Sempre acompanhei análise fundamentalista, mas a base da minha decisão sempre foi a análise técnica, não o balanço trimestral ou o múltiplo de lucro. Quando os dois se alinham, a confiança na tese aumenta. Mas nas condições atuais de mercado, confesso que a técnica me parece mais útil do que o fundamento para identificar padrões e mudanças de regime. Um conjunto de dados que vi recentemente, produzido por uma das maiores mesas de execução do mundo, reforça essa convicção: quem está realmente apertando o gatilho das compras e vendas do dia a dia mudou, e essa mudança pesa mais na formação de preço do que qualquer P/L.

Primeiro ponto, o mais conhecido: a concentração da bolsa americana bateu novo recorde. As dez maiores empresas já respondem por quase 40% do S&P 500. Isso não é novidade para quem acompanha o Mosca. O que chama atenção é a velocidade: os semicondutores sozinhos quadruplicaram sua fatia do índice desde 2020. Não são mais "as ações de tecnologia". São os teracórnios, um punhado de empresas cujo valor de mercado individual supera o PIB de países inteiros, carregando o índice inteiro nas costas. Quando cinco ou seis nomes decidem o dia, o "mercado" deixou de ser uma média de opiniões e virou uma aposta concentrada travestida de diversificação.

Segundo ponto, esse sim menos comentado: quem compra essas ações mudou de perfil, e essa concentração de posição na mão de investidores menos qualificados tecnicamente é, por si só, fonte de volatilidade. Não porque o investidor de varejo seja incompetente, mas porque decisão de manada reage a preço, não a dado. Os números mostram que a metade mais pobre das famílias americanas nunca teve tanta ação em carteira, crescimento de mais de 500% desde 2010. Ao mesmo tempo, e aqui está o paradoxo que mais me interessa, essas mesmas famílias mantêm o caixa como proporção dos ativos financeiros no maior nível em três décadas. Otimismo recorde e cautela recorde, na mesma carteira, ao mesmo tempo. Isso não é contradição de dado, é retrato de um investidor que quer estar exposto à festa mas já dorme com a mão na porta de saída.

O efeito prático disso é que o mercado começou a reagir menos a balanço e mais a manada. Quando o comprador marginal é um volume enorme de investidores de varejo operando em conjunto, movidos por aplicativo, notificação e rede social, o preço passa a responder mais ao que "todo mundo está comprando" do que ao que a empresa efetivamente entregou no trimestre. E aqui vale reforçar o ponto que sempre defendo: o que move o preço no curto e médio prazo é ganância e medo, não P/L, não múltiplo, não indicador algum de livro-texto. A análise técnica existe justamente para ler esse comportamento coletivo antes que o fundamento o explique.
Terceiro ponto, o mais perigoso: o volume especulativo desse grupo está em outro patamar. Um a cada três contratos de opções negociados nos Estados Unidos hoje vence no mesmo dia. Quase metade de tudo que o varejo negocia em opções é dessa espécie, aposta que nasce e morre em 24 horas. Some a isso o crescimento acelerado de ETFs alavancados, hoje em patamar recorde, e o custo do dinheiro emprestado para essas apostas subindo ao mesmo tempo. Mais gente pedindo alavancagem, e a alavancagem ficando mais cara. Historicamente, essa combinação não termina em festa continuada. Termina em alguém sendo forçado a vender rápido demais, quando a maré vira.


