E se.... #OURO #GOLD #EURUSD
Quando eu estava na Linear, o mercado começou a sofisticar sua forma de medir risco. Foi ali que se popularizou o conceito de VaR — “Value at Risk”. A ideia era simples: estimar qual seria a perda máxima esperada dentro de um intervalo de confiança, assumindo condições normais. Em outras palavras, até onde se poderia perder sem sair do padrão.
O problema é que o mercado raramente respeita padrões.
Na prática, o VaR funcionava bem enquanto tudo permanecia dentro do
esperado. As reuniões eram técnicas, os números organizados e o risco parecia
controlado. Quando alguém levantava um cenário mais extremo, a resposta vinha
automática: “o mercado não vai chegar lá”. Era confortável pensar assim. Até
deixar de ser.
Quando o mercado rompe o limite do modelo, ele não avisa. Ele atravessa.
Já passei por situações em que a perda não apenas alcançou o limite projetado,
mas o ultrapassou com facilidade — o chamado risco de cauda. E quando ele
aparece, não há modelo que proteja, nem cliente que aceite com serenidade. Como
mostrou Kahneman, a dor da perda é maior que o prazer do ganho. Na prática,
isso vira crise.
É exatamente esse tipo de situação que começa a aparecer agora.
A guerra no Oriente Médio entrou numa fase em que o mercado opera mais
com esperança do que com convicção. A narrativa dominante sugere uma saída, mas
os sinais são menos tranquilos. A probabilidade de resolução segue próxima de
um cara ou coroa. E isso, por si só, já deveria elevar o nível de cautela.
Mas o que realmente importa não é a incerteza política. É o potencial
econômico caso ela não se resolva.
Porque, pela primeira vez em algum tempo, o mercado voltou a discutir
cenários fora do radar. O mais evidente deles: petróleo a 200 dólares.
Isso não é apenas uma questão de preço. É um choque sistêmico. Um
petróleo nesse nível se espalha por toda a cadeia — transporte, alimentos,
insumos industriais — contaminando rapidamente a inflação global.
E inflação, neste momento, não é detalhe.
A OCDE já projeta inflação americana próxima de 4,2% nesse cenário. Isso
implica reversão da tendência de queda e juros mais altos por mais tempo. O
mercado ainda trata isso como desvio temporário, mas choques de energia
raramente são neutros. Eles tendem a persistir.
Ao mesmo tempo, um segundo efeito começa a aparecer: o impacto sobre a
atividade.
Empresas já começam a revisar operações, reduzir custos e preservar
caixa diante da incerteza. Esse movimento costuma antecipar desaceleração. E,
se o fluxo de energia global for afetado de forma mais relevante, o problema
deixa de ser regional e passa a ser sistêmico.
Ainda assim, os mercados seguem relativamente contidos. A explicação
está na crença de que o pior será evitado. Essa ideia sustenta os preços. Mas
carrega um risco evidente: parte do pressuposto de que o cenário extremo não
acontecerá.
E é exatamente esse o tipo de hipótese que o VaR também faz.
O mercado hoje opera dentro de um VaR implícito. Assume que existe um
limite para o estresse, que existe controle, que existe solução. Mas, se esse
limite for ultrapassado, o ajuste não será marginal. Será abrupto.
E, como sempre, não será linear.
O mais curioso é que, mesmo diante desse cenário, a preparação parece
limitada. Os modelos existem, mas a capacidade de antecipar efeitos de segunda
ordem é restrita. O impacto sobre outras commodities, cadeias produtivas e
alimentos é difícil de quantificar — e, por isso, tende a ser subestimado.
Esse é o verdadeiro risco: não o evento, mas a incapacidade de medir
suas consequências.
Se esse cenário se materializar, a probabilidade de recessão, hoje em
torno de 35%, tende a subir de forma relevante. Não por falta de conhecimento,
mas por excesso de complacência.
Quando olho para o Brasil, a sensação é ainda mais desconfortável.
Discutimos um possível choque global com impacto direto em inflação, juros e
crescimento, enquanto internamente a agenda permanece focada no curto prazo. O
país já opera com inflação próxima de 4,5%, acima do centro da meta, juros
reais elevados e dívida bruta próxima de 80% do PIB.
Em um cenário de petróleo elevado, o ganho na balança comercial é
parcial. O efeito dominante viria pelo lado inflacionário, pressionando ainda
mais a política monetária. E o espaço de resposta é limitado.
O mais preocupante é a ausência de preparação consistente para esse tipo
de cenário. Não se trata de prever o pior, mas de reconhecer que ele é
possível. Quando isso não entra no radar, o ajuste tende a ser mais custoso.
No fim, a discussão nunca foi sobre prever o futuro.
É sobre entender quando o risco deixa de ser controlável e passa a
dominar o sistema.
E, nesses momentos, o erro mais comum não é exagerar o perigo.
É subestimá-lo.
O VaR sempre foi uma boa ferramenta. Mas nunca foi feito para explicar o
mundo quando ele sai do eixo.
E se...
Análise Técnica
No post “a-certeza-da-incerteza”, fiz os seguintes comentários sobre o
ouro:
“tanto a CORREÇÃO PEQUENA quanto a CORREÇÃO GRANDE podem estar em curso,
sendo fundamental observar os próximos dias para maior definição...
Se a CORREÇÃO PEQUENA estiver em curso, o ouro deveria cair até o nível de US$
4.267, como o gráfico abaixo aponta”.
Destaquei no gráfico uma área entre US$ 4.650 e US$ 5.000 onde “não
gostaria” que o metal subisse até lá. Por outro lado, abaixo de US$ 4.100, vou
ficar de olho em uma posição de reversão.
“A situação do euro não é tão clara quanto a do ouro. Ainda não é
possível eliminar a hipótese de formação de uma mínima antes de nova alta. Um
dos pontos que sustenta essa possibilidade é a formação de cinco ondas em
janela de curto prazo. Ainda assim, a vulnerabilidade segue sendo de queda. O
nível de € 1,14 permanece como referência crítica nos próximos dias”.
Minha grande dúvida neste momento é saber se ainda existirá uma última
alta, destacada na elipse rosa. Para isso, é necessário observar o movimento de
curto prazo dentro do retângulo em azul.
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