A China quer estragar a festa #Nasdaq100 #NVDA


Xi Jinping abriu hoje a cúpula de inteligência artificial da China com uma ambição pouco disfarçada: liderar a próxima revolução industrial. Ele comparou a IA ao motor a vapor e à eletricidade — uma tecnologia de propósito geral cujo poder geopolítico não pertence a quem a inventa primeiro, mas a quem consegue difundi-la mais amplamente pela economia. Reiterou o compromisso da China com código aberto, colaboração e uma ordem tecnológica global mais inclusiva, estendida ao Sul Global. É um desafio direto à aposta americana em laboratórios fechados e de elite.

A cúpula não poderia ter tido um pano de fundo mais oportuno. A Moonshot lançou nesta sexta o Kimi K3, seu novo modelo, e a coincidência de calendário com o discurso de Xi não é acidente — é mensagem. As ações de semicondutores e de empresas de IA caíram em cascata pela Ásia, e os futuros de Wall Street também recuaram, sob o temor de que modelos chineses cada vez mais capazes reduzam a demanda pelos chips mais avançados do mundo.

O que chama atenção no Kimi K3 é que ele rompe o roteiro chinês de preço baixo com capacidade limitada. A Moonshot precificou seu modelo perto do valor cobrado pelos líderes americanos — um prêmio em relação aos concorrentes chineses mais baratos — apostando na capacidade, não só no custo. Em testes independentes, o modelo já aparece à frente de produtos da Anthropic em alguns critérios, o que reforça a sensação de que a distância entre os dois lados está encolhendo mais rápido do que o mercado esperava.



Vale entender por que os modelos chineses em geral saem tão mais baratos que os americanos — e por que o Kimi K3, mesmo cobrando mais que seus pares domésticos, ainda cobra metade do que cobram os líderes americanos. Os laboratórios chineses nasceram sob restrição, não por escolha. Impedidos pelos controles de exportação americanos de acessar os chips mais avançados, tiveram que espremer o máximo de hardware inferior — e a saída foi uma arquitetura chamada "mixture of experts", que ativa só uma fração pequena do modelo a cada tarefa, entregando a capacidade de um modelo gigante pelo custo computacional de um modelo bem menor. Some a isso a estratégia comercial de liberar pesos abertos, que permite a qualquer empresa rodar o modelo na própria infraestrutura sem pagar por uso depois. O resultado é uma diferença de preço que, nos casos mais extremos, chega a ser 50 vezes menor por token — mas que sacrifica, até aqui, o topo da capacidade nas tarefas mais complexas.

Essa ressalva, porém, é exatamente o que o Kimi K3 está testando. Um comentário que viralizou nas redes resumiu bem o clima entre os investidores: a era dos laboratórios chineses distantes da fronteira tecnológica acabou, e agora é preciso pensar diferente, sem margem competitiva embutida a favor dos americanos.

E há uma pergunta incômoda que ninguém está fazendo em voz alta: se as empresas passarem a usar modelos chineses só porque são mais baratos, quem garante que suas informações não serão usadas para outros propósitos? Duvido que o setor financeiro vá arriscar isso — mas seria ingenuidade achar que a maioria das outras empresas terá o mesmo cuidado. Preço, no fim das contas, não leva desaforo para casa.

Tudo isso acontece numa semana em que a economia chinesa mostrou seu lado menos glamouroso. O PIB do segundo trimestre cresceu 4,3%, o ritmo mais fraco desde o fim de 2022 — ainda elevado para padrões globais, mas baixo para os padrões da própria China. Por trás das exportações recordes e da pujança tecnológica, existe um exército crescente de trabalhadores subempregados e um consumo doméstico anêmico, que já está obrigando empresas a cortar preços internamente também. Não tenho nenhuma métrica confiável de sentimento do consumidor chinês para citar, mas os números disponíveis não são animadores.



E aqui entra o trabalho do Robin Brooks. As exportações chinesas conseguiram algo notável mesmo sob as restrições impostas pelos Estados Unidos desde 2024: as vendas para os EUA já voltaram perto do patamar anterior às tarifas, e as vendas para o resto do mundo simplesmente explodiram, inundando mercados como o Sudeste Asiático. Só que, para conseguir isso, os exportadores chineses tiveram que cortar preços — um choque deflacionário para a própria China. Essa pressão só começou a reverter depois que a Suprema Corte americana declarou ilegais as tarifas do IEEPA em fevereiro deste ano: os preços de exportação chinesa dispararam desde então, e a China agora está ganhando em volume e em preço ao mesmo tempo.