Esse conjunto, concentração extrema, comprador marginal menos qualificado tecnicamente e alavancagem de curtíssimo prazo crescendo junto com o custo do dinheiro, é exatamente o terreno propício para a formação de bolhas. Não estou dizendo que estamos dentro de uma agora. Estou dizendo que as condições estruturais para que uma se forme estão todas presentes na mesa, e ignorar isso seria uma escolha, não uma leitura honesta dos dados.
E aqui chego ao que realmente importa perguntar: o que muda daqui para frente? Três cenários possíveis, e nenhum deles é "nada muda".
O primeiro é o mais desconfortável de admitir: enquanto o varejo continuar comprando toda queda com o mesmo apetite recorde que os dados mostram, a concentração se aprofunda e o mercado fica cada vez mais parecido com uma aposta em cinco nomes, não em uma economia. Sobe mais rápido, mas também fica mais frágil, porque a diversificação virou ilusão estatística.
O segundo é o inverso: em algum momento, um evento externo, um choque de taxa de juros, uma decepção de resultado em um dos teracórnios, obriga esse mesmo varejo alavancado a desmontar posição rápido. Quando a compra é financiada e de curtíssimo prazo, a venda também é. É assim que quedas de 2% viram quedas de 8% em poucos dias, sem notícia que justifique o tamanho do movimento. Não é o fundamento que quebra primeiro, é a estrutura.
O terceiro, o que menos se fala e talvez o mais provável: nada quebra de forma dramática, mas o caráter do mercado muda de forma permanente. Volatilidade sobe junto com o preço, ao contrário do padrão histórico, porque quem sustenta a alta é fluxo especulativo de curto prazo, não convicção de longo prazo. Isso já está acontecendo. Documentado, não hipótese, em quase 7 de cada 10 dias de alta do Nasdaq neste ano.
Fico com uma constatação simples, sem tentar prever o dia exato da virada, porque quem promete data está mentindo ou tem sorte. O mercado de hoje não é o mesmo de dez anos atrás, não porque as regras da bolsa mudaram, mas porque mudou quem está sentado na mesa. E como sempre repito por aqui: quando o comprador marginal muda, o comportamento do preço muda junto, mesmo que a empresa por trás dele continue exatamente a mesma.
Análise Técnica
No post "correndo-atras-do-prejuizo" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
"Se o movimento de alta tiver começado, o dólar não deveria cair até R$ 5,00, mencionado como stop loss, e gostaria de vê-lo a R$ 5,39 — o que completaria 5 ondas. Por enquanto é só isso que posso adiantar."
Na semana passada o dólar ficou contido numa margem bastante estreita ao redor de R$ 5,20, o que é uma boa performance para a opção que estou imaginando de reversão. Vamos ficar atentos ao nível que destaquei de R$ 5,38 para a formação de 5 ondas. Notem que não é necessário atingir esse patamar, mas seria ideal. Se ocorrer, a próxima sequência irá definir se o dólar estará pronto para subir ou se haverá uma falha e novas baixas se sucederão — saberemos, então, se a correção a se formar será em 3 ondas. Observem que ajustei o stop loss.

Um pequeno comentário sobre o futebol, que passou a ser vencido por quem tem precisão. Para quem está assistindo aos jogos, não é estranho que houvesse tantos gols lindos? Na minha visão, isso vem ao encontro dessa ideia: somente gols "lindos", ou seja, executados com precisão — entram no cantinho, batem na trave e entram — podem acontecer, porque os goleiros hoje em dia têm outra formação. No pênalti que o Brasil perdeu, não foi porque o goleiro pegou bem: Bruno Magalhães bateu mal, e Endrick não teve precisão no gol que não podia perder. Já Haaland ficou parado o jogo inteiro — participou de apenas 25 lances, segundo a estatística —, mas, quando acionado, foi preciso. Conclusão: não estamos preparados para essa nova fase do futebol; ainda nos iludimos achando que a habilidade é a principal característica de um jogador, quando deveria ser apenas mais uma. Se querem uma performance pior que a nossa, veja o que ocorreu com a Itália.
Daqui em diante a política entra em campo, e aí o jogo será muito pior.
A partir de quarta-feira inclusive não haverá publicação do Mosca, que voltará normalmente na próxima segunda-feira, dia 13/07. Alguns dias de descanso.
O S7P 500 fechou a 7.537, com alta de 0,72%; o USDBRL a R$ 5,1490, com queda de 0,71%; o EURUSD a € 1,1441, sem variação; e o ouro a U$ 4.163, com queda de 0,23%.
Fique ligado!
Comentários
Postar um comentário