Irã: Uma questão de honra #USDBRL
Quando um conflito começa no Oriente Médio, o mercado tende a reagir como sempre reagiu: olhando primeiro para o preço do petróleo. É compreensível. Afinal, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia — aproximadamente um quinto da produção mundial — passam pelo Estreito de Hormuz, um corredor marítimo de pouco mais de 30 quilômetros de largura que conecta o Golfo Pérsico ao restante do planeta.
Mas reduzir a guerra atual a uma simples
equação entre oferta e demanda de energia é um erro. O que está acontecendo no
Golfo Pérsico tem dimensões militares, financeiras e psicológicas. E talvez a
última seja a mais difícil de modelar.
Para quem observa a região há décadas, uma
coisa é evidente: a lógica ocidental de custo-benefício raramente explica as
decisões políticas no Oriente Médio. Para boa parte da população da região, a
rendição simplesmente não é uma opção aceitável. Trata-se de uma questão de
honra. E isso muda completamente a dinâmica de qualquer conflito.
Nos primeiros dias da guerra, muitos analistas
acreditavam que a superioridade militar dos Estados Unidos produziria uma
solução rápida. Passados pouco mais de dez dias, essa expectativa começa a
desaparecer. Grande parte do arsenal convencional iraniano foi destruída ou
neutralizada, e a capacidade aérea do país foi praticamente eliminada. Ainda
assim, o conflito não se aproxima do fim. Ele apenas mudou de forma.
A estratégia iraniana deixou de ser militar
para se tornar financeira.
O mecanismo é relativamente simples: pressionar
o mercado global de energia utilizando o Estreito de Hormuz como instrumento de
alavancagem. Cada dia de incerteza no Golfo Pérsico produz efeitos imediatos
sobre o preço do petróleo, sobre os custos de transporte marítimo e sobre as
expectativas inflacionárias globais.
A indicação de Mojtaba Khamenei, filho do líder
supremo morto no conflito, para assumir o comando político do país reforçou
essa percepção. O mercado interpretou a decisão não como um gesto de transição
política, mas como um sinal claro de continuidade estratégica. O petróleo
imediatamente voltou a ultrapassar a marca de 100 dólares por barril.
Na década de 1970, o mundo também enfrentou
dois choques de petróleo separados por alguns anos. O primeiro ocorreu em 1973,
quando os países árabes impuseram um embargo às nações que apoiaram Israel na
guerra do Yom Kippur. O segundo choque veio poucos anos depois, com a Revolução
Iraniana de 1979, quando a produção do país caiu abruptamente de cerca de 5,5 a
6 milhões de barris por dia para pouco mais de 1 milhão. Mesmo com uma perda
relativamente pequena de oferta global, o preço do petróleo disparou cerca de
150% em pouco mais de um ano.
Enquanto o conflito se intensifica, o mercado
começa a discutir um cenário que parecia enterrado: a possibilidade de uma nova
fase de estagflação.
Ed Yardeni revisou recentemente suas projeções.
Com o Estreito de Hormuz parcialmente interrompido e o petróleo acima de 100
dólares, a probabilidade de recessão nos Estados Unidos subiu para cerca de
35%, enquanto o cenário de forte expansão econômica praticamente desapareceu de
suas projeções. Em paralelo, o estrategista passou a trabalhar com a hipótese
de uma correção de 10% a 15% nas bolsas americanas.
John Authers, da Bloomberg, destacou que o
comportamento de vários ativos financeiros sugere que o mercado já começa a se
preparar para um conflito mais longo. O petróleo disparou, as bolsas globais
recuaram e os rendimentos dos títulos públicos subiram ao redor do mundo.
Estima-se que o país possua aproximadamente 440
quilos de urânio enriquecido a 60%, material que poderia ser transformado em
combustível para armas nucleares caso fosse submetido a enriquecimento
adicional. O problema é que essas reservas estão armazenadas em instalações
subterrâneas fortemente protegidas.
Enquanto essa ambiguidade permanece, o mercado precisa lidar com outra consequência menos evidente da guerra: seus efeitos econômicos indiretos.
O aumento do preço da energia eleva custos de
transporte, pressiona cadeias industriais e reduz a renda disponível das
famílias. Ao mesmo tempo, a interrupção parcial das exportações de
fertilizantes da região começa a pressionar os preços agrícolas.
Quando um grande fornecedor de energia
desaparece temporariamente do mercado, o sistema global inteiro precisa se
reajustar. E esse processo quase sempre ocorre por meio de preços mais altos,
crescimento mais fraco e maior volatilidade financeira.
Para complicar ainda mais o quadro, existe
também a dimensão política. Com eleições legislativas se aproximando nos
Estados Unidos, o aumento do preço da gasolina pode rapidamente se transformar
em um problema doméstico para a Casa Branca.
O conflito que começou como uma operação
militar está rapidamente se transformando em uma disputa financeira. O Irã
talvez não consiga vencer a guerra no campo de batalha, mas possui uma arma
extremamente difícil de neutralizar: a capacidade de provocar instabilidade nos
mercados de energia.
A guerra entrou agora
em uma fase diferente. Não é mais apenas uma disputa entre exércitos. É uma
disputa entre sistemas econômicos.
Análise
Técnica
No post “Irã-sob-nova-direção” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
“O mercado abriu com valorização do dólar
frente a todas as moedas, e o real não ficou de fora. Por ora, nada muda em
relação à possibilidade de visitar a região de R$ 5,00.”
Em relação ao dólar, o mercado está um pouco
como barata tonta. Em um dia — às vezes em poucas horas — o dólar se valoriza
com o mantra da aversão ao risco; em outros momentos prevalece a tendência
anterior de desvalorização. No agregado, o primeiro movimento teve apenas um
pequeno impacto de alta nas cotações, o que acabou afetando também o real.
Ao observar uma janela de duas horas, vê-se
nitidamente a formação de três ondas, e não cinco, o que implica que o
movimento de alta observado até agora possui características de correção.
Assumindo essa hipótese, a correção de alta em
andamento poderia levar o dólar para a região entre R$ 5,42 e R$ 5,50, para
depois voltar a cair rumo à região de R$ 5,00 (percurso em azul das ondas A,
B e C).
Qual o meu grau de confiança?
Sendo uma correção dentro de outra correção,
prefiro permanecer em observação. Caso esse patamar superior seja atingido,
pode surgir a oportunidade de sugerir um trade de venda.
— David, mas como vai sugerir venda de dólar?
Você não é um dos poucos que acreditam em uma alta estrutural da moeda
americana?
Quando ocorre uma correção complexa como a que
estamos vendo no dólar, por princípio surgem movimentos relevantes nos dois
sentidos. Nesses extremos, pode ser interessante iniciar algum trade, pois o
stop‑loss tende a ser conveniente.
O que não vale a pena é entrar quando o risco é
grande. Por exemplo: vender nos níveis atuais até pode dar certo, mas o stoploss
necessário seria algo próximo de 4% para um ganho potencial equivalente, uma
relação que não considero particularmente atraente.
O S&P 500 fechou a 6.795, com alta de
0,83%; o USDBRL a R$ 5,1592, com queda de 1,63%; o EURUSD a € 1,1630, com alta
de 0,10%; e o ouro a U$ 5.138, com queda de 0,66%.
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