Nem tudo é um Panamá #OURO #GOLD #EURUSD
Certa vez, um sócio de uma dessas corretoras foi indicado para uma diretoria do Banco Central. Passados noventa dias, o outro sócio, que tinha ficado na empresa, ligou atrás de umas dicas. O ex-sócio começou a discorrer sobre base monetária, meios de pagamento e afins — e foi interrompido: "irrrmão, é para comprar ou vender?" Espero que os leitores não me façam a mesma pergunta ao final deste texto. Hahaha.
Porque o assunto de hoje é exatamente sobre operações que parecem — mas não são — um Panamá. Há relatórios que a gente lê e esquece, e há relatórios que expõem, sem querer, o tamanho da armadilha intelectual em que o mercado está metido. O que saiu recentemente do departamento de pesquisa de um grande banco europeu pertence à segunda categoria.
A metodologia é ambiciosa: quase 100 pontos de dados organizados em seis fatores estruturais — tecnologia, déficits soberanos, geopolítica e globalização, política doméstica, demografia e transição energética —, projetados sobre uma série histórica de 70 anos. O resultado é uma leitura hoje num dos três piores níveis já registrados desde 1956, atrás apenas da crise do petróleo dos anos 1970 e do início de 2008.
A tese central é binária: ou a produtividade da inteligência artificial é grande o suficiente para carregar nas costas o peso da dívida soberana e da demografia adversa, ou esses fatores vencem e a década termina parecida com os anos 1970. Como âncora de otimismo, o relatório lembra que o crescimento real americano em janelas de dez anos girou em torno de 3,8% ao ano desde o fim da Segunda Guerra — resistindo a mudanças de regime profundas. E a projeção para 2030 é ousada: o indicador de tecnologia deve superar o pico do boom dos anos 1990, com produtividade potencialmente acima da faixa de 3% a 4% observada nos picos anteriores. Um Panamá, se estiver certo.
Do lado pessimista, o número mais duro é sobre demografia: 68% do produto mundial hoje é gerado por países do G20 com população em idade ativa em declínio. E o canal fiscal por trás disso é ainda mais desconfortável: em painel de 140 países, um aumento de 10 pontos percentuais na razão de dependência de idosos eleva o gasto público em 13 pontos, mas a receita sobe apenas 4 — assimetria de mais de três para um contra os cofres públicos.
Mas o dado que mais me interessa, porque ataca a lógica de qualquer carteira balanceada, é o dos ativos de refúgio. Desde 2020, seis ativos historicamente considerados proteção apresentaram correlação positiva com as ações — e não negativa, como deveriam — em mais períodos do que aqueles em que funcionaram. Isso se repetiu nos quatro grandes choques da década: pandemia, escalada de juros, guerra tarifária e conflito no Oriente Médio. O FMI já havia sinalizado o fenômeno, alertando que a quebra dessa correlação pode amplificar vulnerabilidades sistêmicas ao forçar desalavancagens forçadas em estratégias construídas sobre a premissa antiga.
A carteira 60/40 pressupõe que, quando as ações caem, os títulos sobem — ou seguram a onda. Se essa relação para de funcionar justamente nos momentos de estresse, o conceito de proteção precisa ser repensado. Não existe mais Panamá garantido nem para quem só quer se proteger.
E aqui mora minha discordância com o enquadramento binário do relatório. Uma pesquisa recente com executivos mostrou ganhos de produtividade relacionados a IA declarados em 1,8% em 2025; quando pesquisadores calcularam o ganho implícito a partir da própria receita e do próprio emprego dessas empresas, o número caiu para 0,6% — a produtividade percebida é cerca de três vezes maior que a medida. É o paradoxo de Solow, atualizado para a era dos modelos de linguagem. Do lado do financiamento, os cinco maiores provedores de infraestrutura de IA nos Estados Unidos projetam US$ 650 bilhões em capex só em 2026, com dívida de fornecedores concentrada e mais de US$ 80 bilhões em pagamentos diferidos vencendo este ano. Se o capital foi alocado apostando em ganhos imediatos que chegam com atraso — a chamada curva em J das tecnologias transformadoras —, o risco não é se a produtividade eventualmente aparece. É o que acontece com a estrutura financeira que apostou na velocidade errada enquanto espera.
Que estamos vivendo numa época no mínimo diferente é inegável — um mundo em mudança em todos os sentidos desafia os analistas a previsões mais imaginativas que fundamentadas, dando margem a qualquer tipo de prognóstico. As mudanças ocorrem em todas as frentes, como mostra o trabalho do banco alemão. No dia a dia temos sensações dispares de alegria e esperança contrastadas com tristeza e desalento; não me recordo de ter vivido nada parecido, e como tudo que é novo, a incerteza é uma certeza. A melhor recomendação é viver um dia após o outro, buscando analisar sem emoção a realidade. Os ativos de refúgio quebraram quatro vezes em seis anos, a demografia trabalha contra os cofres públicos, e a única variável capaz de virar esse jogo ainda tem a produtividade medida em um terço da percebida. Não é uma aposta binária. É uma aposta condicional — e como toda aposta condicional, ela pode não ser o Panamá que o mercado está precificando.
Análise Técnica
No post "a-bomba-japonesa" fiz os seguintes comentários sobre o ouro:
"O ouro reagiu a esses dados com alta superior a 2%, o que dá uma pequena esperança na opção de alta — não se animem, eu disse pequena. Vamos acompanhar os próximos dias e, caso se concretize um movimento em 5 ondas, posso pensar num trade de compra."
Em relação ao euro, comentei:
"Vamos observar nos próximos dias se essa alta foi um 'false break' ou um 'final kiss' em € 1,14. Para a opção de queda, € 1,15 seria o stop loss; por outro lado, um rompimento sem que atinja o stop loss em € 1,1324 dá continuidade ao movimento das últimas semanas."
Fique ligado!
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