IA: sem folego nos últimos 100 metros #SP500


Tem um ditado nas pistas de atletismo que descreve bem o que vejo hoje na disputa das gigantes de inteligência artificial pelo mercado acionário: quem lidera os primeiros trezentos metros nem sempre é quem cruza a linha de chegada. E é essa a pergunta que ronda a corrida bilionária, ou melhor, a corrida trilionária, entre OpenAI e Anthropic rumo ao pregão.

As duas maiores empresas de modelos de linguagem do mundo pediram, em sigilo, abertura de capital. Ambas mirando algo em torno de sessenta bilhões de dólares cada uma em captação, com valuation batendo a casa do trilhão de dólares, o que, no meu vocabulário, batizei há poucas semanas de teracórnio. Se qualquer uma das duas confirmar esse valor de mercado, entrará confortavelmente entre as vinte empresas mais valiosas do planeta, ombro a ombro com nomes que levaram décadas para chegar lá.

Só que a corrida das teracórnios de inteligência artificial tem um detalhe incômodo: elas estão sendo espremidas dos dois lados ao mesmo tempo, e isso quase nunca aparece nas manchetes que celebram os números de captação.

Por cima, as hyperscalers, Google, Amazon, Microsoft, têm caixa praticamente ilimitado, capacidade de computação própria e não dependem de terceiros para lançar modelos competitivos. A Google, sozinha, gera algo como cinquenta bilhões de dólares de caixa operacional por trimestre, dinheiro que pode simplesmente usar para comprar mais poder de fogo, sem pedir licença a acionista nenhum.

Por baixo, um adversário que a maioria dos investidores brasileiros ainda trata como piada: os modelos chineses de código aberto. O GLM 5.2, da Z.ai, virou um fenômeno nos Estados Unidos ao subir rápido nos rankings de inteligência artificial, entregando desempenho relativamente próximo ao dos modelos mais avançados do Ocidente, mas custando quarenta e oito centavos de dólar por tarefa, contra dois dólares e setenta e cinco centavos do modelo mais caro da OpenAI e valores parecidos da própria Anthropic. Isso não é diferença de preço, é diferença de ordem de grandeza.

E o dado que, para mim, é o mais revelador de todos: no volume real de uso, não em manchete, não em capital levantado, em token processado de verdade, os modelos chineses já ultrapassaram os americanos. Uma plataforma que agrega acesso a centenas de modelos diferentes mostrou que o processamento de tokens por modelos chineses saltou treze vezes neste ano, contra cinco vezes dos modelos americanos, e hoje já supera o volume ocidental. Quem segue repetindo que os Estados Unidos dominam a inteligência artificial de fronteira está olhando para o pódio errado. No volume de uso, o domínio já mudou de mãos.



Isso cria um problema real de metodologia. Investir em inteligência artificial hoje é como apostar numa corrida de cavalos vendo só os jóqueis e as condições da pista, porque os cavalos, isto é, as próprias empresas de modelos, nunca estiveram disponíveis para compra em bolsa. Não existe hoje um ativo puro de inteligência artificial listado, o que jogou todo o dinheiro do mercado para dentro de um punhado cambiante de ações de chip, infraestrutura e software que funcionam como substitutas imperfeitas. As sete maiores empresas de tecnologia, as Magníficas Sete, triplicaram de valor em três anos e meio e hoje respondem por quase um terço do S&P 500, para depois oscilarem doze por cento numa única semana só de dúvida sobre se o capital investido em inteligência artificial vai realmente se pagar.



E o aperto não para nas teracórnios que buscam o IPO. Um índice que mede o gasto real com tokens de inteligência artificial dobrou de valor entre o fim do ano passado e maio, e desde então recuou com força, sinal de que o próprio poder de precificação da indústria está sob pressão, mesmo com o custo de cada token individual tendo caído mais de noventa por cento desde 2023. Mais revelador ainda: o fluxo de caixa livre das hyperscalers, como proporção do lucro líquido, despencou para perto de zero neste ano, praticamente todo o caixa que essas empresas geram está sendo redirecionado para comprar chips. A pinça que descrevi acima não para nas teracórnios: as próprias hyperscalers, que enxerguei como o lado forte da disputa, estão sendo espremidas por seus fornecedores de semicondutores. Um estrategista de Wall Street já chama essa divergência entre o índice de semicondutores e o das hyperscalers de insustentável, apostando numa correção dos chips e numa estabilização das big techs à frente.



