Vitrine e fundo de quintal #USDBRL


Na semana passada, a guerra perdeu as manchetes para a visita do presidente Trump à China. A impressão que ficou foi a de que Pequim saiu do encontro convicto de que pode impor suas condições aos americanos — inclusive sinalizando que Taiwan é apenas uma questão de tempo. Como já comentei, este presidente americano não tem argumentos para impedir que isso avance, dado seu espírito de conquistador aplicado a todas as frentes do tabuleiro global.

Mas enquanto o espetáculo diplomático dominava as câmeras, os dados da economia chinesa voltaram a colocar o país diante de seu problema estrutural mais persistente. Os chineses foram bem-sucedidos nos últimos meses ao redirecionar suas exportações para fora dos Estados Unidos, e a balança comercial continuou a bater recorde após recorde. Ao mesmo tempo, aquilo que não conseguem reverter segue como um fantasma: a fraqueza do mercado interno e a falta de disposição da população para consumir.

Os números de abril deixaram pouco espaço para otimismo. O investimento fixo contraiu 1,6% nos primeiros quatro meses do ano. A produção industrial cresceu apenas 4,1% — o ritmo mais fraco em quase três anos. As vendas no varejo avançaram míseros 0,2%, o pior resultado desde dezembro de 2022, quando o país reabria após o período mais severo da pandemia. Nenhum analista consultado pelo mercado havia previsto uma leitura tão pessimista para os três indicadores simultaneamente.



O risco de depender quase exclusivamente das exportações é que o ritmo de crescimento desse setor teria de superar, de forma consistente, o crescimento projetado do PIB — algo estruturalmente insustentável. Além disso, essa estratégia depende do apetite crescente dos países importadores, que a qualquer momento podem erguer barreiras diante da pressão das empresas locais e da redução marginal de empregos que os produtos chineses provocam. Sem o mercado americano — o maior do mundo — essa equação tende a se esgotar. O que sobra, então, é o mercado interno, exatamente onde a China não consegue avançar.



Imagino que Trump recebeu esses dados pela manhã e deve estar maquinando como desferir um novo golpe nos chineses. Mas a verdade é que, por trás das cenas do encontro bilateral, a economia da China enfrenta um problema estrutural cuja solução vai exigir déficits públicos crescentes e ações do tipo “jogar dinheiro pelos helicópteros” — mecanismo que os países ocidentais usaram no passado e que agora os chineses cogitam para tentar estimular o consumo. O problema é que, mesmo com esse arsenal, ainda existe o risco real de que, em vez de gastar, os chineses resolvam simplesmente aumentar a poupança. Se isso não funcionar, a economia tenderá a crescer muito menos — risco enorme para Xi Jinping.

Há um dado que merece atenção e oferece alguma esperança: os preços dos imóveis novos recuaram apenas 0,19% em abril ante março — a menor queda em um ano. É o terceiro mês consecutivo de desaceleração nas baixas. O setor imobiliário foi o grande destruidor de riqueza e confiança das famílias chinesas nos últimos anos, e qualquer sinal de estabilização é relevante. Analistas do Citigroup e do Bank of America começam a aventar que o fundo do poço pode estar próximo. Se confirmado, seria um alívio — ainda que parcial — para o consumo doméstico.



No campo diplomático, o resultado mais concreto da visita de Trump foi o acordo para criar organismos bilaterais de comércio e investimento. A China também confirmou a compra de 200 aviões da Boeing — menos do que os 500 esperados — e os EUA garantiram o fornecimento de aeronaves, motores e componentes. Parece substancial — mas o que ficou foi uma trégua comercial frágil, sem acordos estruturais que alterem o equilíbrio de forças.

A economia chinesa opera, hoje, em duas velocidades: a parte exportadora, impulsionada por chips, inteligência artificial e produtos de energia limpa, avança com força. A parte doméstica, onde a confiança do consumidor importa, patina. As famílias chinesas liquidaram empréstimos líquidos em abril no maior volume desde pelo menos 2010 — um sinal claro de que preferem reduzir dívida a aumentar consumo.

O Politburo do Partido se reúne em julho para revisar as metas de crescimento. Esse é o próximo ponto de inflexão. Por ora, o consenso do mercado é que Pequim vai manter cautela — sem estímulos adicionais agressivos — mas com pressão crescente para agir. O crescimento de 5% do primeiro trimestre ainda dá cobertura política para esperar mais um mês. Mas o relógio está correndo.


Análise Técnica

No post “Nunca diga nunca” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

“O mercado nitidamente desacelerou; as cotações do dólar estão “escorregando” lentamente, deixando dúvida se estaríamos nos posicionando para uma alta ou se a queda continuaria.”

Postei o cenário alternativo por insistência do meu amigo, que se encontra abaixo.



Na semana passada, o dólar esboçou uma reação por conta de dois fatores, um interno e outro externo: a ligação de Flávio Bolsonaro ao caso Master e a alta dos juros nos mercados internacionais, pelo receio de inflação mais persistente. O dólar saiu da casa de R$ 4,90 para R$ 5,00. Isso é suficiente para assumir que a queda do dólar terminou? Seria muito inconsequente da minha parte — e até caberia a pecha de torcedor — fazer esse call. Fui inclusive provocado por um leitor: “David, seria você o carequinha invertido? rsrs abraço” Imagino que esse leitor esteja vendido e irritado com minha insistência.

Muito bem, é possível contar 5 ondas de alta desde a mínima de R$ 4,90 — um ponto positivo. A retração de curto prazo deveria ser contida entre R$ 4,97 e R$ 4,93 e, em seguida, ultrapassar R$ 5,1236. Esse é o caminho da alta — não sei se vou me envolver num call de compra; acompanhem o Mosca.

Por outro lado, se romper abaixo de R$ 4,90, fica eliminada essa possibilidade.



Notei que meu provedor tem cotações que diferem de outros em cerca de R$ 0,02. Entrei em contato com a Barchart e informaram que farão a correção. Enquanto isso, meus níveis podem apresentar diferenças em relação ao que vocês acompanham. Tenham isso em consideração — assim que for solucionado, aviso.

O S&P 500 fechou a 7.403, sem variação; o USDBRL a R$ 5,0131, com queda de 1,35%; o EURUSD a € 1,1659, com alta de 0,29%; e o ouro a U$ 4.563, com alta de 0,51%.

Fique ligado!

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