Direto na jugular #USDBRL
A rodada de negociações realizada neste fim de semana em Islamabad
terminou sem acordo. Vinte e um horas de conversas; o encontro de maior nível
entre Washington e Teerã em quase cinco décadas; e o único ponto que não
avançou foi justamente o que mais importa: o programa nuclear iraniano. Tudo o
mais, ao que tudo indica, estava praticamente encaminhado. Mecanismos de
monitoramento, canais de comunicação, cronogramas escalonados de retirada. A
arquitetura de um acordo existia. Faltou a pedra angular.
Segundo análise do observador Shanaka Anslem Pereira, os Estados Unidos
entregaram uma proposta de 15 pontos ao Irã via o chefe do Exército
paquistanês, no final de março. Os iranianos responderam com uma contraproposta
de 10 pontos, divulgada pela mídia estatal no dia 8 de abril. Cada exigência
central de um lado era o espelho invertido da exigência do outro. Os americanos
querem o fim total do enriquecimento de urânio em solo iraniano; os iranianos
exigem o reconhecimento do enriquecimento como direito soberano. Os americanos
pedem a desativação das instalações nucleares; os iranianos cobram reconstrução
das que foram destruídas. Não é uma lacuna negocial. É um impasse estrutural.
E ainda assim, o próprio Trump declarou em sua rede social que a reunião
correu bem, que a maioria dos pontos foi acordada e que o único ponto realmente
problemático foi o nuclear. Do lado iraniano, o chanceler Araghchi afirmou que
as delegações estavam "a centímetros de um memorando de entendimento"
e acusou Washington de deslocar as balizas no último momento. Duas narrativas
diametralmente opostas sobre as mesmas 21 horas na mesma sala. O resultado
prático: um cessar-fogo que expira em 22 de abril, nove dias pela frente, com
as duas propostas sobre a mesa em Islamabad e ninguém para relê-las.
Foi nesse contexto que Trump decidiu agir. Horas depois do colapso das
negociações, a Marinha norte-americana iniciou o bloqueio de todo o tráfego
marítimo com destino ou origem nos portos iranianos. A diferença entre o que o
presidente anunciou e o que o Comando Central das Forças Armadas implementou,
porém, é relevante. Trump proclamou o bloqueio de "quaisquer navios
tentando entrar ou sair do Estreito de Ormuz". O comando militar foi mais
cirúrgico: bloqueio apenas do tráfego com destino a portos iranianos,
preservando a livre circulação dos demais. Dois sistemas de poder
expressando-se simultaneamente: a mensagem política maximiza a pressão; a
instrução operacional preserva os 80% do petróleo do Golfo que abastece os
aliados.
Quanto ao impacto no preço do petróleo, Brooks estima que o cenário-base;
com o Golfo Pérsico operando à metade da capacidade pré-guerra, cerca de 10
milhões de barris por dia; leva o Brent para cerca de US$ 114 por barril.
Acrescente os 2 milhões de barris iranianos retirados do mercado e o valor sobe
para aproximadamente US$ 123. São números altos, mas já navegados antes pelos
mercados globais. Não são, em si, gatilho de recessão.
Há quem veja estagflação no horizonte. A economista-chefe da KPMG, Diane
Swonk, alertou que o choque da guerra vai muito além do petróleo, perturbando
cadeias produtivas globais. O economista James Knightley, do ING, projeta que a
inflação medida pelo índice preferido do banco central chegue a 4% este ano; o
dobro da meta. Os mais pessimistas, como Amy Crews Cutts, colocam a
probabilidade de recessão em 85%, argumentando que a guerra no Irã seria o
catalisador que faltava para derrubar o consumidor americano, até agora
resistente a pressões inflacionárias.
A questão central que permanece em aberto é se os dirigentes iranianos
estão dispostos a aceitar o sofrimento econômico de sua população como preço
pela manutenção do programa nuclear. Não há cronograma fixo para que um
bloqueio surta efeito diplomático. Mas a mecânica é inevitável: sem dólares de
exportação, sem importações, sem atividade econômica, sem moeda estável.
O que me chama a atenção nesse xadrez é a assimetria de informação sobre
o que realmente ocorreu em Islamabad. Se Trump diz que quase tudo foi acordado
e Araghchi diz que estavam a centímetros de um memorando, a distância real pode
ser menor do que o bloqueio naval sugere. A pressão econômica agora aplicada
sobre Teerã pode ser o último empurrão necessário para que os mulás aceitem o
único ponto que ainda resiste: abrir mão do arsenal nuclear. Ou pode ser o
estopim de uma escalada que ninguém controla.
Trump está desferindo um golpe direto a jugular dos negociadores
iranianos. Resta saber se eles encontrarão fôlego para um contragolpe; ou se
sucumbirão por falta de ar.
Análise Técnica
No
post “o pragmatismo do dinheiro”, fiz os seguintes comentários sobre o
dólar:
“Por
outro lado, do ponto de vista técnico, está muito próximo de atingir seu
objetivo ao redor de R$ 5,00, e, se minha contagem estiver certa, poderá
ocorrer um ponto de inflexão nesse nível. Mas, por enquanto, isso são só
conjecturas.”
O
número de artigos colocando o Brasil como um país beneficiado pela guerra —
além das outras virtudes no campo das commodities — tem sido crescente, gerando
fluxo de entrada nas bolsas e, provavelmente, apostas na moeda. O que talvez
esses analistas não percebam (ou prefiram não ver) é a situação institucional
crítica, bem como o descontrole do déficit público, que não era uma pauta desse
governo e muito menos agora, já na reta final.
Em
relação ao câmbio, Robin Brooks é muito otimista e projeta o nível de R$ 4,50.
Nesse
contexto, o real tende a se fortalecer como uma moeda de alto beta, capturando
fluxo global em busca de retorno. Brooks projeta que, diferentemente de 2022,
quando o câmbio não chegou a romper o nível de R$ 4,50, desta vez esse patamar
poderá ser efetivamente testado — e possivelmente rompido — nos próximos meses.
E
o Mosca, o que acha dessa possibilidade? Os leitores de longa data sabem que
estou trabalhando com dois cenários: o atual, em que uma nova alta pode ocorrer
ao redor de R$ 7,00 — uma onda 5 vermelha levaria para esse patamar —
Vou
deixar uma dica: se o dólar continuar a cair de forma precipitada,
característica de uma onda 3, as chances de abandono do cenário atual se
aceleram. E mesmo o cenário alternativo acima teria que ser modificado. O que
quero dizer com isso são quedas contínuas superiores a 1% por vários dias.
O
S&P 500 fechou a 6.886, com alta de 1,02%; o USDBRL a R$ 4,9984, com queda
de 0,11%; o EURUSD a € 1,1761, com alta de 0,31%; e o ouro a U$ 4.743, com
queda de 0,11%.
Fique
ligado!
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