O dólar dormiu #IBOVESPA
Já faz alguns anos que embarquei no otimismo com a inteligência artificial e, até aqui, não tenho do que me arrepender. Como em toda mudança estrutural, surgem tropeços pelo caminho. A grande dúvida já não é se a IA vai transformar a vida das pessoas, mas se os investimentos realizados e programados serão rentáveis.
Já comentei antes, mas não custa repetir: acredito que teremos um mundo mais estável, em que se cometerão menos erros e muito mais acertos nos negócios, na saúde e no bem-estar. Uma visão otimista demais? Talvez. Somente a realidade vai me responder.
Nos mercados, o que se pode esperar é uma queda da volatilidade. Com informação cada vez mais acessível, a custo zero ou muito baixo, para um número crescente de pessoas, a tomada de decisão melhora e os sustos diminuem. A questão é saber se isso já está acontecendo. Para responder, é preciso olhar a volatilidade em três frentes: bolsa, juros e câmbio. Em duas delas, bolsa e câmbio, os níveis já são muito baixos. Na de juros, ainda não estão nas mínimas.
Começo pela bolsa. O VIX, que mede a volatilidade esperada do S&P 500, está hoje em 14,21, bem abaixo da sua mediana histórica, e a volatilidade efetivamente realizada do índice está em apenas 9,49. Já esteve em níveis tão baixos quanto os atuais, é verdade, mas sempre em momentos de muita calmaria, algo que não se pode dizer do que estamos vivendo. Nem preciso elencar os motivos. Além disso, a explosão dos resultados das empresas, por si só, já deveria garantir uma volatilidade maior. Não é isso que ocorre.
“VIX | S&P 500 Volatility Index” (StreetStats, 23/09/2026)
E que explosão. O Deutsche Bank mostra que o lucro por ação do S&P 500, desde 1935, cresceu dentro de um canal notavelmente estável, de cerca de 6,5% ao ano. Nem a Grande Depressão, nem o boom do pós-guerra, nem a globalização, nem a era da internet tiraram os lucros desses limites. Agora, depois de anos de baixa produtividade e baixo crescimento no mundo desenvolvido, os lucros americanos estão rompendo o canal para cima, com enorme ajuda da IA.
Jim Reid, que assina o estudo, faz uma ressalva honesta: o gráfico acompanha o lucro por ação, que pode ser inflado por recompras. Mas esse efeito atingiu o auge na década de 2010, antes do rompimento, e nos últimos 60 anos o lucro total das empresas cresceu até mais rápido que o lucro por ação. A pergunta que ele deixa é direta: bolha ou ruptura? Se a ruptura se sustentar, será uma das quebras estruturais mais relevantes da história moderna dos mercados. A trajetória de longo prazo está saindo do “normal”.
No mercado de juros, a volatilidade não está nas mínimas, mas está razoavelmente baixa. O índice MOVE, que mede a volatilidade dos títulos do Tesouro americano, está hoje em 81,20, perto da sua mediana histórica.
“MOVE | Treasury Volatility Index” (StreetStats, 23/09/2026)
Motivos para agitação, no entanto, não faltam: déficit elevado, inflação, intromissão do governo, grandes detentores, no caso governos, liquidando parte das suas posições e, por último, mas não menos importante, o volume de recursos agora demandado também pelo setor privado. Mesmo com tudo isso, os níveis não estão longe das mínimas.
O que realmente chama minha atenção, porém, é o câmbio. Num mercado que negocia cerca de US$ 10 trilhões por dia, o maior do planeta, a oscilação praticamente desapareceu. Neste mês, a volatilidade do euro contra o dólar foi a mais baixa desde a pandemia.
“Volatilidade realizada de um mês do euro contra o dólar”, do artigo “FX Traders Grapple With Volatility Drought That’s Here to Stay” (Bloomberg)
Me recordo bem de inúmeros dias em que o dólar oscilava 2% num único pregão. Hoje, quando vou publicar o Mosca, é 0,10% para cá, 0,10% para lá.
