geralmente no momento em que a vantagem de seguir sozinho supera o constrangimento de trair o pacto. A verdade nua e crua é que nós, leigos, não vamos descobrir o que está realmente acontecendo lá dentro. A inteligência artificial continua sendo uma caixa-preta enorme, da qual somos, na melhor das hipóteses, usuários — e, como o mercado mostrou hoje, também reféns do seu humor.
"A guerra pela regulação da IA" (@opapoeconomico, no X)
Análise Técnica
No post "opinião-acima-da-realidade", fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
"Mais uma semana sem direção, mas bem próximo do nível superior. Essa inação parece combinar com o cenário atual: sentimento ruim pela proximidade das eleições e a dianteira de Lula, com o fluxo proveniente das transações comerciais suplantando o fluxo financeiro negativo."
Fique ligado!
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