Um IPO de OpenAI ou Anthropic resolveria parte desse quebra-cabeça, oferecendo, finalmente, um referencial de avaliação direto. Mas resolveria também outro problema, esse mais delicado: hoje, tanto a OpenAI quanto a Anthropic ainda operam no vermelho, e ambas estão silenciosamente mudando a forma de cobrar dos clientes, de tarifa fixa para uso efetivo, justamente porque o custo de rodar esses modelos em escala virou, nas palavras do próprio comandante da OpenAI, um problema enorme para quem paga a conta. Isso é uma confissão e tanto: a empresa que se prepara para abrir capital a um trilhão de dólares ainda está tentando descobrir como cobrar o suficiente pelo que vende.

A história, aliás, já nos ensinou como esse filme costuma terminar, só que raramente da forma como o consenso imediato antecipa. Quando a Netscape abriu capital em agosto de 1995, um artigo publicado dois dias depois já alertava os investidores para ficarem muito preocupados, chamando aquilo de sinal do fim de um mercado em alta. Só que o Nasdaq não desabou dois dias depois, levou quase cinco anos para isso acontecer, e só então caiu de fato. A Amazon, no dia do seu IPO, subiu trinta e um por cento, e um gestor de fundos disse, na hora, que ficaria bem longe daquele papel, porque ninguém tinha provado ainda que dava para ganhar dinheiro na internet. Hoje sabemos como isso terminou para quem acreditou, e para quem não acreditou.

Não estou dizendo que OpenAI e Anthropic vão repetir o caminho da Amazon, nem o da Netscape, que acabou engolida pela AOL e desapareceu de vez na história. Estou dizendo que a pressa em decretar veredicto, seja de euforia, seja de bolha, costuma ser o erro mais caro que o investidor comete diante de uma tecnologia realmente disruptiva. Os últimos cem metros dessa corrida ainda nem começaram. E, por enquanto, ninguém sabe dizer com segurança quem vai chegar com fôlego.


Análise Técnica

No post “surgiu-uma-esperança” fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

“Estou na expectativa quanto a qual das três opções a seguir vai prevalecer:

a) A correção terminou onde apontei com o símbolo em azul; se for o caso, indica muita força, pois atingiu o mínimo de 7.290.

b) Trata-se de uma correção complexa, que ainda deve cair abaixo de 7.238, parando ao redor de 7.000.

c) Uma última opção, bem menos provável, é a de que esteja se desenvolvendo um triângulo.

Como agir numa situação dessas? Primeiro, não fazendo nada; segundo, observando em janelas menores o que acontece. Ao ultrapassar 7.560/7.620, a chance da opção “a” aumenta consideravelmente, e abaixo de 7.238 cresce a chance da opção “b”. No intervalo entre elas, fica tudo em aberto por enquanto.”



Acabei repetindo integralmente o texto do post acima porque ele é autoexplicativo, mas por enquanto a bolsa não nos deu uma indicação de qual das opções prevalecerá. Como comentado, normalmente observo em janelas menores, e na de duas horas já é possível ver cinco ondas, o que coloca a opção “a” como mais provável.

Eu me comprometi a não publicar gráficos de curto prazo e acho que me coloquei numa camisa de força. Vou fazer uma mudança: só vou publicar nesses casos raros em que persiste uma dúvida, e hoje é o caso. Vejam a seguir:



Destaquei em laranja um movimento de cinco ondas “clássico” e em rosa a correção que deve se suceder. De forma tentativa, busquei os pontos onde deveria ficar uma área de entrada na bolsa, algo entre 7.450, 7.420 e 7.390, onde a opção do meio parece a mais provável. É importante frisar que todos esses cálculos levam em consideração que o movimento em cinco ondas destacado tenha terminado; caso continue um pouco mais acima, um pequeno ajuste, é verdade, deveria ser feito.

Como isso pode ocorrer nos próximos dias e eu estarei ausente, aviso por meio de um post extraordinário.

O S&P 500 fechou a 7.503, com queda de 0,45%; o USDBRL a R$ 5,1881, com alta de 0,44%; o EURUSD a € 1,1416, com queda de 0,22%; e o ouro a U$ 4.114, com queda de 1,19%.

Fique ligado!

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