A ilusão do crescimento #IBOVESPA
Um estudo
recente da Morgan Stanley, de autoria de Michael Mauboussin e Dan Callahan,
jogou luz sobre um dado que deveria constranger qualquer investidor entusiasta:
de todas as empresas listadas nas bolsas americanas entre 1926 e 2025 — mais de
29 mil ao todo —, apenas 0,7% foram responsáveis por mais de 75% de toda a
riqueza gerada no mercado acionário no período. Pouco mais de 200 empresas
carregando nas costas a prosperidade de gerações inteiras de investidores.
Uma outra
publicação que aponta no mesmo sentido, mostra que nesse período apenas 10
empresas geraram aproximadamente 30% da criação de riqueza. Notem que dessas
empresas a grande maioria não existia (ou eram de fundo de quintal) antes dos
anos 2000.
O que o estudo
identifica — e que os modelos convencionais de avaliação teimam em obscurecer —
é a diferença entre crescer e criar valor. Uma empresa cresce quando expande
receitas, contrata pessoas, abre filiais, anuncia fusões. Uma empresa cria
valor quando cada real investido retorna mais do que custou. A distinção parece
óbvia, mas na prática é sistematicamente ignorada.
Existe uma
métrica precisa para medir isso: o retorno sobre o capital investido, ou ROIC.
Quando o ROIC supera o custo do capital, a empresa cria valor. Quando
fica abaixo, ela o destrói — não importa o tamanho do logotipo ou o entusiasmo
dos analistas que cobrem o papel. Crescer com ROIC abaixo do custo de
capital é matematicamente equivalente a destruir riqueza em escala.
Mas há uma
segunda dimensão ainda mais negligenciada: por quanto tempo uma empresa
consegue sustentar esse diferencial positivo. Mauboussin chama isso de "Período
de Vantagem Competitiva" — o tempo durante o qual uma companhia
consegue investir acima do custo do capital antes que a concorrência, a
maturidade do mercado ou a própria burocracia interna corroam essa vantagem.
Sempre fui
cético em relação ao uso do preço sobre lucro (P/L) como métrica principal de
avaliação. Não que seja uma ferramenta inútil — longe disso. O problema está
nas suposições embutidas quando o mercado classifica uma ação como barata ou
cara com base nela. O estudo atual coloca o dedo exatamente nessa ferida:
quando se diz que uma empresa vale 20 vezes o lucro, a pergunta que ninguém faz
é — podemos assumir que esse lucro vai prevalecer por todo esse período? A
resposta, para a maioria das empresas, é não.
E o que torna
tudo isso ainda mais absurdo é o comportamento do mercado na divulgação
trimestral de resultados. Se uma empresa tem P/L de 20, uma conta elementar —
multiplica o lucro trimestral anunciado por 80, para anualizar e precificar —
define instantaneamente se o papel está acima ou abaixo do "preço
justo". Se o resultado ficou um centavo abaixo do consenso dos
analistas, a ação despenca. Se superou por uma margem mínima, dispara. Seria
possível colocar um algoritmo para operar com base nessa mecânica — e vários o
fazem.
O paradoxo é que todo esse ritual de precisão matemática repousa sobre uma premissa que o próprio estudo demonstra ser falsa para a maioria das empresas: a de que o lucro de hoje é um proxy confiável do lucro de amanhã. Os dados mostram que a persistência das taxas de crescimento de receita é surpreendentemente baixa — correlações de apenas 0,16 em períodos de três anos e 0,14 em cinco anos para empresas americanas desde 1950. Em outras palavras, o passado recente pouco prediz o futuro. O mercado sabe disso e continua precificando como se não soubesse.
É aqui que a
maioria dos modelos falha de forma sistemática. O múltiplo de lucro não sabe
distinguir uma empresa cuja vantagem vai durar dois anos de outra que vai
sustentá-la por vinte. Ambas recebem o mesmo tratamento, o mesmo rótulo, a
mesma equação. O resultado são apostas cegas disfarçadas de análise
fundamentalista.
