O mundo está crescendo a crédito #IBOVESPA
Durante décadas o crescimento
econômico foi associado à expansão da produção, do comércio e da produtividade.
Hoje, cada vez mais, ele também depende de outro fator: a capacidade dos
governos de continuar se financiando no mercado.
A economia global passou a
operar em um ambiente em que a expansão da dívida pública deixou de ser exceção
e passou a ser parte estrutural do funcionamento do sistema. Países
desenvolvidos, economias emergentes e até governos locais recorrem continuamente
ao crédito para sustentar políticas públicas, programas sociais, investimentos
e também gastos extraordinários.
Durante muito tempo existiu uma
linha imaginária no debate econômico. A regra informal dizia que quando a
dívida pública ultrapassasse 100% do PIB, o mercado começaria a
questionar seriamente a solvência de um país. Esse número tornou-se uma
referência recorrente em estudos acadêmicos, relatórios de bancos e discussões
entre investidores.
A realidade, porém, acabou
desmontando essa regra.
Diversas economias passaram bem
acima desse nível sem enfrentar uma crise imediata de confiança. O Japão
convive com uma dívida superior a 250% do PIB há anos. Parte da Europa
opera acima de 120%. E os Estados Unidos caminham rapidamente na mesma
direção.
O que mudou não foi a matemática
da dívida. O que mudou foi o comportamento do mercado. Em vez de interromper o
financiamento, o sistema financeiro passou a aceitar a rolagem contínua dessas
obrigações.
Segundo projeções do
Congressional Budget Office, a dívida pública americana continuará subindo ao
longo das próximas décadas. A tendência indica uma relação dívida/PIB acima de 118%
dentro de aproximadamente dez anos, caso as atuais políticas fiscais sejam
mantidas.
Alguns cenários alternativos são
ainda mais agressivos.
Estudos independentes indicam que a dívida pública pode alcançar cerca de 131% do PIB ainda na próxima década, dependendo da trajetória dos gastos e das taxas de juros.
Em outros períodos históricos,
uma dinâmica fiscal como essa provavelmente provocaria uma reação imediata dos
mercados. O curioso é que isso não aconteceu.
Parte dessa tolerância tem
explicações estruturais.
A primeira é o papel singular do
dólar no sistema financeiro global. Como principal moeda de reserva do planeta,
os títulos do Tesouro americano continuam sendo o ativo mais líquido e mais
amplamente utilizado por bancos centrais, fundos soberanos e grandes
investidores institucionais.
Existe uma demanda estrutural
por esses papéis.
William Dudley, ex-presidente do
Federal Reserve de Nova York, argumenta que o crescimento da dívida americana
não decorre apenas de decisões fiscais pontuais. Ele reflete forças estruturais
difíceis de reverter.
O envelhecimento da população
amplia automaticamente os gastos com previdência e saúde. Esses programas
representam parcela crescente do orçamento federal. Ao mesmo tempo, cortes de
impostos continuam sendo politicamente populares.
Essa combinação cria déficits
persistentes, que acabam empurrando a dívida para níveis cada vez mais
elevados.
Outro fator que começa a chamar
atenção é o custo do serviço dessa dívida.
Esse número tende a aumentar
caso as taxas permaneçam elevadas.
A dinâmica fiscal passa então a
operar em um ciclo delicado: quanto maior o estoque de dívida, maior o volume
de juros pagos; quanto maiores os juros pagos, maior o déficit que precisa ser
financiado.
Essa discussão não é exclusiva
dos Estados Unidos.
No Brasil, o debate fiscal
aparece com frequência, mas raramente se traduz em ajustes estruturais rápidos.
O país convive há anos com discussões sobre regras fiscais, limites de gastos e
sustentabilidade da dívida.
Ao mesmo tempo, conflitos entre
poderes, disputas políticas e incertezas institucionais acabam retardando
decisões importantes.
Mesmo assim, o mercado muitas
vezes convive com esse cenário por períodos relativamente longos. A valorização
recente do real, mesmo em um ambiente fiscal frágil, mostra que fluxos de
capital e fatores externos podem sustentar momentos de relativa complacência.
Essa situação reforça uma
característica comum ao mundo atual: a convivência com níveis elevados de
dívida pública sem que isso produza imediatamente uma crise financeira.