A pergunta que o mercado vai precisar responder nos próximos dias é se o Kimi K3 é apenas mais um episódio de nervosismo passageiro, ou se estamos diante de um novo "momento DeepSeek". Vale lembrar: em janeiro do ano passado, o lançamento do modelo R1 da DeepSeek derrubou as ações da Nvidia em quase 17% num único pregão, o maior prejuízo de valor de mercado de uma empresa em um único dia da história — quase US$ 600 bilhões evaporados. A diferença agora é que o mercado já foi avisado. Desde abril, quando a DeepSeek lançou seu V4, as dúvidas sobre a demanda futura por chips de ponta já vinham se acumulando; o Kimi K3 apenas aprofundou uma desconfiança que já estava lá.

De um jeito ou de outro, fica cada vez mais difícil separar a ambição geopolítica de Xi Jinping da mecânica pura de mercado. Ele quer liderar a revolução industrial da inteligência artificial, e sabe que a métrica real dessa corrida não é quem inventa primeiro, mas quem consegue se espalhar mais rápido pelo mundo. Se a visão dele se cumprir, os modelos chineses de peso aberto podem simplesmente virar o padrão global antes que alguém perceba — e aí a abertura de hoje pode muito bem se fechar amanhã, quando já não for mais necessária para minar o domínio americano. Por enquanto, o que fica claro é que Xi Jinping vai fazer de tudo para não perder essa guerra — e não vai se importar nem um pouco em estragar a festa do mercado americano no processo.


Análise Técnica

No post "EUA: um país que funciona" fiz os seguintes comentários sobre a Nasdaq100:

"Durante a semana, a bolsa tentou mais uma vez subir, ficando mais ou menos no mesmo nível da semana passada. Fiz um ajuste no gráfico em relação ao anterior e o objetivo passa a 27.800/27.287."



Com a queda de hoje, os níveis apontados acima passam a ser mais factíveis de ocorrerem. Numa montagem mais detalhada, pode-se observar duas hipóteses: a) ao redor de 28.000, que eu considero mais provável; ou b) entre 27.200/27.000 (aproximadamente 5% de queda).

A partir de agora, vamos ficar atentos para um eventual trade de compra, esperando a formação de 5 ondas em janelas menores.



Em relação à Nvidia, comentei: 

"Com a mínima atingida de US$ 189,90 durante a semana, poderíamos assumir que a correção terminou, mas, observando o gráfico posterior numa janela menor, não vejo a formação de 5 ondas, o que me leva a supor que a correção ainda não terminou. Não posso sugerir nada por enquanto."



Na área demarcada em amarelo, é possível observar 5 ondas numa janela de duas horas, o que torna a compra nos níveis atuais possível — stop loss deveria ser em US$ 190. Como de costume, essa é apenas uma sugestão, pois o Mosca não indica entradas em ações individuais.



Ao ver o gráfico abaixo, você poderia chegar a duas conclusões: existe uma inversão na nomenclatura do gráfico, ou mostrar prejuízo é um bom negócio. Lembrem-se que, como agrega muitas empresas, a possibilidade de uma explicação específica não se aplica. Notem que, em 2021, ocorreu algo semelhante — naquele momento, a pandemia era a razão — e nos anos seguintes houve uma forte correção.



Na época da Lava Jato, algo semelhante ocorreu com empresas lucrativas que foram usadas para desviar recursos para outros fins, como a Petrobras, que sofreu um grande assalto, mas que é muito lucrativa. No caso, é provável que empresas ligadas a IA e afins, numa fase inicial, não tenham lucro, e que os analistas considerem isso uma situação temporária que se reverterá no futuro com lucros estrelares.

De modo tentativo e provocativo, não dá para imaginar que implantar um negócio com prejuízo seja uma boa estratégia: se fosse assim, seria a coisa mais fácil do mundo ser bem-sucedido. Desta forma, essas empresas precisam apresentar resultados rapidinho.



O S&P 500 fechou a 7.457, com queda de 1,01%; o USDBRL a R$ 5,1272, com alta de 0,22%; o EURUSD a € 1,1437, sem variação; e o ouro a U$ 4.009, com alta de 0,83%.

Fique ligado!

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