Vamos sentir saudades da inflação baixa #S&P 500


Saudade é uma palavra que carrega uma ambiguidade peculiar. Quando algo bom ficou no passado, sua lembrança traz um breve conforto, seguido imediatamente pela frustração de saber que aquela situação não voltará. O problema é que o reconhecimento daquele momento feliz quase sempre ocorre somente depois que ele passou — exatamente o que o título de hoje quer dizer.

Vivemos por mais de uma década num ambiente de inflação excepcionalmente baixa, que induziu os bancos centrais a adotar políticas monetárias extraordinariamente frouxas. O exemplo mais emblemático desse excesso foi a emissão, em 2020, de um título do governo austríaco com vencimento em 100 anos e cupom de apenas 0,85% ao ano. O volume captado foi de 4,6 bilhões de euros — e havia fila para comprar. Cinco anos depois, aquele papel vale aproximadamente metade do preço de emissão. É o risco de duração na sua expressão mais brutal: um título soberano com classificação AA+, desvalorizado pela metade, sem que o emissor tenha dado um único calote.

Mas deixando de lado os excessos daquela época, o fato é que vamos sentir saudades dela. Já se passam cinco anos consecutivos com a inflação dos Estados Unidos rodando acima da meta de 2% do banco central americano — e o cenário não aponta para uma resolução próxima.

O problema é de demanda, não só de petróleo

Uma análise enxuta do Deutsche Bank aponta algo que a imprensa tem sistematicamente subestimado: o problema inflacionário atual não é explicado apenas pela alta do petróleo. A guerra no Irã e o consequente choque nos preços de energia são fatores reais, mas funcionam como aceleradores de uma inflação que já era persistente antes do conflito começar. A análise mostra que o hiato do produto nos Estados Unidos ainda é positivo, em torno de um ponto percentual — o que indica que a economia continua operando acima do seu potencial. A decomposição feita pelo Federal Reserve de São Francisco entre componentes de oferta e demanda revela que, mesmo que o choque de oferta revertesse completamente para os níveis de 2019, o núcleo do PCE ainda estaria rodando a 3% ao ano — um ponto inteiro acima da meta.



O CPI de abril, divulgado hoje, confirmou essa leitura: alta de 0,6% no mês e 3,8% em doze meses, acima das estimativas. O núcleo ficou em 2,8% ao ano, também acima do esperado. Durante o dia, os economistas vão arrumar justificativas para amenizar o número — a energia pesa, as tarifas distorcem, o mercado imobiliário está cedendo. Pode ser. Mas o fato é que o resultado veio alto, e é o reflexo de uma economia com demanda robusta demais para permitir que a desinflação avance.

Uma nova era inflacionária?

O Deutsche Bank traça um paralelo histórico que vale a reflexão. O pós-Segunda Guerra foi um período de inflação baixa e crescimento alto. Entre 1965 e 1995, vivemos trinta anos com o núcleo do PCE quase exclusivamente acima de 2% — o ciclo só se encerrou com o choque Volcker. De 1995 a 2021, a Grande Moderação e a globalização mantiveram a inflação ancorada, muitas vezes abaixo da meta. Agora, com cinco anos consecutivos acima de 2%, cabe perguntar: estamos diante de uma mudança de regime?

Os fatores estruturais apontam que sim. O envelhecimento populacional pressiona os mercados de trabalho. O processo de desglobalização e o reposicionamento de cadeias produtivas são intrinsecamente inflacionários. A dominância fiscal — onde o nível de endividamento começa a constranger a capacidade do banco central de apertar a política monetária sem precipitar uma crise — já é uma realidade em vários países do G10. O Deutsche Bank menciona a inteligência artificial como a principal incógnita deflacionária, mas pondera que as decisões de política fiscal e monetária têm sido historicamente o fator mais determinante para a trajetória dos preços.

Um problema global de dívida

O economista Robin Brooks, ex-economista-chefe do IIF e ex-estrategista do Goldman Sachs, argumenta que mesmo após uma eventual resolução do conflito no Irã — com a normalização do tráfego pelo Estreito de Ormuz e a reversão dos preços do petróleo — as taxas de juros longas não voltarão ao patamar anterior. A trajetória ascendente dos juros longos reflete dois elementos: a expectativa de política monetária no longo prazo e o prêmio de risco que os investidores exigem para carregar dívida soberana de prazo estendido.