Mas essa estabilidade depende de
condições favoráveis.
Se o crescimento econômico
desacelerar de forma relevante, a arrecadação tributária diminui ao mesmo tempo
em que os gastos públicos aumentam. Programas sociais são ampliados, estímulos
fiscais voltam a ser utilizados e o custo da dívida continua presente.
É nesse momento que a dinâmica
da dívida se aproxima do que se pode chamar de equilíbrio instável.
Equilíbrio instável é quando uma
bolinha permanece parada no topo de uma colina. Enquanto nada a perturba, ela
continua ali. Mas qualquer pequeno empurrão faz com que comece a descer
rapidamente.
As finanças públicas globais
parecem cada vez mais próximas desse tipo de situação.
Durante algum tempo muitos
imaginaram que as criptomoedas ocupariam o papel de proteção contra esse risco
fiscal. Na prática, a volatilidade desses ativos dificultou essa função.
Quem voltou a ganhar
protagonismo foi o ouro.
O comportamento recente do metal
precioso sugere que uma parcela relevante do mercado continua buscando proteção
contra possíveis desequilíbrios fiscais e monetários.
Ao mesmo tempo, existe um
contraponto importante a esse cenário.
A revolução tecnológica
impulsionada pela inteligência artificial pode elevar significativamente a
produtividade da economia global. Se essa transformação gerar crescimento
econômico mais forte nas próximas décadas, parte da pressão fiscal poderá ser
absorvida pela expansão da atividade econômica.
Essa é, em grande medida, a
aposta implícita do sistema atual.
Governos continuam acumulando
dívida porque acreditam que o crescimento futuro permitirá administrá-la.
Investidores continuam financiando essa expansão porque ainda não enxergam
alternativa mais segura.
Por enquanto, a bolinha
permanece no topo da colina.
O sistema continua funcionando.
O mundo continua crescendo.
Mas crescendo a crédito.
Análise
Técnica
No post “Segundo pensamento”
fiz os seguintes comentários sobre a IBOVESPA:
“Outra possibilidade é que este
movimento represente a onda 5 azul em conjunto com a onda 3 verde,
o que abriria espaço para uma correção mais profunda. Nesse cenário, o índice
poderia atingir os níveis de 166 mil pontos (-10%) ou 157 mil pontos
(-15%), destacados no retângulo do gráfico. Além de ser substantiva, essa
correção poderia se estender por diversos meses.”
Dentro das hipóteses que
aventei, a exposta acima começa a ganhar mais peso por dois motivos: a mínima
atingiu 117,6 mil, o que provavelmente rejeita a hipótese de uma
correção menor; e, principalmente, porque a queda que se iniciou a partir da
máxima formou cinco ondas bastante claras, o que leva a esperar uma nova
queda abaixo do patamar mencionado.
Mesmo com esses sinais, vou
destacar as possíveis opções.
1. Triângulo
Não parece ser esse o caso pelos
motivos expostos acima, mas deixo essa hipótese em aberto, ainda que como a
menos provável por enquanto. Tracei uma elipse em cinza para a região
onde a bolsa deveria oscilar nas próximas semanas.
2. Zig-Zag
Projeto duas regiões de
interesse. A primeira entre 176,3 mil e 172,5 mil, anotadas com retângulo
verde. Caso esse suporte não se sustente, a próxima região estaria entre 166,0
mil e 162,3 mil, destacadas com retângulo azul — nessa hipótese,
esta me parece a mais provável.
Acabei não comentando antes, mas
no curto prazo espero uma alta até a região de 188 mil pontos, para
depois ocorrer um dos possíveis cenários descritos acima.
Se a IBOVESPA trilhar alguns
desses caminhos, isso indicaria que a guerra não termina tão cedo ou que
suas consequências continuarão pesando sobre o mercado por mais tempo. Como
não estamos aqui para adivinhar o que vai acontecer, vamos observar os próximos
passos sem nos posicionar, pelos motivos que vocês já conhecem.
O S&P 500 fechou a 6.775, sem variação; o USDBRL a R$ 5,1564, sem variação; o EURUSD a € 1,1572,
com queda de 0,33%; e o ouro a U$ 5.180, com queda de 0,24%.
Fique ligado!
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