Monopólio do emprego #USDBRL
Raramente, em uma economia que cresce, se debateu tanto sobre o mercado de trabalho quanto agora. A chegada da inteligência artificial ao cotidiano profissional acelerou uma angústia que já existia antes — e que, acredito, muita gente ainda subestima. A questão não é apenas tecnológica. É estrutural. E a Bloomberg, em uma matéria recente, parece ter posto o dedo exatamente na ferida.
O raciocínio
que me ocorreu ao ler o artigo foi quase imediato: se nos mercados financeiros
assistimos, há anos, a uma concentração sem precedentes — com poucas empresas
respondendo pela maior parcela da capitalização de mercado —, por que seria
diferente com os empregos? A lógica é a mesma. Quando o poder econômico se
concentra, o poder de contratação também se concentra. E quando são poucos os
empregadores que de fato disputam trabalhadores, quem perde é o trabalhador.
Esse fenômeno
tem nome técnico — monopsônio —, cunhado pela economista Joan Robinson nos anos
1930 para descrever mercados em que há muitos vendedores de um produto, no caso
a força de trabalho, mas apenas um comprador dominante. Ao contrário do
monopólio, que eleva preços, o monopsônio os deprime. No contexto do emprego,
isso significa salários sistematicamente abaixo da produtividade real do
trabalhador. Pesquisas recentes mostram que trabalhadores nos setores
industriais norte-americanos recebem, em média, apenas 65 centavos para cada
dólar de valor que geram para a empresa. Não é exploração retórica — é
matemática.
A economia de
escala que aprendemos na universidade — aquela que dizia que empresas maiores
produzem mais barato e, portanto, crescem mais — está sendo aplicada de maneira
plena, e com consequências que os manuais raramente detalham. Quando poucas
empresas dominam um setor, elas não apenas fixam preços para o consumidor:
fixam também o preço do trabalho. E como há poucas alternativas para o
trabalhador, ele aceita. O custo de trocar de emprego — em tempo, incerteza e
perdas de benefícios acumulados — funciona como uma corrente invisível que
prende o profissional ao empregador atual, mesmo quando a remuneração está
abaixo do que o mercado deveria pagar.
Olhando para os dados mais recentes, o quadro se torna ainda mais preocupante. Em 2025, a economia norte-americana gerou apenas 181 mil empregos ao longo de todo o ano — o pior resultado fora de períodos recessivos desde 2003. O crescimento, quando existiu, ficou concentrado quase que exclusivamente no setor de saúde e educação. O restante da economia praticamente estacionou. Não é difícil traçar o paralelo com o mercado acionário: assim como os índices dependem de um punhado de gigantes para sustentar suas altas, o mercado de trabalho depende de um punhado de setores para não entrar em colapso.
E a
inteligência artificial? Entra aqui como um catalisador, não como uma causa
isolada. Como escrevi na sexta-feira, "o vírus da IA não tem
vacina". Mas o que o artigo da Bloomberg traz de novo é a dimensão
anterior ao vírus: o sistema imunológico do trabalhador já estava debilitado. A
concentração de poder nas mãos de poucos empregadores reduz a capacidade de
barganha do profissional, comprime salários e limita a mobilidade. Quando a
automação chega sobre essa base fragilizada, o efeito é devastador.
Resta uma
pergunta inevitável: os governos irão agir? Historicamente, as respostas
regulatórias às concentrações de mercado chegam tarde — e quase sempre
incompletas. No caso dos mercados de trabalho, a complexidade é ainda maior,
pois envolve questões de concorrência, legislação trabalhista, política de
inovação e, agora, regulação de tecnologia. Nos últimos anos, algumas
iniciativas nos Estados Unidos tentaram restringir cláusulas de não
concorrência e fortalecer sindicatos, mas o avanço foi tímido diante da
velocidade da transformação.
O que me parece
certo é que o debate sobre o futuro do trabalho não pode se limitar à
inteligência artificial. Ela é o capítulo mais recente de uma história mais
longa — a história da concentração econômica e do enfraquecimento da
concorrência no mercado de trabalho. Enquanto olhamos fascinados para os
algoritmos, a estrutura que os sustenta vai se consolidando em silêncio. E
quando o trabalhador percebe que não tem para onde ir, já é tarde para
negociar.
Análise Técnica
No post "direto-na-jugular" fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
"Os
leitores de longa data sabem que estou trabalhando com dois cenários: o atual,
em que uma nova alta pode ocorrer ao redor de R$ 7,00 — uma onda 5 vermelha
levaria para esse patamar —" … "A queda que vem ocorrendo poderia se
estender até R$ 4,6983 — nem um centímetro a menos" … "se o dólar
continuar a cair de forma precipitada, característica de uma onda 3, as chances
de abandono do cenário atual se aceleram".
A retração que mostro no gráfico abaixo — em que o dólar recuou aproximadamente 80% da alta observada desde junho de 2023 — deixa pouco espaço de manobra para uma reversão. Por enquanto, a maior probabilidade ainda aponta para continuidade da queda.
O leitor — ou
meu amigo que deve ter saído de férias num fim de semana esticado — poderia se
perguntar por que não mudo meu cenário. Para sustentar meu argumento, separei o
movimento recente em dois segmentos: no primeiro retângulo, em azul, mal
consigo identificar uma onda impulsiva; a onda (A) vermelha carrega
todas as características de uma correção. No segundo retângulo, em laranja, já
se nota um movimento mais direcional — embora, por enquanto, desenvolvido em
apenas três ondas visíveis. Combinando com a onda (C) vermelha, o dólar
precisaria cair de forma precipitada, conforme destaquei anteriormente, para
confirmar o cenário.
— David, então por que não compra? Seria uma moleza que o mercado está te dando.
Opa, achei que
estava na praia. Você sabe bem que não compro quando o mercado está em queda só
porque os argumentos técnicos assim indicam — não quero segurar uma faca
caindo!
O S&P 500
fechou a 7.109, com queda de 0,24%; o USDBRL a R$ 4,9738, com queda de 0,11%; o
EURUSD a € 1,1785, com alta de 0,18%; e o ouro a U$ 4.815, com queda de 0,34%.
Fique ligado!
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