O medo da virada #SP500

 


Na semana passada eu estava assistindo ao jogo do Palmeiras contra a LDU do Equador, pela Taça Libertadores — o que não fazemos pela família. O jogo estava disputado, quando, no segundo tempo, o Palmeiras abriu uma vantagem de dois gols no agregado. Faltando menos de 15 minutos para o fim, meu genro começou: "cuidado, podemos tomar dois gols". Eu respondia que era para esquecer, que mesmo com o time se defendendo a chance era muito baixa. Foi quando o técnico explosivo do Palmeiras, Abel Ferreira, foi mais uma vez expulso, e a partir daí a situação complicou: a LDU marcou os dois gols e levou a disputa para os pênaltis. Ainda bem que o Palmeiras ganhou, porque não sei do que meu genro seria capaz! Rs.

O leitor deve estar se perguntando o que essa situação tem a ver com os mercados de hoje e com a grande dúvida do momento sobre a inteligência artificial. É que os investidores, como meu genro, estão com medo da virada. E, como os artigos que acompanho mostram, mesmo com os lucros crescendo de forma expressiva, os múltiplos de preço sobre lucro estão nos patamares mais baixos para o setor de tecnologia em anos. O P/L da indústria de tecnologia do S&P 500 está longe dos picos da bolha das pontocom, e as "hyperscalers" sequer negociam com prêmio relevante sobre o índice — algo raro num ciclo de euforia.


"S&P 500 IT Sector's P/E Ratio" e "No Hyperscale Premium", do artigo "AIndicators: Hiking cycle is a red-flag moment" (John Authers, Bloomberg Opinion)]


A confirmação mais recente veio hoje mesmo: um relatório da Yardeni Research mostra que, desde janeiro, o lucro futuro projetado do S&P 500 já subiu 28,3%, contra apenas 13,4% de alta no preço do índice — o que empurrou o P/L futuro para baixo, uma queda de 11,6% no ano. Os próprios Ed Yardeni e Toby Hearst batizaram esse fenômeno de "FEMO" (fabulous earnings momentum, algo como "momento fabuloso de lucro"), argumentando que os investidores estão ganhando confiança de que esse ritmo de lucro é real. O P/L combinado dos setores de tecnologia e comunicação caiu de 29 vezes no fim do ano passado para 19,5 vezes hoje — o oposto do que se esperaria numa bolha.


S&P 500 Price Index vs P/E vs E", do artigo "Tech Is Top Dog Again As Investors Conclude It Is Cheap" (Ed Yardeni & Toby Hearst, Yardeni QuickTakes)


O caso mais emblemático desse descolamento é a própria Nvidia. A ação negocia hoje a menos de 17 vezes o lucro projetado para os próximos doze meses — múltiplo mais baixo em mais de uma década, metade do que valia em 2025 —, mesmo com receita e lucro líquido projetados para saltar 90% e 99% no ano fiscal de 2027. Não é à toa que Jensen Huang, CEO da companhia, chamou a Nvidia de "a primeira e única growth value stock do mundo" e a definiu como "incrivelmente incompreendida". A ação sobe 22% em 2026, mas fica atrás do setor: o índice de semicondutores Philadelphia avança quase 76% no ano, com Micron, Intel e AMD subindo mais de 180%. O dinheiro não está saindo da inteligência artificial — está migrando dentro dela, para quem parece mais barato.

Os investidores ficam olhando para o que poderia marcar os gols, e um grande candidato é os juros: o título de dez anos americano superou 5% pela primeira vez desde 2007, e o Federal Reserve voltou a subir juros. Não é só por aqui — Estados Unidos, Europa e Japão subiram juros ao mesmo tempo nas últimas duas semanas, com o Banco do Japão à máxima desde 1995. Mesmo assim, o mercado global não travou, porque as estimativas de lucro seguem revisadas para cima: o Deutsche Bank elevou sua projeção de lucro por ação do S&P 500 para 2027 para US$ 420 (alta de 17%) e mantém a meta de 8.000 pontos, hoje a menos de 5% dela. Só uma coisa chama atenção: a China, em vez de subir os juros, vem cortando, e há muito tempo. Se isso não é sinal de deflação, não sei mais o que seria.


"S&P 500 LTM EPS ($/sh) — Consensus has been continuously shifting higher", do artigo "DB CoTD: To 8,000 and Beyond?" (Jim Reid, Deutsche Bank Research)]


Vale lembrar, porém, que ciclo de lucro esticado não é sinônimo automático de desastre — mas também não dura para sempre. Um estudo recente da Bloomberg Opinion mapeou 35 ocasiões desde a década de 1870 em que o S&P 500 sustentou crescimento de lucro em dois dígitos. A duração média foi de 23 meses, e em 33 dos 35 casos o crescimento deu lugar a queda de lucro, por cerca de 20 meses. A sequência atual já dura 33 meses — mais que a média —, o que reforça o medo generalizado da virada. A boa notícia: nessas 33 ocasiões, o tombo médio de pico a vale nas ações foi de 24%, bear market moderado e sempre temporário; só ficou feio quando havia crise de verdade por trás, como em 2008 ou no choque do petróleo de 1973 — não uma simples acomodação do ciclo de lucros. Na prática, o S&P 500 não está barato, mas também está longe de ser irracional.

