A inflação não tem termômetro #OURO #GOLD #EURUSD

 


Quando alguém mede a temperatura do corpo e o resultado aparece abaixo de 37 graus, o diagnóstico é imediato: não há febre. A medicina tem um termômetro claro. A inflação, ao contrário, raramente oferece esse conforto. Um número aparentemente benigno pode esconder uma doença que ainda não apareceu nos exames.

Foi exatamente essa sensação que tomou conta do mercado após a divulgação da inflação de fevereiro nos Estados Unidos. O índice de preços ao consumidor subiu 2,4% em relação ao ano anterior, enquanto o núcleo — que exclui alimentos e energia — avançou 2,5%, praticamente em linha com o esperado pelos economistas.

À primeira vista, parece uma boa notícia. Depois de dois anos de juros elevados e política monetária restritiva, o Federal Reserve finalmente começa a ver a inflação se aproximar da meta de 2%.

Mas a política monetária não se baseia apenas no presente. Ela precisa antecipar o futuro.



E é justamente aqui que surge o problema. O dado divulgado mede o passado recente, enquanto o cenário econômico está sendo redesenhado rapidamente por fatores que ainda não apareceram nos índices oficiais.

O principal deles é o choque geopolítico no Oriente Médio.

Com o fechamento do Estreito de Ormuz, o petróleo voltou a disparar e chegou novamente a superar 100 dólares por barril, reacendendo temores sobre inflação de energia e interrupções nas cadeias de abastecimento globais.

Historicamente, choques dessa natureza têm efeitos diretos sobre os preços. Economistas frequentemente utilizam uma regra aproximada segundo a qual cada aumento de 10 dólares no barril de petróleo pode adicionar cerca de 0,2 ponto percentual à inflação anual.

Isso significa que o bom resultado da inflação de fevereiro pode representar apenas uma fotografia de um cenário que já está mudando.

Nesse contexto volta a aparecer um risco que marcou profundamente a economia mundial nos anos 1970: a estagflação, combinação de crescimento econômico fraco com inflação elevada. Trata-se do pior ambiente possível para um banco central, pois exige escolher entre combater a inflação ou evitar uma desaceleração econômica.

Mas entender se esse risco é real exige olhar além dos índices de inflação tradicionais.

O mercado financeiro faz isso observando as expectativas de inflação implícitas nos contratos de juros e derivativos. É ali que aparece a percepção sobre o que realmente pode acontecer com os preços no futuro.

Um relatório recente do Deutsche Bank ajuda a entender essa dinâmica.

Existem diferentes horizontes de expectativa de inflação. A expectativa de um ano costuma reagir imediatamente a choques como guerras ou movimentos bruscos no petróleo. A expectativa de cinco anos já suaviza parte desse ruído. Mas a medida mais relevante para avaliar a credibilidade da política monetária é a chamada expectativa cinco anos à frente dentro de cinco anos.

Esse indicador tenta capturar qual inflação o mercado acredita que prevalecerá quando os choques atuais já tiverem desaparecido.



O resultado é revelador. Apesar de uma sequência impressionante de choques — pandemia, estímulos fiscais massivos, crise energética em 2022, tarifas comerciais e agora um novo conflito no Oriente Médio — as expectativas de longo prazo permaneceram surpreendentemente estáveis.

Nos últimos cinco anos, elas passaram cerca de 98% do tempo entre 2,3% e 2,8%.



Esse dado pode parecer técnico, mas é crucial. Ele indica que o mercado ainda acredita que o Federal Reserve tem capacidade de manter a inflação sob controle no longo prazo.

Em outras palavras, a credibilidade da política monetária ainda está intacta.

E esse talvez seja o maior contraste entre o mundo atual e a década de 1970. Naquele período, as expectativas de inflação começaram a se desancorar gradualmente, obrigando o Federal Reserve a elevar juros de forma brutal sob o comando de Paul Volcker.

Recuperar credibilidade depois que ela se perde é uma tarefa extremamente difícil.

É exatamente por isso que o momento atual se torna politicamente sensível.

O Federal Reserve precisa olhar para as expectativas de inflação e não apenas para os dados correntes. Mas essa postura tende a gerar frustração política, especialmente quando o governo deseja juros mais baixos para estimular a economia.

Nesse contexto, o presidente Donald Trump já demonstrou diversas vezes impaciência com a condução da política monetária. Para ele, números de inflação aparentemente benignos deveriam abrir caminho imediato para cortes de juros.

O problema é que a inflação não funciona como um termômetro simples. Mesmo quando o dado atual parece favorável, o banco central precisa avaliar o que pode acontecer nos próximos meses.

Se o Federal Reserve ignorar os sinais vindos das expectativas de inflação e reagir apenas aos números recentes, corre o risco de repetir erros históricos. Mas se mantiver uma postura cautelosa, poderá enfrentar pressão política crescente da Casa Branca.

Essa tensão entre política e política monetária não é nova. Mas em momentos de choque geopolítico ela tende a se intensificar.

