A certeza da incerteza #OURO #GOLD #EURUSD


Ontem o Fed manteve a taxa de juros entre 3,5% e 3,75% ao ano. À primeira vista, nada mudou. Mas o que realmente importa não está na decisão, e sim no tom e nas projeções. A revisão das expectativas reduziu o número de cortes esperados, e a comunicação foi marcada por uma frase recorrente: não sabemos.



Esse reconhecimento de incerteza não é trivial. Em um ambiente dominado por guerra, energia pressionando custos e inflação ainda resistente, o Fed se mostra menos como condutor do ciclo e mais como alguém que reage a ele. O resultado foi imediato: queda das bolsas após a coletiva e maior sensibilidade do mercado a qualquer mudança de narrativa.



Os dados recentes reforçam o dilema. A inflação ao produtor voltou a surpreender para cima, enquanto o Fed opta por olhar a inflação subjacente e atravessar choques de curto prazo. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho desacelera sem entrar em colapso, mantendo o banco central em compasso de espera.



Há ainda a dimensão política. Ao afirmar que permanece até o fim do processo em curso, Powell altera o horizonte de curto prazo do Fed. Em vez de encurtar seu ciclo, a disputa tende a prolongá-lo, preservando uma postura mais cautelosa dentro da instituição.
As projeções mostram crescimento de longo prazo um pouco maior, refletindo ganhos de produtividade, ao mesmo tempo em que a inflação esperada sobe. O quadro é ambíguo: potencial estrutural melhor, mas caminho mais instável.



Isso cria um cenário curioso. De um lado, uma economia que pode crescer mais no longo prazo, impulsionada por ganhos de produtividade que começam a aparecer de forma mais concreta. De outro, choques de curto prazo — especialmente ligados à guerra e à energia — que tornam o percurso até esse crescimento muito mais irregular, incerto e sujeito a interrupções.

No meio desse cruzamento de forças, o Fed surge menos como um agente capaz de conduzir o ciclo e mais como um participante que tenta reagir a ele. Há um reconhecimento implícito de limites, algo raro para uma instituição que, por décadas, foi percebida como o principal estabilizador do sistema.
O resultado imediato é um mercado mais instável. Não apenas mais volátil, no sentido técnico da palavra, mas mais sensível a qualquer mudança de narrativa. Como o próprio relatório sugere, a primeira metade do ano tende a ser marcada por oscilações frequentes, menos dependentes de indicadores econômicos tradicionais e muito mais influenciadas por eventos geopolíticos, que surgem sem aviso e alteram rapidamente o equilíbrio das expectativas.



Talvez essa seja a principal mensagem do momento. O mercado ainda tenta interpretar o presente com ferramentas do passado, buscando relações estáveis em um ambiente que deixou de ser previsível. Modelos continuam sendo utilizados como se as variáveis obedecessem a uma lógica linear, quando, na prática, passaram a responder a choques simultâneos e muitas vezes desconectados entre si.
O problema nunca foi a ausência de modelos. Foi a confiança excessiva neles. Durante muito tempo, essa confiança funcionou porque o ambiente permitia. Hoje, ela começa a se desfazer, não por erro de cálculo, mas por mudança de regime.
E é justamente isso que torna o momento atual mais desafiador. Não estamos diante de um cenário que pode ser resumido por uma única variável dominante. Ao contrário, convivemos com um conjunto de forças — guerra, energia, inflação, política e tecnologia — que atuam ao mesmo tempo, sem uma hierarquia clara e sem uma direção única.
Nesse contexto, o Fed deixa de ser o protagonista absoluto e passa a dividir espaço com fatores que escapam ao seu controle. E, talvez pela primeira vez em muito tempo, parece disposto a admitir isso de forma explícita.
A certeza da incerteza, portanto, não é apenas um título. É uma constatação. É o reconhecimento de que o ambiente mudou e que as respostas tradicionais já não são suficientes.
E, mais importante, é um aviso: os próximos meses não serão definidos por convicções fortes, mas pela capacidade de navegar em um cenário onde a única coisa realmente previsível é a ausência de previsibilidade.

 

Análise Técnica

No post mais antigo “a-china-esta-quietinha”, fiz os seguintes comentários sobre o ouro: “CONTINUIDADE: Nesta opção o ouro deveria ultrapassar o nível de US$ 5.437 e, principalmente, US$ 5.620, indicando que tanto a onda (5) vermelha como a onda 3 laranja ainda não terminaram. CORREÇÃO PEQUENA: O metal ficaria contido dentro do intervalo de US$ 4.400 e US$ 5.437 por um tempo e depois seguiria para atingir novas máximas, implicando que a onda (5) vermelha não terminou. CORREÇÃO GRANDE: Por um período mais longo as cotações deveriam atingir a mínima entre US$ 4.175 e US$ 3.483. Esse movimento levaria alguns meses.”



Por que estou usando uma informação mais antiga? Porque a queda do ouro nesta semana foi expressiva. Dentro dos cenários acima, tanto a CORREÇÃO PEQUENA quanto a CORREÇÃO GRANDE podem estar em curso, sendo fundamental observar os próximos dias para maior definição.

Se a CORREÇÃO PEQUENA estiver em curso, o ouro deveria cair até o nível de US$ 4.267, como o gráfico abaixo aponta.



Se, por outro lado, passar diretamente por esse nível, indicando que se trata de uma onda 3, ficam anotados os níveis dentro do retângulo rosa — que de rosa não terá nada, pois além da extensão da queda implicará que o metal permanecerá oscilando por um período prolongado antes de buscar nova alta.



Em relação ao euro, comentei no post “a-inflação-não-tem-termometro”:

“Como podem ver no gráfico abaixo, a opção em laranja está próxima de se confirmar e, para tanto, uma queda mais expressiva deveria ocorrer abaixo dos níveis apontados — algo que ainda não ocorreu. Não tenho muito a acrescentar neste momento, a não ser continuar observando”.



A situação do euro não é tão clara quanto a do ouro. Ainda não é possível eliminar a hipótese de formação de uma mínima antes de nova alta. Um dos pontos que sustenta essa possibilidade é a formação de cinco ondas em janela de curto prazo. Ainda assim, a vulnerabilidade segue sendo de queda. O nível de € 1,14 permanece como referência crítica nos próximos dias.



O S&P 500 fechou a 6.606, com queda de 0,27%; o USDBRL a R$ 5,2234, com queda de 0,94%; o EURUSD a € 1,1586, com alta de 1,17%; e o ouro a U$ 4.670, com queda de 3,08%.

Fique ligado!

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