Uma alta de juros se traduz em valuation menor, afinal o cálculo justo de uma ação é o valor presente do fluxo de caixa futuro. Mas, como um analista que acompanho no X, Vlad Bastion, apontou citando Michael Mauboussin, para um retorno sobre capital incremental acima de 35% — o caso hoje das hyperscalers, contra custo de capital de cerca de 8% —, dificilmente os juros, isoladamente, seriam o problema. O próprio Vlad lembra que a Walmart teve fluxo de caixa livre negativo por 14 anos seguidos entre 1973 e 1986, investindo pesado em expansão, e ainda assim rendeu 33% ao ano, três vezes o S&P 500 do período: fluxo de caixa negativo não é sinal de fraqueza, pode ser sinal de crescimento.


"10-Year Government Bond Yields" (EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Japão, China), do artigo "GLOBAL MARKET CALL: Stocks Weathering Storm In Bonds" (Ed Yardeni & Toby Hearst, Yardeni QuickTakes)]


Outro assunto que vem se tornando até chato de tanto que é repetido é o volume investido nos data centers — algo como US$ 5,5 trilhões de capex projetado, boa parte financiado com dívida. Por enquanto as hyperscalers vão continuar investindo, e só saberemos no futuro se foi demais ou não. O "spread wickselliano" — diferença entre o retorno real sobre capital investido pelas empresas americanas e o custo real de capital — ainda não cruzou o patamar que historicamente antecede uma desaceleração generalizada de investimentos, embora esteja perto dele. Se os juros reais continuarem subindo, esse é o candidato mais provável a provocar a virada — não um post pedindo cautela com a IA.


"ROIC - WACC: A Wicksellian spread for the US corporate sector", do artigo "Dario Cannot Pace The AI Frontier, But Real Yields Might" (Gavekal Research)]


Nem falar da concentração, enorme e desconfortável para os institucionais. Cerca de 40% do valor de mercado do S&P 500 já está em empresas ligadas à infraestrutura de IA. Três fabricantes de semicondutores respondem por mais de um quarto de um dos principais benchmarks de mercados emergentes, e a IA já representa quase metade da emissão de dívida com grau de investimento este ano. Fundos de pensão bilionários, como o de aposentadoria de Nova York, recusam alocações por excesso de exposição à IA — porque hoje quase tudo virou, de alguma forma, uma aposta em inteligência artificial.


"Tech-Heavy Stocks Make Up Majority of S&P 500 Market Cap", do artigo "AI Risk Is Everywhere and It's Making Billion Dollar Funds Nervous" (Bloomberg)]


Nitidamente os investidores estão com receio da virada. E, diferentemente do futebol, se ela acontecer, não vai ter pênaltis para salvar ninguém.


Análise Técnica

No post "5%-o-nível-da-febre", fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

"os pontos onde poderia ocorrer a reversão — está apontada nos retângulos azul e laranja abaixo, e vale tudo o que discorri acima. E se, mesmo assim, o S&P 500 continuar caindo? Não estará totalmente invalidada minha contagem até o nível máximo de 7.316, demarcado como stop loss"



Embora ontem não tenha publicado o Mosca ontem, meus alertas continuavam ativos, e ocorreu algo que me fez reentrar na bolsa na abertura. Quais foram esses indicadores:

  • O movimento da onda 2 azul denota nitidamente uma correção, o que sugere aguardar 5 ondas de alta;
  • A retração ficou dentro do nível mais esperado de 61,8% (anotado no gráfico)
  • Numa janela de 15 minutos é possível observar 5 ondas de alta — reconheço que é uma janela muito curta e sujeita a erros;
  • Houve um gap1 na abertura, característico de ondas 3, que é o caso.

1 Gap de preço é o espaço vazio que se forma num gráfico quando o preço de abertura de um ativo fica bem acima ou bem abaixo do fechamento do pregão anterior, sem nenhum negócio ocorrendo naquela faixa de preço intermediária — geralmente causado por notícias relevantes divulgadas fora do horário de negociação.

No caso não houve notícias relevantes, mas o mercado "achou" uma: a queda do preço do petróleo. Não acho que seja esse o motivo, mas sim o que relatei no post de hoje, que poderia resumir assim: parte do mercado está otimista com os lucros, mas receosa ao mesmo tempo; quando nada é publicado, esse segundo fator predomina. Com essa ideia, iniciei uma sugestão de trade a 7.691 e stop loss a 7.649.

Ainda não é hora de abrir a champanhe: é fundamental que a máxima seja rompida. Se eu estiver certo, nas próximos semanas poderá ocorrer uma alta forte. Let The Market Speak!



O S&P 500 fechou em 7.764, sem variação; o USDBRL a R$ 5,1012, com queda de 0,16%; o EURUSD a € 1,1448, com queda de 0,13%; e o ouro a U$ 4.358, com alta de 0,34%.

Fique ligado!

Comentários