Brooks destaca que o problema é genuinamente global: o prêmio de risco está subindo em toda parte, reflexo de que praticamente todos os países do G10 adotaram políticas fiscais frouxas durante a pandemia e nos anos seguintes. Cada episódio idiossincrático — a crise do mercado de títulos japonês, os juros longos britânicos pressionados — tem o potencial de contaminar os demais, dado o nível de endividamento generalizado. Sua conclusão é direta: as taxas longas continuarão subindo até que os governos sinalizem uma mudança real na trajetória fiscal. Por enquanto, apenas o Reino Unido faz esse esforço de forma honesta.

A Bloomberg Opinion, na mesma linha, descreve a situação fiscal americana como um buraco negro: os déficits devem rodar em torno de 6% do PIB indefinidamente, mesmo sob premissas otimistas de pleno emprego e sem guerras ou pandemias. A dívida pública americana caminha para superar o pico da Segunda Guerra Mundial — 106% do PIB — ainda nesta década, e dentro de dez anos o serviço da dívida absorverá 30% da arrecadação federal. A saída — combinação de aumento de impostos e corte de gastos da ordem de 4% a 5% do PIB — é politicamente inconcebível no ambiente atual de Washington.

Warsh herda um problema sem solução fácil

A partir da próxima reunião do Fed, Kevin Warsh assume o comando do banco central americano num dos ambientes mais adversos das últimas décadas. O presidente Trump quer juros mais baixos — mas não há o menor espaço para isso. A inflação está acima da meta, a demanda está firme, o mercado de trabalho segue apertado e o choque energético ainda está se propagando pela cadeia de custos.

Minha sugestão a Warsh é simples e direta: avise o presidente que o gato subiu no telhado. Se o banco central tiver que se mover no curto prazo, o movimento será para cima, não para baixo. O mundo vai sentir saudades da inflação baixa — mas a nostalgia não resolve o problema. O compromisso, como sempre, é com o bolso, não com a opinião.


Análise Técnica

No post "a-batata-quente-pelando" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

"Não vou postar o gráfico com janela de 1 dia, pois é idêntico ao da semana passada — quem quiser, vale uma olhada no post anterior; os parâmetros estão descritos acima. O que apresento a seguir é um gráfico de 2 horas, que permite visualizar melhor o que se pode esperar no curto prazo."



Na última quinta-feira liquidei a posição do S&P 500. "Venho comentando que estava com o dedo no gatilho nas posições de bolsa — não que tenha mudado minha visão de médio prazo de alta, mas no curto prazo uma correção pode estar a caminho. Não costumo agir assim; normalmente deixo o mercado me tirar da posição conforme vou subindo o stop loss."

O gráfico a seguir aponta qual a região onde a bolsa poderia recuar caso o movimento de queda tivesse começado. Não posso afirmar nada, pois nenhuma indicação foi dada e ela pode continuar subindo antes que essa correção esperada ocorra. Antes que meu amigo pergunte: não estou torcendo para cair, pois ainda temos posição na Nasdaq 100 e quero que continue subindo.



Vale aqui comentar sobre estratégias de operar. Quando se usa análise técnica e, principalmente, Elliott Wave, sempre existem objetivos considerados mais prováveis — os que aparecem em cor verde —, mas existem outros que, embora menos prováveis, são possíveis.

Como você pode atuar? A primeira forma é: quando atingido o objetivo, liquida a posição e fica observando o que ocorre nos próximos dias. Por favor, não fique torcendo para cair só para "estar certo" — se o mercado continuar subindo você vai sofrer muito e vai achar que é um idiota. Seja pragmático e avalie se sua contagem continua correta ou se precisa ser revisada. Se for a primeira situação, aguarde firme — em algum momento a correção esperada vai ocorrer. No segundo caso, estude se não deve entrar de novo, como eu fiz recentemente.

A outra forma de atuar é subir os stop loss conforme o mercado evolui e deixar o mercado te tirar da posição. Nesses casos você nunca vai sair na máxima — e eu pergunto: qual a diferença que isso vai fazer no longo prazo? Nenhuma.

Em ambas as alternativas você vai ter reações emocionais que irão variar conforme o caso: em alguns momentos vai se sentir um gênio, em outros vai lamentar que deveria ter ficado mais tempo. Enfatizo que não ter posição quando você tem um certo grau de convicção é muito difícil. Quando isso acontecer, dê um passeio — não fique olhando o monitor. Vai voltar com menos vontade de fazer alguma coisa precipitada. O pragmatismo vai garantir sua sobrevivência num mercado tão competitivo.

O S&P 500 fechou a 7.400, com queda de 0,16%; o USDBRL a R$ 4,9126, sem alteração; o EURUSD a € 1,1739, com queda de 0,37%; e o ouro a U$ 4.713, com queda de 0,44%.

Fique ligado!

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