Todo grande
veículo de comunicação financeira está cobrindo a alta dos juros internacionais
com alarde. Entendo o nervosismo. A comparação com a década de 70, quando os
juros americanos visitaram dois dígitos, amplifica qualquer receio.
Provavelmente 80% dos operadores ativos hoje nunca trabalharam com juros nesses
níveis e, sem memória histórica, o instinto corre para o pior cenário. Os
“terroristas” do crash da dívida americana aproveitam o momento para reforçar
sua tese, e o ciclo vicioso se alimenta sozinho.
Quem acompanha o
Mosca sabe que não me incomodei com essa alta. Pelo contrário: considero o
movimento saudável. Os juros ficaram artificialmente comprimidos por muitos
anos e agora estão se normalizando. A questão relevante não é “por que
subiram”, mas “até onde vão”.
O yield do
Treasury de 30 anos ultrapassou 5,19% esta semana — nível inédito desde junho
de 2007. O gráfico abaixo, da Bloomberg, conta a história: a linha tocou o teto
dos 5% nos meses finais de 2023, recuou e agora está de volta com força.
Os motivos são de
duas ordens. Em termos de fluxo: bancos centrais ao redor do mundo recompondo
seus portfólios em favor do ouro; as grandes empresas de tecnologia em frenesi
de investimentos por conta da inteligência artificial; e o Fed reduzindo sistematicamente
sua carteira de bônus. Em termos econômicos: a guerra com o Irã provocou
pressão inflacionária que já se dissemina pela cadeia produtiva. Soma-se a
força da economia americana — o Fed de Atlanta projeta crescimento de 4% ao ano
para o segundo trimestre de 2026.
O impacto da
guerra com o Irã é visível com precisão cirúrgica no gráfico abaixo da
Bloomberg: o preço do petróleo Brent para dezembro de 2026 e a taxa implícita
dos Fed Funds dispararam exatamente no momento em que o conflito começou. A
guerra não é a única razão da alta dos juros, mas foi o catalisador que
apressou o ajuste.
Há, porém, uma
dimensão que os analistas estão errando no diagnóstico. Robin Brooks,
ex-economista-chefe do IIF, aponta algo mais simples e preciso: houve uma
desconexão entre a curva curta e a curva longa. Por meses, as taxas de curto
prazo já precificavam altas dos bancos centrais — os futuros mostravam isso com
clareza. Mas os yields de longo prazo ficaram ancorados. Essa disjunção era
incomum. O que se vê nesta semana é a curva longa fazendo o “catch-up” que
deveria ter feito antes. O gráfico abaixo, com os yields de 30 anos em seis
grandes economias, mostra o movimento sincronizado: EUA, Alemanha, Japão, Reino
Unido, Itália e França sobem juntos.

E o fenômeno é
global. O epicentro é o Japão — e o motivo é estrutural. O Banco do Japão há
anos mantinha tetos artificiais sobre os yields dos JGBs. O resultado é
anômalo: o yield japonês mal supera o alemão, apesar da dívida pública japonesa
ser muito maior. O BCE pratica lógica semelhante em favor dos países
periféricos de alto endividamento. Esses tetos são politicamente insustentáveis
— quando caem, os yields sobem de forma permanente.
O trabalho do
Robin Brooks é revelador: em seis países (EUA, Reino Unido, Canadá, Alemanha,
Suíça e Austrália), a mesma história se repete — a curva curta já tinha
precificado as altas, mas a curva longa estava ancorada. O selloff desta semana
é esse ajuste tardio acontecendo.
O prêmio de prazo
confirma. O gráfico abaixo, da LSEG, mostra o spread entre os títulos de 30 e 2
anos em cinco países. O Japão dispara para o topo — a pressão do desmonte do
teto do BoJ é visível. França e Reino Unido sobem. Os EUA e a Alemanha permanecem
mais contidos.
A questão final é
até onde isso vai. Existe um nível psicológico de 5% ao ano para os títulos
americanos — o teto do conforto de Ed Yardeni. Para uma meta de inflação de 2%,
isso implica um juro real de 3%, que é alto. Fui rever minha previsão feita no
final de 2025: propus um intervalo entre 3,5% e 4,60% ao ano. Por enquanto,
estamos dentro. Parte da alta reverterá quando a guerra com o Irã se resolver.
Mas outra parte é permanente: o desmonte dos tetos artificiais em várias praças
é uma força estrutural. Enquanto isso não se acomodar, os juros continuam sendo
o fantasma do mercado. Acima de 5% ao ano, viram pesadelo.
Análise Técnica
No post “a-ia-entrou-em-escape-velocity” fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:
“Minha hipótese
de uma correção na onda 4 verde mais longa está se materializando, e é
possível que se desenrole na forma de um triângulo, o que é comum em ondas 4.
Se esse for o caso, a retração deve se situar entre 181,4 mil e 170 mil”
O fluxo de
estrangeiros ficou negativo no mês de abril pela primeira vez neste ano,
apontando desconfiança por parte desses investidores. A razão pode ser tripla:
realização de lucro, consequências da guerra no Irã e mudança no quadro
político. Tanto faz o motivo — eles resolveram vender.
Do ponto de vista
técnico, com a mínima nessa queda atingindo 173,5 mil, pode ser a mínima
(“pode” grifado). Pode a onda 4 verde ter terminado? Muito pouco
provável. Se minha opção de triângulo se confirmar, e isso só saberemos com o
passar do tempo, esperem oscilações para cima e para baixo dentro do intervalo
entre 173,5 mil e 200 mil — um intervalo de 15%.
Cabe aqui uma
outra dúvida: e se ao invés de ficar nesse zig zag a bolsa continuar caindo?
Até o nível de 160 mil é possível, mas ficaria muito desconfiado se esse
patamar fosse atingido diretamente, ou seja, antes que uma correção levasse ao
nível de 190 mil.
Notem que mudei a
escala do gráfico para diária a fim de melhor acompanhar os movimentos. No
curto prazo, nada a fazer, embora eu espere uma alta de aproximadamente 8%.
Para quem é mais oportunista pode tentar, colocaria o stop loss a 173,5 mil.
Hoje, no final do
pregão, a Nvidia irá anunciar seus resultados. As seguintes observações:
Probabilidade de
superar a receita de U$ 78,8 bi (consenso) – 96% (Polymarket)
Receita Q2 – U$
86,6 bi – acima de U$ 88 bi: reação positiva forte
EPS Q2 – U$ 1,93
– acima de U$ 2,00 é altista
A conferir amanhã.
O S&P 500 fechou a 7.432, com alta de 1,07%; o USDBRL a R$ 5,0167,
com queda de 0,85%; o EURUSD a € 1,1627, com alta de 0,19%; e o ouro a U$
4.546, com alta de 1,43%.
Fique ligado!
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