Irã: sob nova direção #USDBRL

 


Numa ação coordenada entre Estados Unidos e Israel, a cúpula central do Irã foi eliminada com uma rapidez que ainda vai render livros — e, provavelmente, justificativas. O fato relevante não é a força empregada, mas o método escolhido: nada de ocupação, nada de tropas terrestres em grande escala, nada de promessas de “reconstrução” que acabam virando um orçamento sem fim. A estratégia é outra: decapitar o comando, pressionar a sucessão e manter o país funcionando o suficiente para que a engrenagem — inclusive a do petróleo — continue girando.

Esse modelo tem uma lógica fria, quase empresarial. Você não quebra a companhia; troca a diretoria e exige que o novo comando assine um contrato diferente. É por isso que a discussão sobre “mudança de regime” é, na prática, menos importante do que a discussão sobre “alteração de regime”. O que se busca é comportamento: abandonar ambições nucleares, reduzir a projeção de poder via organizações armadas e aceitar que, daqui para frente, a margem de manobra será menor. O Irã fica, mas o script muda.

O mercado, como sempre, perguntou primeiro aquilo que realmente importa no curtíssimo prazo: isso mexe com a oferta de petróleo? O Brent respondeu com um salto imediato, indo para a região dos 80 dólares. O choque é real, mas não é uma singularidade histórica. Em termos estatísticos, há precedentes; em termos psicológicos, o susto é inevitável.

 


O gráfico do Deutsche Bank ajuda a colocar o movimento no lugar certo: grande, sim — mas longe de ser “o maior de todos”. O que transforma um salto em problema global não é o pico, e sim a duração. E, nesse ponto, o Estreito de Ormuz é o centro do palco. Por ali passa cerca de um quinto do petróleo exportado no mundo. Fechou, o mundo sente. Ameaçou fechar, o prêmio de risco aparece na hora. E existe um detalhe que o noticiário costuma subestimar: mesmo sem bloqueio formal, o fluxo pode cair por um motivo bem mais prosaico — seguro. Se a seguradora retira cobertura de risco de guerra, o navio simplesmente não navega.

 



A curva do Brent deixa claro o padrão típico desses eventos: aceleração abrupta, seguida de um período em que o mercado tenta quantificar o “quanto piora” antes de apostar no “quanto melhora”. O risco, aqui, é o conflito virar guerra aberta e se espalhar. Quanto mais tempo durar e quanto mais se ampliar, maior a chance de o prêmio de risco contaminar ações, crédito e moedas. E o Oriente Médio não precisa “parar” para isso acontecer; basta ficar imprevisível.

Um sinal de que o mercado está levando a sério — sem entrar em colapso — vem de fora dos Estados Unidos. Na Arábia Saudita, a ação da grande petrolífera local sobe com o barril, mas o índice amplo recua. É um recado: o setor de energia pode ganhar, mas a economia como um todo não gosta de instabilidade. Isso é precificação seletiva, não festa.




A renda fixa americana, por sua vez, já vinha mostrando uma postura defensiva. O rendimento do título de 10 anos recuou para a parte baixa da faixa dos últimos anos. Se o conflito se mostrar curto e o petróleo devolver parte do salto, a tese desinflacionária ganha força: combustível mais barato, poder de compra maior, pressão menor sobre preços. E aí surge o efeito colateral que o Mosca acha mais interessante: juros mais baixos não apenas sustentam as bolsas — eles ressuscitam excesso de confiança, multiplicam apostas e reabrem a porta para “esticar valuation” como se o custo do dinheiro fosse um detalhe irrelevante.

 


O gráfico de otimismo dos grandes alocadores é um lembrete incômodo: o mundo institucional estava, até ontem, no maior nível de confiança em anos. Isso é bom para o mercado enquanto nada quebra, mas perigoso quando o consenso fica grande demais. O investidor adora narrativas lineares — e a geopolítica tem prazer em quebrá-las. Um choque no petróleo testa essa confiança exatamente onde dói: inflação, política monetária, crescimento. Se o petróleo ficar caro por tempo suficiente, a história muda. Se voltar, vira “susto” e não “ciclo”.

 


O ouro aparece como o termômetro paralelo. Ele já vinha firme antes do episódio, sinalizando proteção estrutural e não apenas medo de manchete. Se o conflito se prolongar, o metal tende a acelerar; se houver normalização rápida, parte do prêmio pode ser devolvida, mas a tendência maior continua apontando para cima. E aqui há um ponto que merece respeito: quando o ouro sobe com consistência, ele está conversando com a confiança no sistema, não apenas com o noticiário do dia.

