Alguém está blefando #USDBRL
Hoje pela manhã ocorreu algo que há muito tempo não via. Ao observar os
mercados, fui levado a imaginar que a trajetória natural seria de continuidade
das quedas, embora o petróleo ainda subisse de forma relativamente contida. O
trabalho de Robin Brooks sugere que o espaço adicional de alta do petróleo, ao
menos sob uma leitura puramente macroeconômica, não seria tão amplo. Mas o
problema, para o mercado, não é necessariamente subir mais, e sim permanecer
elevado por tempo suficiente. É essa persistência que transforma um choque em
restrição. Como mostra o estudo do Goldman Sachs, níveis elevados de energia,
mantidos ao longo do tempo, acabam pressionando inflação e comprimindo
crescimento de forma mais estrutural.
A primeira leitura foi de alívio. Uma eventual redução de risco
geopolítico justificaria a reação. Mas essa interpretação não se sustentou por
muito tempo. Pouco depois, surgiram declarações do lado iraniano negando
qualquer negociação. A narrativa mudou rapidamente. O que parecia uma
desescalada passou a ser interpretado como tentativa de influenciar preços. Foi
nesse momento que a situação deixou de ser apenas macroeconômica e passou a
ser, claramente, uma disputa de narrativas.
Em seguida, uma nova camada foi adicionada. Informações indicavam que
países como Turquia, Egito e Paquistão estariam atuando como intermediários,
sugerindo que algum tipo de comunicação indireta poderia estar ocorrendo. Sob
essa perspectiva, nenhuma das versões anteriores seria necessariamente falsa.
Cada lado estaria apenas comunicando aquilo que lhe convém. A informação, nesse
contexto, deixa de ser descritiva e passa a ser estratégica.
O relatório do Goldman reforça essa leitura ao mostrar que, mesmo sem um
cenário extremo, os efeitos já seriam suficientes para desacelerar a economia e
pressionar a inflação. O crescimento cairia, o desemprego subiria e a política
monetária se tornaria mais complexa. Ainda assim, o mercado pode ter exagerado
ao rapidamente migrar para um cenário mais duro, como se a única alternativa
fosse inflação persistente e juros elevados por um período prolongado.
E é aqui que surge a pergunta inevitável: quem está dizendo a verdade?
Talvez essa não seja a pergunta correta. Em ambientes como o atual, não se
trata de verdade ou mentira, mas de posicionamento. Cada agente comunica aquilo
que maximiza sua própria posição naquele momento. A informação passa a ser
parte do jogo, e não apenas um reflexo dele.
O resultado é uma mudança sutil, mas profunda, no comportamento do
mercado. A antecipação perde espaço para a reação. A convicção cede lugar à
adaptação. O investidor deixa de tentar prever o futuro e passa a responder ao
presente, muitas vezes em tempo real e com base em sinais contraditórios. Isso
explica a violência dos movimentos observados. Não foi uma mudança de cenário,
mas uma reorganização de risco.
Esse tipo de dinâmica costuma ser chamado de volatilidade, mas essa
definição é superficial. O que está em curso é uma dificuldade crescente de
formação de preço. Quando múltiplos vetores atuam simultaneamente — energia,
geopolítica, política monetária e comunicação — o mercado deixa de antecipar e
passa a ajustar continuamente.
No fim, a leitura mais honesta é também a mais desconfortável. Não há,
neste momento, uma narrativa dominante plenamente confiável. O mercado não está
buscando respostas, mas tentando navegar entre versões. E, quando esse é o
ambiente, a pergunta deixa de ser quem está certo e passa a ser quem está mais
bem posicionado.
Porque, em situações assim, não vence quem prevê com precisão. Vence
quem consegue se adaptar sem comprometer a capacidade de reagir. E isso, mais
do que qualquer modelo, passa a definir o comportamento dos preços.
E, ainda assim, permanece a sensação incômoda de que, em algum ponto
dessa cadeia, alguém está blefando.
Análise Técnica
No post “Irã-se-tranca-na-defesa” fiz os seguintes comentários sobre o
dólar:
“A princípio, faltaria uma mini-alta adicional ao redor de R$ 5,42. Por
outro lado, a queda observada hoje pode indicar que o dólar já esteja iniciando
o movimento em direção ao seu objetivo final, entre R$ 5,04 e R$ 5,00.”
1) Acima de R$ 5,39, e sem que o nível destacado no gráfico, em R$
5,1711, seja ultrapassado, poderíamos ter cinco ondas de alta no estilo
Diagonal. Essa opção não me parece a mais provável.
2) Abaixo de R$ 5,1157, o dólar tenderia a atingir o objetivo aproximado
de R$ 5,00. Embora seja o cenário mais factível, não me envolveria para ganhar
aproximadamente 2%.
Meu amigo, você esqueceu do que te falei no post acima?
“Neste momento, qualquer uma das duas decisões apresenta uma relação
risco-retorno pouco interessante. E pior: o quadro técnico ainda não oferece
clareza suficiente para uma tomada de posição com convicção.”
Se quer entrar numa jogatina, fique à vontade. Para meus leitores, não
vou sugerir nada no momento.
O S&P 500 fechou em 6.581, com alta de 1,15%; o dólar a USDBRL a R$ 5,2343,
com queda de 1,51%; o EURUSD a € 1,1612, com alta de 0,26%; e o ouro a U$
4.395, com queda de 2,21%.
Fique ligado
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