Gráfico não tem opinião #SP500

 


Há uma pergunta que o mercado nunca cansa de fazer, e que a maioria dos investidores responde errado: como se proteger de uma crise? A resposta mais comum é: diversificando. Ações, renda fixa, imóveis, fundos multimercado — uma carteira bem distribuída, em tese, amortece os choques. O problema é que essa lógica falha exatamente quando mais precisa funcionar.

Um estudo recente da Man AHL, gestora quantitativa com décadas de histórico, demonstra com clareza o porquê. Ações, crédito, imóveis e private equity têm o mesmo motor de retorno: crescimento econômico. Quando esse motor falha — numa recessão, num colapso de liquidez, numa crise sistêmica — esses ativos caem juntos. A diversificação, nesses momentos, é uma ilusão bem embrulhada.

A exceção histórica tem sido o trend following — estratégias que não dependem de crescimento econômico para gerar retorno, e que historicamente performam melhor justamente quando os demais ativos desmoronam. No pior quintil de retorno trimestral das bolsas globais, o trend following entregou, em média, +6% ao trimestre. Títulos globais e fundos multistrategy ficaram muito atrás.



Mas aqui está a questão que poucos se fazem: o que exatamente é seguir uma tendência? E por que tantos investidores praticam isso sem reconhecer?

Deixe-me contar uma história pessoal que responde a ambas as perguntas.

No início dos anos 2000, eu era diretor de investimentos do Deutsche Bank no Brasil. O acesso aos relatórios internos do banco era privilegiado, e foi assim que comecei a acompanhar de perto o mercado de câmbio — especificamente o FX das principais moedas. Já conhecia o trabalho de Andrew Baptiste, analista técnico do Morgan Stanley, mas na época minha bússola era outra: David Rosenberg, meu xará, economista de primeira linha que deu um call para compra de euro quando a moeda estava ao redor de € 0,85. A tese era sólida. Comecei a me posicionar.

No início, o mercado não foi a meu favor. Lembro de um almoço com a posição no vermelho, pesando se devia liquidar tudo ou aguentar mais um pouco. Decidi ficar, mas coloquei um nível claro na cabeça: se chegasse ali, saía. Alguns dias depois a alta começou. Fui aumentando a exposição, vendi dólar contra outras moedas, e comprei ouro a US$ 270 — o broker do outro lado ficou em silêncio por um segundo antes de confirmar a ordem. O metal estava completamente esquecido pelo mercado.

Quando o euro chegou a € 1,25, Rosenberg recomendou encerrar. Lucro expressivo, acatei sem hesitar. Mas aí veio o erro clássico: depois de uma operação bem-sucedida, o trader acha que virou gênio. O euro continuou subindo, e eu — agora sem posição e me sentindo expert no assunto — olhei para Baptiste, que seguia comprado, e pensei: ele deve estar errado, os fundamentos já não sustentam mais esse nível. Fui para a venda.

Prejuízo. Baptiste estava certo. O euro chegou a US$ 1,60, um patamar que nunca mais foi revisitado. Zerei a posição vendida, engoli o erro, e fui estudar Elliott Wave. A lição ficou gravada: a opinião do economista é boa, mas a do analista técnico é melhor. Não porque o economista seja menos inteligente — Rosenberg é brilhante. Mas porque o preço sabe coisas que o modelo econômico não captura. O preço é a síntese de tudo: fundamentos, fluxo, sentimento, posicionamento. Baptiste lia o preço. Eu estava lendo a tese.

E é exatamente isso que o estudo da Man AHL formaliza em escala institucional. Os grandes fundos sistemáticos de trend following operam até 900 mercados simultaneamente — de futuros de índice ao crédito indonésio, de energia elétrica europeia a criptomoedas — usando médias móveis e rompimentos de preço como sinais. O princípio é o mesmo que aprendi naquela operação: o preço tem memória, as tendências persistem, e posicionar-se a favor delas gera retorno.