O conflito no Oriente Médio adiciona ainda mais incerteza ao cenário. Estimativas indicam que a interrupção das rotas pelo Estreito de Ormuz pode reduzir temporariamente a oferta global de petróleo em algo entre 11 e 16 milhões de barris por dia, um volume significativo para o mercado energético mundial.

Choques dessa magnitude costumam demorar a se refletir completamente nos índices de inflação. Primeiro aparecem nos preços das commodities, depois nos custos de transporte e, finalmente, nos preços finais pagos pelos consumidores.

Por isso a reação relativamente fria do mercado ao dado de inflação de fevereiro não foi exatamente um erro.

Os números vieram bons. Mas eles pertencem a um mundo que pode estar ficando rapidamente para trás.

A política monetária precisa olhar além do dado divulgado no mês. Precisa observar expectativas, riscos geopolíticos, cadeias de produção e dinâmica energética.

Em outras palavras, precisa interpretar sinais muito mais complexos do que um simples índice de preços.

A inflação, ao contrário da febre, não possui um termômetro confiável.

E é exatamente por isso que, neste momento, o trabalho do Federal Reserve se tornou tão difícil.

 

Análise Técnica

No post “a-china-está-quietinha” fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

“CONTINUIDADE: Nesta opção o ouro deveria ultrapassar o nível de US$ 5.437 e, principalmente, US$ 5.620, indicando que tanto a onda (5) vermelha como a onda 3 laranja ainda não terminaram.

CORREÇÃO PEQUENA: O metal ficaria contido dentro do intervalo de US$ 4.400 e US$ 5.437 por um tempo e depois seguiria para atingir novas máximas, implicando que a onda (5) vermelha não terminou.

CORREÇÃO GRANDE: Por um período mais longo as cotações deveriam atingir a mínima entre US$ 4.175 e US$ 3.483. Esse movimento levaria alguns meses.”



A volatilidade que observamos no ouro deu lugar agora a um período de maior indefinição, o que não nos permite fazer uma previsão mais conclusiva. O leitor — e principalmente meu amigo — pode achar que estou enrolando, mas podem estar certos de que, na verdade, é o mercado que está enrolando.



Robin Brooks, o economista “carequinha”, comentou recentemente que o ouro poderia estar temporariamente perdendo o status de “porto seguro”. Observando o comportamento recente do metal, ele mostra que após o início do conflito no Golfo o ouro não reagiu como normalmente reagiria um ativo de proteção. Em episódios anteriores, como a invasão da Ucrânia em 2022, o metal subiu imediatamente após o início das hostilidades. Desta vez ocorreu o oposto: após uma reação inicial, os preços recuaram e permaneceram abaixo do nível observado antes do início do conflito.



Brooks aponta duas possíveis explicações para esse comportamento aparentemente estranho. A primeira é que um ativo de refúgio só dispara quando existe uma verdadeira aversão ao risco. No entanto, as bolsas americanas não apresentaram um movimento de pânico relevante desde o início do conflito. O S&P 500, por exemplo, permaneceu relativamente estável, sugerindo que o mercado ainda não percebe o conflito como um risco sistêmico.



A segunda explicação é ainda mais interessante. Depois de uma forte valorização ao longo do último ano, o ouro tornou‑se um dos ativos com maior ganho acumulado. Em momentos de choque inesperado, investidores frequentemente vendem justamente os ativos que mais subiram para gerar liquidez de curto prazo. Isso pode provocar quedas temporárias mesmo em ativos tradicionalmente defensivos.

Outro ponto relevante levantado por Brooks é que a forte valorização recente do ouro está ligada ao chamado “debasement trade”, isto é, à percepção de que o crescimento acelerado das dívidas públicas nas principais economias pode acabar sendo resolvido no futuro por meio de inflação e desvalorização das moedas. Nesse contexto, a busca por ativos reais como proteção estrutural permanece presente.



Em outras palavras, essa aparente fraqueza recente pode ser apenas ruído de curto prazo dentro de uma tendência estrutural ainda positiva.

De minha parte, só gostaria de enfatizar que caso ocorra a opção de CORREÇÃO GRANDE — ou mesmo a CORREÇÃO PEQUENA — ele provavelmente terá que explicar essa tese por algum tempo.

Em relação ao euro comentei:

“A situação do euro comporta duas hipóteses: a que está mostrada no gráfico onde a onda B azul terminou e na sequência a moeda única caminharia para o objetivo de € 1,2349; neste caso a retomada deveria ocorrer brevemente. A outra opção está marcada com o símbolo em laranja e podemos esperar novas quedas. Para isso ocorrer deve ultrapassar a área demarcada entre € 1,1469 e principalmente € 1,1406.”




Como podem ver no gráfico abaixo a opção em laranja está próxima de se confirmar e, para tanto, uma queda mais expressiva deveria ocorrer abaixo dos níveis apontados acima — algo que ainda não ocorreu. Não tenho muito a acrescentar neste momento a não ser continuar observando.



O S&P 500 fechou a 6,672, com queda de 1,52%; o USDBRL a R$ 5,2415, com alta de 1,61%; o EURUSD a € 1,1513, com queda de 0,46%; e o ouro a U$ 5.088, com queda de 1,68%.

Fique ligado!

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