A Bloomberg relata que, pelo segundo ano seguido, a falta de volatilidade foi um dos grandes temas do encontro anual do setor em Amsterdã. Os operadores já tratam a calmaria como o novo normal, e não como uma fase passageira. Choques em juros, petróleo e geopolítica produzem apenas surtos breves, e cada pico vira oportunidade para vender volatilidade de novo. A mesma reportagem remete a outro texto cujo título diz que os operadores culpam os avanços “insanos” da tecnologia pelo mercado parado.
Há quem veja perigo nessa calmaria. Harel Jacobson, da Capstone, lembra que a volatilidade baixa obriga a montar posições maiores para obter o mesmo retorno, o que transforma a carteira numa bomba-relógio quando o raro grande movimento chega.
Mesmo os emergentes estão passando pelo mesmo fenômeno. Na África do Sul, a volatilidade do rand contra o dólar está na mínima em duas décadas, a ponto de o Rand Merchant Bank repensar como opera seu negócio de opções. Não acompanho o real em detalhe, mas basta observá-lo para notar o marasmo, mesmo com tanta indefinição política logo ali na esquina. Vejo vários analistas projetando queda do dólar caso Flávio vença, e alta caso a vitória seja de Lula. Com os dois empatados, isso não deveria gerar mais volatilidade?
A resposta está nas opções. Segundo o Valor, a volatilidade implícita de um e dois meses do dólar contra o real subiu para perto de 19% no início de setembro, contra 15,5% uma semana antes. O JP Morgan, citado pelo Money Times, calcula que o mercado já precifica um movimento de cerca de 6% ao longo dos dois turnos. O dólar à vista pode estar parado, mas a incerteza não sumiu: foi precificada e empurrada para a data em que será resolvida. Se isso não é eficiência, é algo muito parecido.
Não posso afirmar que o que vem acontecendo nesses mercados seja consequência da IA. Posso até estar enviesado, e não estou convicto da tese: pode ser apenas um momento especial, que mudará no futuro. Mas vale o registro: nesses mercados, a eficiência parece já estar em curso.
O parâmetro a ser observado é a volatilidade. O tempo dirá se foi exceção ou se, por esse critério, os mercados ficarão menos atrativos. Em conjunto, é preciso acompanhar o volume: com menos oscilação, os operadores terão de negociar mais para ganhar o mesmo. Vão continuar tentando tirar leite, só que, em vez de vaca, de pedra.
Análise Técnica
No post “a-bola-de-cristal-sempre-falhou”, fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:
“Existe uma relação no tempo entre as ondas 2 e 4; sob essa ótica, seria de se esperar que o Ibovespa ficasse contido entre 160 mil e 200 mil pontos por um bom tempo, já que esse tipo de configuração costuma resultar em formações de triângulo. Em todo caso, não é o que está expresso no gráfico abaixo, que mostra um zigue-zague das ondas A-B-C laranja (...) Se minha leitura se confirmar, vamos passar um bom tempo assistindo sem se posicionar na bolsa, com uma exceção: se ultrapassar 200 mil pontos ou cair abaixo de 134 mil pontos, terei que refazer minha contagem.”
Nos comentários de hoje, enfatizo a queda da volatilidade do dólar, no caso, em relação ao real. Aqui também se observa algo semelhante e, segundo os analistas, uma vitória de Flávio Bolsonaro geraria uma onda de otimismo. Até entendo essa atitude, pois ninguém aguenta mais a política econômica do atual governo, para dizer pouco. Mas consertar o país não será fácil, e não estamos livres de uma recessão em 2027. De todo modo, não vou reclamar: seria muitooooo melhor!
O S&P 500 fechou a 7.706, com queda de 0,75%; o USDBRL a R$ 5,1683, com alta de 1,27%; o EURUSD a € 1,1385, com queda de 0,55%; e o ouro a U$ 4.285, com queda de 1,68%.
Fique ligado!
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