O estudo aponta ainda um dilema relevante para quem pensa em alocação: há uma tensão real entre maximizar o retorno ajustado ao risco no longo prazo e maximizar a proteção nas crises. São objetivos distintos, que pedem carteiras distintas. A carteira de Sharpe máximo tende a mercados alternativos e idiossincráticos, com mais apostas descorrelacionadas. A carteira de crise máxima concentra nos mercados tradicionais — índices, câmbio, juros — exatamente aqueles onde os grandes movimentos macro se manifestam com mais força.



Conheci certa vez um profissional que operava de forma muito intensa — isso já faz décadas. Na opinião dele, não existia ficar zerado: se não estava comprado, devia estar vendido. Não sei qual foi seu paradeiro, mas sou capaz de afirmar que não foi bem-sucedido. Desde que comecei a usar a teoria de Elliott Wave percebi que na verdade é preciso ficar fora do mercado 70% do tempo — em correções — e aproveitar os 30% restantes para se posicionar com convicção.

Esse princípio tem consequências práticas. Não gosto de sugerir operações inversas em movimentos direcionais. Na bolsa americana, cuja minha visão estrutural é de alta, não costumo sugerir vendas — só em casos extremos, onde o risco-retorno é muito atrativo, e mesmo assim com stoplosses curtos. Do ponto de vista técnico, acredito que podemos estar nos aproximando de um período de correção, razão pela qual liquidei as duas posições nas bolsas americanas.

O leitor pode me perguntar se administro minha carteira inteira usando somente os gráficos. Seria impossível — afinal, como investidores individuais, não somos um hedge fund. Mas o que faço sem exceção é o seguinte: jamais entro numa posição sem antes consultar o gráfico. Se ele não me sugere compra, estou fora, ponto final.

Para a parcela de ações, trabalho com uma margem de segurança dinâmica. Se o gráfico aponta algum perigo, faço alguma proteção usando derivativos — tenho utilizado um put spread no S&P 500, que não é perfeito, mas cumpre o papel. Se o cenário está favorável, sigo com as orientações da carteira sem acrescentar nada. E se o gráfico aponta para alta mais expressiva, normalmente vendo puts de S&P 500 fora do dinheiro — uma forma de potencializar o retorno quando a leitura técnica é construtiva.

Acerto sempre? Não. Mas vou me adaptando, buscando não me deixar contaminar por vieses — o que é difícil, mas exige disciplina. O gráfico não tem opinião. Eu também preciso aprender a não ter.

 

Análise Técnica

No post "vamos-sentir-saudades-da-inflação-baixa" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

"O gráfico a seguir aponta qual a região onde a bolsa poderia recuar caso o movimento de queda tivesse começado. Não posso afirmar nada, pois nenhuma indicação foi dada e ela pode continuar subindo antes que essa correção esperada ocorra"



Resolvi dar nome aos bois e estabelecer que estamos na
onda (2) vermelha. Notem que a coloração em relação às ondas do gráfico acima e do gráfico a seguir se modifica em função dessa definição feita — o programa MotiveWave é excepcional.

O objetivo passa a ser o indicado no retângulo. Observem que não são os objetivos "mais prováveis" pela sua coloração; adotei esses por conta de outras indicações do "guidance" que acredito não ser de interesse de grande parte dos leitores — se alguém quiser saber, coloque nos comentários. Essa correção deverá perdurar entre o meio de junho e início de julho conforme indicado com a seta azul.



Alguns destaques se fazem necessários:

— Não é possível ainda afirmar que a onda (1) vermelha terminou; pode ter ainda mais um ATH.

— Essa correção pode ser mais profunda e atingir os níveis "mais prováveis".

— Existe um outro cenário, como já comentei anteriormente, onde a retração esperada pode ser ainda mais profunda.

Por fim: "Let The market Speak".

O S&P 500 fechou a 7.353, com queda de 0,67%; o USDBRL a R$ 5,0562, com alta de 0,82%; o EURUSD a € 1,1604, com queda de 0,44%; e o ouro a U$ 4.482, com queda de 1,84%.

Fique ligado!

Comentários