No plano político, a frase que melhor descreve o momento é simples: o Irã está sob nova direção, mas o mercado ainda não sabe quem assumiu a cadeira nem qual será o plano de negócios. A aposta americana parece ser que não será necessário “tomar” o país; basta manter pressão aérea e estrangular a capacidade de retaliação até que a sucessão produza alguém disposto a aceitar os novos termos. Existe, ainda, a leitura — desconfortável para o regime — de que uma parcela expressiva da população gostaria de mudança. Se isso se traduz em transição controlada ou em desordem interna, é outra história.

O investidor, portanto, precisa separar o que é ruído do que é tendência. Ruído: picos intradiários, manchetes e bravatas. Tendência: fluxo por Ormuz, capacidade de manter exportações, resposta das seguradoras, reação dos juros e persistência do ouro. Até aqui, a mensagem dos preços é: risco elevado, mas contido. O petróleo reagiu, mas não entrou em espiral; os juros caíram; as bolsas não colapsaram.

Em termos empresariais, é como se a companhia tivesse trocado o conselho em plena semana de divulgação de resultados: o mercado precifica o que vem, não o que passou. Se o novo comando optar por pragmatismo, o prêmio de risco cai, o petróleo devolve e o mundo volta a discutir crescimento e juros. Se optar por escalada, o prêmio aumenta, o dólar endurece e o mercado testa sua tolerância à dor. O Mosca prefere olhar para o fluxo. No fim, a geopolítica grita — mas quem manda nos preços é a logística.

 

Análise Técnica

No post “cassino-global”, fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

“O dólar atingiu uma mínima de R$ 5,1545 e retrocedeu após a queda. Continuo aguardando que uma nova mínima ocorra nesse movimento tortuoso desde a máxima de R$ 6,04, atingida no final de 2024. Refiz minha estratégia técnica, que implica em uma possível queda ao redor de R$ 5,00, conforme destacado no retângulo”.




No post acima, apresentei uma análise ampla, com visão de prazo mais longo, que merece ser revisitada esporadicamente. Naturalmente, publicarei caso algo mais relevante ocorra. No curto prazo, busco o momento em que o dólar mude de direção — em outras palavras, a formação de cinco ondas de alta.

O mercado abriu com valorização do dólar frente a todas as moedas, e o real não ficou de fora. Por ora, nada muda em relação à possibilidade de visitar a região de R$ 5,00. Mas, como dizia meu ex-sócio Ibrahim Eris: “Você deve sair do mercado como sai de um imóvel e deixar algumas lâmpadas para o próximo locador”.




Vocês se lembram do economista que o mercado apelidou de “Carequinha” e que previa o real a R$ 4,50? Na sequência, o dólar subiu e atingiu R$ 6,40. Desde então, permaneceu em silêncio e não voltou a publicar previsões, embora sempre tenha mantido uma visão positiva. Pois bem, ele voltou à carga — antes mesmo do ataque do final de semana — e publicou novo texto reforçando sua tese.

Preparei um resumo a seguir:

“O Real voltou ao centro da discussão cambial global. Segundo Robin Brooks, quase todas as moedas emergentes estão se fortalecendo contra o dólar, mas o Brasil lidera o movimento. Diferentemente de 2022 — quando a valorização foi impulsionada pelo choque positivo nos termos de troca, com a disparada das commodities após a invasão da Ucrânia — o movimento atual tem natureza mais ampla: trata-se de enfraquecimento estrutural do dólar, refletindo dúvidas sobre a independência do Federal Reserve e desgaste institucional no mundo desenvolvido. O dólar ponderado contra emergentes mostra tendência consistente de queda, com o segmento emergente servindo como sinal antecedente da direção global da moeda americana. O Real se beneficia desse pano de fundo, mas há um segundo fator mais específico: ele segue profundamente descontado.”



O câmbio brasileiro permanece acima do nível que Brooks estima como “valor justo” de R$ 4,50 por dólar — patamar que não foi retomado desde a pandemia. Além disso, quando comparado ao conjunto das moedas emergentes, o Real apresenta desvalorização relativa ainda mais acentuada. Esse desconto ganha força diante da transformação estrutural do setor externo brasileiro: o superávit comercial recorrente, impulsionado por exportações agrícolas e de energia, tornou-se característica estrutural desde a pandemia. Em síntese, há dois motores simultâneos — dólar mais fraco e moeda brasileira descontada, com fundamentos externos favoráveis.”

A conferir. O cenário de R$ 4,50 é hipótese, não fato. Para que se materialize, o mercado precisará confirmar com estrutura impulsiva clara e invalidação dos níveis de resistência intermediários. Sem isso, trata-se apenas de narrativa. Enquanto não houver confirmação objetiva, sigo guiado pelo padrão de ondas. Preço primeiro, opinião depois.

O S&P 500 fechou a 6.881, sem variação; o USDBRL a R$ 5,1717, com alta de 0,83%; o EURUSD a € 1,1685, com queda de 1,11% e o ouro a U$ 5.322, com alta de 0,83%.

Fique ligado!

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