O Fed no escuro #S&P 500
A menos de 60 dias da troca de comando no
Federal Reserve, o debate sobre política monetária nos Estados Unidos entrou em
território desconfortável. A expectativa de mudança na presidência do banco
central, com a provável chegada de Kevin Warsh, coincide com um momento em que
a inflação ainda não foi totalmente domada e o cenário geopolítico voltou a
introduzir volatilidade relevante nos preços de energia.
Mesmo antes da escalada recente no Oriente
Médio, já existia uma divergência importante dentro do próprio Fed. Parte do
mercado apostava que Warsh poderia assumir o comando da instituição com
inclinação mais favorável a cortes de juros. No entanto, membros do comitê de
política monetária vêm sinalizando cautela crescente diante dessa hipótese. A
razão é direta: a inflação desacelerou, mas ainda não convergiu para a meta de
2%.
O índice de preços ao consumidor caiu
substancialmente desde o pico de 9,1% registrado em 2022. Ainda assim, a medida
preferida do Fed, o índice de gastos com consumo pessoal (PCE), segue rodando
perto de 2,8% ao ano, enquanto o núcleo de serviços continua pressionado
por salários e mercado de trabalho apertado.
Apesar disso, o mercado financeiro continua
tentando antecipar o momento da virada. Os contratos futuros de juros indicam
atualmente a expectativa de três cortes de juros ao longo dos próximos doze
meses, com o início do ciclo sendo constantemente recalibrado a cada novo
dado de inflação ou emprego.
Esse descompasso entre expectativa de mercado
e cautela do banco central tornou-se uma das principais fontes de volatilidade
financeira no último ano.
Em meio a esse ambiente surgiu uma narrativa
otimista nos mercados: a ideia de que a inteligência artificial elevará
significativamente a produtividade da economia, reduzindo pressões
inflacionárias no médio prazo. Se isso ocorrer, a economia poderia crescer mais
rapidamente sem gerar inflação adicional.
O problema é que, até agora, essa hipótese
ainda não aparece de forma clara nos dados macroeconômicos. Transformações
tecnológicas profundas costumam levar anos até se refletirem de maneira
consistente nas estatísticas agregadas.
Enquanto essa discussão ocorre no plano
estrutural, um fator muito mais imediato voltou a dominar as expectativas
inflacionárias: o petróleo.
A recente volatilidade do mercado de energia
ilustra bem o grau de incerteza atual. Em um único pregão, o barril chegou a
negociar próximo de 110 dólares e terminou o dia abaixo de 95 dólares.
Oscilações dessa magnitude indicam que o mercado perdeu referência sobre qual
deveria ser o preço de equilíbrio da commodity.
Mesmo assim, petróleo caro continua
influenciando a inflação. Estimativas indicam que cada aumento sustentado de
10 dólares no barril pode elevar a inflação americana em aproximadamente 0,2
ponto percentual ao longo de doze meses.
O impacto não se limita aos preços. Energia
cara também afeta diretamente o crescimento econômico. Custos mais elevados de
transporte, produção e logística funcionam como um imposto indireto sobre
empresas e consumidores.
Quando inflação sobe ao mesmo tempo em que o
crescimento desacelera, surge um dos cenários mais incômodos para bancos
centrais: estagflação.
Esse tipo de ambiente transforma qualquer
decisão de política monetária em um exercício delicado de gestão de riscos.
Se o Fed cortar juros enquanto a inflação
sofre pressão do petróleo, corre o risco de reforçar expectativas
inflacionárias. Se mantiver juros elevados por tempo excessivo, pode aprofundar
a desaceleração da atividade econômica.
Para complicar ainda mais o quadro, os
próprios dados de inflação americana apresentam sinais mistos. Os preços de
bens vêm desacelerando, refletindo a normalização das cadeias globais de
produção após os choques da pandemia. Já os serviços — principalmente moradia e
salários — continuam mostrando resistência à queda.
Em outras palavras, a inflação está ao mesmo
tempo cedendo e persistindo.
Esse comportamento híbrido explica por que o
Fed insiste em repetir que qualquer decisão futura dependerá estritamente dos
dados econômicos. Depois do erro de diagnóstico ocorrido no início do ciclo
inflacionário recente, quando a inflação foi classificada como transitória,
poucos dirigentes parecem dispostos a correr novamente esse risco.
É nesse contexto que surge a pergunta que dá
título a este texto.
O que fazer com os juros?
A resposta, neste momento, provavelmente é
menos elegante do que o mercado gostaria.
Esperar.
Esperar que os efeitos do choque de petróleo
se tornem mais claros. Esperar que os dados de inflação confirmem — ou não — a
trajetória de desaceleração. Esperar para verificar se os ganhos de
produtividade prometidos pela inteligência artificial realmente aparecerão nas
estatísticas econômicas.
Em teoria, política monetária deveria ser um
exercício relativamente previsível baseado em modelos e projeções.
Na prática, neste momento, ela se parece muito
mais com navegação em meio a uma neblina espessa.
O mercado tenta antecipar cada movimento.
Economistas constroem cenários. Modelos projetam trajetórias.
Mas a verdade é mais simples: quando as
variáveis principais deixam de obedecer aos padrões históricos, o futuro fica
menos previsível.
E é exatamente isso que estamos vivendo.
Nem mesmo o Mosca tem resposta definitiva para
esse dilema.
Análise
Técnica
No post “a-nova-dupla-de-área” fiz os
seguintes comentários sobre o S&P 500:
"A partir desse término, o mercado
estaria completando a onda ii) laranja, cujos objetivos se situam entre
6.727/6.701 (-2,5%) ou, em extensão maior, entre 6.612/6.591 (-4%)."
Na semana passada a bolsa ficou oscilando, ora
para cima, ora para baixo, com uma tendência de queda, sem, contudo, mostrar um
movimento mais forte que seria mais preocupante. Por enquanto, o comportamento
parece nitidamente uma correção.
A mínima atingida ontem, em 6.636,
ficou muito próxima do segundo intervalo projetado. Depois que Trump anunciou
que a guerra estaria próxima do fim, ocorreu uma reação no final do pregão.
No momento continuo trabalhando com essa
contagem, desde que o limite de 6.524 não seja atingido.
Em tempos de guerra, cada dia é um dia.
O S&P 500 fechou a 6.781, com queda de
0,21%; o USDBRL a R$ 5,1598, sem alteração; o EURUSD a € 1,1611, com queda de
0,21%; e o ouro a U$ 5.194, com alta de 1,12%.
Fique ligado!
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