Os dados
empíricos mostram que empresas no setor de bens de consumo básico têm vantagens
competitivas mais duráveis — com taxas de erosão significativamente mais lentas
do que setores como energia ou telecomunicações. Não por acaso, companhias como
Coca-Cola e Colgate figuram entre as geradoras de riqueza de longo prazo mais
consistentes da história. A vantagem delas não está apenas na margem — está na
durabilidade.
Warren Buffett
entendeu isso intuitivamente décadas antes de qualquer modelo acadêmico. Quando
fala em "fosso econômico" — a metáfora do castelo cercado por
um fosso largo, fundo e cheio de jacarés — está descrevendo exatamente essa
dimensão temporal. Não basta ter lucro hoje. É preciso que a concorrência não
consiga replicar esse lucro amanhã.
O que o estudo
acrescenta à sabedoria de Buffett é uma estrutura quantitativa para medir e
precificar essa durabilidade. Em vez de perguntar "essa empresa vale 20
vezes o lucro?", a pergunta certa é: "o preço atual implica
quantos anos de retornos acima do custo de capital?" Para a Microsoft,
avaliada em março deste ano, a resposta era entre 17 e 18 anos. Não significa
que está cara ou barata — significa que o mercado aposta nesse horizonte. Cabe
ao investidor decidir se é uma aposta razoável.
A conclusão é
incômoda para quem gosta de atalhos: não existe múltiplo que substitua a
análise estratégica. Entender se uma empresa consegue defender sua posição
competitiva por 5, 10 ou 20 anos exige compreender o setor, as barreiras de
entrada, a qualidade da gestão e a capacidade de inovar sem se autodestruir.
Exige o que os mercados têm cada vez menos paciência para fazer.
E é exatamente
por isso que a oportunidade continua existindo. Quando o consenso se contenta
com múltiplos trimestrais e ignora durabilidade, o investidor que entende a
diferença entre crescimento e criação de valor carrega uma vantagem silenciosa
— e, ironicamente, duradoura.
Análise Técnica
No post "O
feitiço vira contra o feiticeiro", fiz os seguintes comentários sobre
o IBOVESPA:
"a onda 3 verde ainda não
havia terminado — veja abaixo as ondas menores em azul. Dessa forma, um
primeiro objetivo estaria ao redor de 200 mil — linhas verde e laranja dentro
do retângulo azul (minha preferência) —; ou, mais acima, entre 212 mil e 221
mil."
Nesta última semana, a bolsa ficou na defensiva, sem indicar, contudo, que houve reversão de tendência. O gráfico abaixo, com janela diária, ainda possível que pode haver novas altas no curto prazo, rompendo a barreira dos 200 mil — com os objetivos subsequentes situados entre 212 mil, 215 mil e 221 mil. Como se pode observar, realizei um ajuste fino na contagem das ondas.
O encerramento da onda 3 verde vislumbra, na sequência, um período relativamente longo de correção. Qual seria o gatilho? A primeira hipótese que surge é a guerra — mas os investidores já parecem saber como operar as idas e vindas do presidente Trump. No jargão do momento, o "TACO trade" está em plena vigência: a sigla se refere a "Trump Always Chickens Out" — a aposta de que Trump sempre recua antes de deixar os mercados desmoronarem. Esse comportamento, que começou como episódio isolado, tornou-se padrão e, hoje, é praticamente um axioma operado de forma automática, sem questionamento.
Se não for a
guerra, o que mais poderia funcionar como catalisador de uma correção mais
profunda? Internamente, os candidatos naturais são: as eleições de 2026,
eventual crise no Judiciário, avanço da inadimplência — e, num cenário mais
extremo, a quebra de algum grande grupo econômico. Mas não estamos aqui para
especular, e sim para ler os gráficos com atenção. Se a contagem estiver
correta, algum evento relevante deverá materializar-se no momento em que as
ondas assim indicarem.
O S&P 500
fechou a 7.137, com alta de 1,05%; o USDBRL a R$ 4,9906, com alta de 0,23%; o
EURUSD a € 1,1704, com queda de 0,33%; e o ouro a U$ 4.739, com alta de 0,41%.
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