A IA entrou em esacape velocity #IBOVESPA


Na semana passada escrevi sobre os chips da Nvidia e o que está por trás da demanda explosiva por semicondutores. Mas o chip é só a camada mais visível de uma transformação muito mais profunda — e é essa camada invisível que vai definir quem sobrevive e quem desaparece no ciclo que está em curso.

Quem acompanha o blog há mais tempo conhece a Carteirinha. A ideia central era simples: ou a empresa tinha o ingresso para o mundo da IA, ou estava fora da festa. O que estou vendo agora é que chegamos a um segundo estágio — ter a Carteirinha já não é suficiente. Quem a tem precisa correr na frente dos concorrentes. Quem ainda não a tem corre o risco de sumir. É a destruição criativa de Schumpeter em velocidade de processamento gráfico.

O que uma enorme instituição financeira já faz hoje

Ontem, numa conversa com uma executiva de uma enorme instituição financeira, fiquei impressionado com o estágio de adoção da IA naquela organização. Não estamos falando de projeto piloto nem de comitê estudando o assunto. Estamos falando de operação real, no dia a dia.

Ela me descreveu a manhã de trabalho: ao chegar, já encontra uma lista de tarefas gerada automaticamente — com quais clientes falar, por qual razão e em qual ordem de prioridade. Os e-mails já estão redigidos, personalizados para cada interlocutor. Os relatórios já estão prontos, com todos os dados e informações pertinentes ao perfil de cada cliente. Qualquer pesquisa produzida pela instituição sobre qualquer ativo está disponível para consulta instantânea, com síntese sob medida.

Perguntei quanto tempo ela gasta hoje nas mesmas tarefas em comparação a um ano atrás. A resposta foi direta: um terço. Os outros dois terços do tempo que antes eram consumidos por trabalho operacional não foram transferidos para outra pessoa — foram liberados. E ela os usa para o que realmente importa: ampliar sua carteira de clientes. Isso é produtividade em escala supersônica — não apenas fazer o mesmo com menos, mas fazer muito mais com o mesmo.

O Goldman Sachs coloca números no que estou vendo

Um relatório publicado pelo Goldman Sachs formaliza exatamente o que essa conversa ilustrou. O documento aponta que o investimento em IA vai muito além do hardware — chips, servidores e data centers são apenas o primeiro capítulo. O capítulo decisivo é o que os economistas chamam de capital intangível: a reorganização interna das empresas para absorver e operar com agentes de IA.

Os números são expressivos. As empresas americanas já gastam US$ 153 bilhões por ano realocando equipes de tecnologia para projetos de IA. Outros US$ 40 bilhões anuais correspondem ao tempo de executivos dedicado exclusivamente à estratégia de adoção. E ao longo do ciclo completo de transição, o Goldman estima que a reestruturação da força de trabalho vai custar entre US$ 800 e 900 bilhões — o equivalente ao deslocamento de 6% a 7% de toda a mão de obra americana.

 


A relação histórica entre investimento em hardware e investimento complementar em dados, software e reorganização sugere que para cada dólar gasto em chips, outros dois dólares são gastos na adaptação interna. Aplicando esse multiplicador ao ciclo atual, o Goldman estima mais de US$ 1 trilhão em investimento intangível globalmente nos próximos anos.

A curva J e o que não aparece no PIB

Há um conceito importante para entender o momento atual: a curva J da produtividade. Toda vez que uma tecnologia de uso geral surge — a eletricidade, o computador pessoal, a internet — a produtividade cai primeiro antes de subir. As empresas desviam recursos para se adaptar, e esse esforço aparece como custo, não como investimento, nas contas nacionais.

O Goldman argumenta que estamos exatamente nessa fase. Grande parte do investimento em IA que está ocorrendo hoje sequer é capturada pelo PIB oficial — é produzida internamente pelas empresas, sem transação de mercado. Isso significa que a aceleração de produtividade que já está acontecendo está sendo subestimada. Quando o ciclo de adaptação se completar, o salto visível nas estatísticas será maior do que o mercado antecipa.

Tenho a impressão crescente de que estamos numa progressão geométrica de eficiência. O que levava três horas leva uma. O que levava uma semana leva um dia. E o ritmo de aceleração não dá sinais de desacelerar — pelo contrário.

Quem lidera e quem fica para trás

O relatório do Goldman introduz o conceito de empresas superstar — aquelas que investem com mais eficiência em capital intangível e, por isso, capturam uma fatia crescente da receita do setor, reduzem custos de mão de obra e geram retornos desproporcionais sobre o capital investido. Os dados históricos mostram que o 1% mais rico das empresas americanas já concentra cerca de 80% da receita total dos seus setores — e essa concentração cresceu em paralelo exato com o aumento do investimento intangível.

 


A lógica é implacável: capital intangível tem custo marginal quase zero após o investimento inicial. Uma fábrica serve uma planta. Um sistema de IA bem construído serve milhões de clientes simultaneamente, sem custo adicional relevante. Isso cria uma dinâmica de vencedor que leva tudo — dentro de cada setor, a distância entre o líder e o segundo colocado vai aumentar de forma estrutural.

E você — sua empresa já entrou nessa corrida?

Ninguém é capaz de dizer com precisão onde estaremos daqui a um ano. A velocidade da transformação está fora do alcance dos modelos tradicionais de previsão. Mas uma coisa é certa: quem bobeou na IA já está atrás, e o intervalo entre estar atrás e estar fora da corrida está encolhendo rapidamente.

Se você é executivo ou gestor, faça uma pergunta honesta: onde sua empresa está nesse processo? Se a resposta for "ainda estamos avaliando" ou "temos um projeto piloto", o sinal de alerta já deveria estar aceso. A destruição criativa não avisa com antecedência — ela simplesmente acontece. Fale com seu CEO. Mostre o que já está ocorrendo no mercado. O bonde não tem hora marcada para partir, mas para alguns já partiu.


Análise Técnica

No post "o-maior-cliente-manda" fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:

"As linhas tracejadas em azul indicam os possíveis níveis de retração: 168,6 mil, 158,9 mil e 149,2 mil. Meu preferido seria o primeiro ou, talvez, o segundo — ainda assim, no primeiro caso, uma queda de 12%." Nesse post estendi a análise com várias hipóteses, vale reler.

 


A bolsa brasileira se deslocou das internacionais e também das emergentes no último mês. Enquanto, por exemplo, a americana atingia novos recordes, a brasileira ficou em queda. Como vinha sendo o play beta — se subiam, nós subíamos mais; se caía, a queda aqui era mínima. Não estou induzindo a nada, apenas observando.

Fiz pequenos ajustes no gráfico que alteraram marginalmente os parâmetros das linhas azuis tracejadas. Minha hipótese de uma correção na onda 4 verde mais longa está se materializando, e é possível que se desenrole na forma de um triângulo, o que é comum em ondas 4. Se esse for o caso, a retração deve se situar entre 181,4 mil e 170 mil.

Observando no curto prazo, em janelas de menor nível, colocaria o patamar de 183 mil como indicador de que a correção está em curso e não se trata de uma mudança de direção de longo prazo. Por outro lado, se continuar em queda, será necessário avaliar o cenário adiante.



O S&P 500 fechou a 7.444, com alta de 0,58%; o USDBRL a R$ 5,0246, com alta de 2,30%; o EURUSD a € 1,1709, com queda de 0,26%; e o ouro a U$ 4.686, com queda de 0,60%.

Fique ligado!

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