A ação da aposentadoria #IBOVESPA
Será que vocês
caíram na minha armadilha? Porque, afinal, o Mosca sempre disse que não sugere
ações individuais. É só uma chamadinha de marketing, hahaha. Tenho quase
certeza de que todos nós gostaríamos de acertar qual será a próxima Nvidia,
aquela ação que se multiplica por um fator exponencial e resolve a vida de quem
a comprou cedo. Será a SpaceX? Ou, quando abrirem capital, a OpenAI ou a
Anthropic? Ainda dá tempo de comprar a Micron, que já subiu bastante? Nunca
esperem uma dica dessas vindo de mim, e como vocês verão a seguir, a coqueluche
do momento costuma decepcionar com o passar do tempo.
O melhor a fazer, ao meu ver, é comprar o SPY ou concorrentes que espelham o S&P 500 ponderado pelo valor de mercado. Nesse tipo de veículo, como já mencionei outras vezes, as ações mais demandadas vão ganhando participação, tomando o lugar das que perdem valor. Esse ajuste acontece sozinho, sem que ninguém precise decidir nada: quando uma empresa se valoriza, seu valor de mercado cresce e a fatia dela dentro do índice aumenta automaticamente, sem que um único real precise trocar de mão; quando ela perde valor, o oposto ocorre, e se a queda for grande o bastante, a própria metodologia do índice acaba excluindo a empresa e colocando outra em seu lugar.
O índice deixa os vencedores correrem e vai desidratando os perdedores sem que você precise apertar um botão de compra ou venda, e sem que a decisão dependa do seu humor, da sua convicção do momento ou da sua capacidade de prever qual será a próxima queridinha do mercado. É basicamente o oposto psicológico de escolher uma ação individual, situação em que todo dia você é tentado a reavaliar, a comprar mais na euforia ou a vender no pânico. E assim, com o tempo, você fica com uma carteira que vai dançando conforme a música, sem querer dar a porrada da vida, mas mantendo uma apostinha comedida nas preferidas do mercado.
Hendrik Bessembinder, professor da W. P. Carey School of Business, da Arizona State University, publicou em julho de 2026 um estudo intitulado "Returns to 'Do-Nothing' Portfolios", no qual reconstrói 55 anos de retornos ano a ano a partir dos componentes do próprio S&P 500, e é categórico quanto a isso: apostar todo ano na maior ação do índice foi, historicamente, uma estratégia ruim. Quem fez isso entre 1971 e 2013 transformou um dólar em pouco mais de quatro, enquanto o índice completo transformou o mesmo dólar em quase oitenta.
A International Business Machines foi a maior ação do índice na maior parte dos anos setenta e oitenta, entregando quedas de até trinta por cento em alguns desses anos. A General Electric assumiu o posto nos anos noventa e primeira metade dos dois mil, seguida pela Exxon Mobil até o início da década passada. O gráfico a seguir, reconstruído a partir dos dados do próprio estudo, mostra bem o retrato: a linha da carteira completa do índice supera com folga as carteiras concentradas nas maiores ações ao longo de quase toda a série, e a linha da maior ação isolada passa a maior parte do tempo lá embaixo.
A vantagem que a
maior ação do momento vem mostrando na última dúzia de anos é atípica e deve
boa parte do seu brilho a uma única história de sucesso extraordinário, a da
Apple. Comprar o índice inteiro, e não a queridinha da vez, também tem a
vantagem de afastar você das previsões dos analistas fundamentalistas, que
acertam e erram na mesma proporção de sempre, e aproxima suas decisões das
finanças comportamentais, que é onde, a essa altura da vida, prefiro colocar
minhas fichas.
Nem pensar em hedge funds como alternativa a essa disciplina. Um levantamento da RIABiz com dados do índice HFRI mostra que, entre 2010 e 2025, o hedge fund médio só superou o S&P 500 em três anos, 2015, 2018 e 2022, e mesmo assim apenas porque perdeu menos do que o índice, que caiu com mais força nesses períodos. Em todos os outros treze anos da série, um simples fundo indexado teria deixado o investidor com mais dinheiro no bolso do que a média dos hedge funds, mesmo com todo o aparato de gestores renomados, estratégias sofisticadas e taxas de administração salgadas.
O gráfico anexo mostra a série completa: mesmo os vinte
maiores fundos por patrimônio sob gestão só bateram o índice em sete dos
dezesseis anos analisados, um histórico um pouco melhor, mas ainda assim
inconsistente. O problema de fundo é que essa classe de ativo deveria servir
para diversificar e reduzir a correlação com a bolsa, e o que se observa é o
contrário: os hedge funds sobem e descem, em geral, na mesma direção do mercado
acionário, só que com menos intensidade, uma correlação indesejável para quem
paga caro por proteção.
Eu aprendi com a
vida, e talvez com a idade, que as coisas mais simples costumam ser as
melhores. Se para entender um investimento você precisa virar especialista em
finanças, a princípio eu não recomendo. E se posso dar um conselho a quem me
lê: não procurem a ação da aposentadoria, nem tentem ficar ricos da noite para
o dia. Nesse último caso, é mais honesto apostar na Mega-Sena.
Análise Técnica
No post
"EM=ET" fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:
"deu início
a um trade de compra a 174,2 mil, conforme mencionei no post acima. Posso dizer
que é preciso muita coragem para entrar numa correção e ainda em uma onda B —
como dizia um velho guru que eu acompanhava, ondas B são destruidoras de lucro."
— Opa, David,
como é que é? Você vai sugerir um trade de venda? Não me recordo de ter feito
isso antes.
Tem razão, é
muito raro isso ocorrer, mas, no caso, a onda A vermelha está
"bonitinha", by the books, como se diz na gíria de mercado.
Sendo assim, é necessária uma onda C vermelha — ainda não visível — que
deve atingir níveis inferiores aos da onda A vermelha, ao redor de 160 mil,
valor a ser mais bem calculado. E digo mais: estou trabalhando com um cenário
de alta no médio prazo, mas, se a bolsa cair abaixo de 151 mil e, principalmente,
violar 134 mil, aí a história é outra, e passarei de altista para baixista. Em
todo caso, não me parece que esse último cenário seja provável, pelo que se
observa até hoje. O gatilho seria uma crise de solvência? Não estou aqui para
adivinhar.
O S&P 500
fechou a 7.499, com queda de 0,14%; o USDBRL a R$ 5,0662, com queda de 0,41%; o
EURUSD a € 1,1411, com alta de 0,12%; e o ouro a U$ 4.134, com alta de 1,40%.
Fique ligado!
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