O mercado não deixa dinheiro na mesa #USDBRL


O mercado de ações dispõe de inúmeras métricas para avaliar empresas, mas todas elas têm um denominador comum inescapável: o preço. Seja pelo Preço/Lucro, pelo Preço/Vendas ou pelo valor patrimonial, o preço está em toda parte. A pergunta que raramente se faz, porém, é a mais importante: por que determinada ação ficou barata? Qual foi o gatilho? Seria o tamanho da empresa, que a exclui dos índices mais difundidos? Um novo concorrente capaz de oferecer produtos mais baratos? A deterioração da gestão? Perspectivas sombrias para o setor? As causas são muitas — mas identificá-las faz toda a diferença entre uma oportunidade real e uma armadilha disfarçada de pechincha.

Certa vez, tive a oportunidade de visitar a mesa de operações da Merrill Lynch, quando a instituição ainda existia. De uma janela em andar superior, a cena era impactante: aproximadamente 500 operadores, cada um diante de seus terminais e telefones, formavam uma multidão densa e disciplinada. A pessoa que me acompanhava fez questão de enfatizar a dimensão da estrutura. Naquele momento, pensei: é quase impossível que uma ineficiência persista por muito tempo diante de tanto capital humano e tecnológico concentrado num único espaço.

A partir daí, sempre fui cético quando alguém me apresentava uma ação que "o mercado não estava enxergando". Como assim, o mercado não via? Além daquela mesa, havia centenas de estruturas similares ao redor do mundo, repletas de analistas dedicados exclusivamente a isso. O argumento da oportunidade ignorada raramente se sustenta. Agora, se a premissa sobre o futuro da empresa for sólida e bem fundamentada, aí sim a conversa muda de patamar — não porque o mercado errou, mas porque alguém chegou a uma conclusão diferente sobre o que ainda está por vir.

Essa reflexão ganha relevância especial quando se observa o cenário atual. Um relatório recente da Yardeni Research aponta que, mesmo após a forte recuperação das bolsas americanas, as ações ficaram mais baratas do que estavam no final de 2024. O Preço/Lucro projetado do S&P 500 recuou para 20,9 — significativamente abaixo do pico de 23,0 registrado ao término de 2025. As empresas de menor capitalização apresentam múltiplos ainda mais comprimidos: o índice de médias empresas opera em torno de 16,3 e o de pequenas empresas, em 15,9. Esses números, isolados, parecem atraentes — mas voltamos à pergunta inicial: por qual razão estão assim?




A resposta, neste caso, é construtiva. Os lucros projetados do S&P 500 atingiram um novo recorde histórico, superando US$ 346 por ação. As estimativas de consenso para 2026 e 2027 seguem em trajetória ascendente, e as empresas que já divulgaram seus resultados do primeiro trimestre de 2026 entregaram crescimento de lucros na casa de 18,5% — muito acima das expectativas iniciais. Ou seja: as ações ficaram mais baratas não por deterioração dos fundamentos, mas porque os preços subiram menos do que os lucros cresceram. Esse é o tipo de barateamento que qualquer investidor racional deveria celebrar.



Mas identificar que uma ação está barata com fundamentos sólidos é apenas metade do trabalho. A outra metade — e talvez a mais negligenciada — é saber quando entrar. Um estudo publicado pela Research Affiliates em março de 2026 traz uma contribuição valiosa nesse sentido. Os autores argumentam que nenhum sinal isolado é suficiente para orientar decisões de investimento. O preço barato pode continuar caindo antes de se recuperar. A empresa pode ser de boa qualidade, mas ainda sem catalisadores visíveis. É exatamente aí que entra o conceito de momento: a tendência recente dos preços como termômetro do que o mercado está efetivamente sinalizando.

Tenho uma preferência declarada por esse raciocínio. Quando uma ação apresenta momento favorável, isso significa que mais investidores estão convergindo para a mesma tese — seja ela baseada em valor, em qualidade ou em perspectivas futuras. O preço se move porque há convicção crescente. Já a ideia de garimpar sozinho uma empresa que "só eu enxerguei" me parece uma aposta de humildade excessiva frente à eficiência do mercado. Não é impossível que alguém chegue antes — mas as chances são muito menores do que parecem à primeira vista.

A Research Affiliates vai além e propõe que valor, qualidade e momento não devem ser usados de forma isolada, nem simplesmente empilhados. Devem ser integrados. A diferença é relevante: um portfólio que combina três estratégias separadas pode acabar carregando empresas caras dentro da carteira de "qualidade" ou empresas frágeis dentro da carteira de "valor". A integração, ao contrário, seleciona apenas as empresas que são simultaneamente atraentes nas três dimensões. O resultado, comprovado por simulações de décadas, é uma carteira mais robusta, com quedas menores nos períodos de estresse e retornos superiores ao longo do tempo.



O Yardeni também chama atenção para outro dado relevante: o sentimento dos investidores permanece surpreendentemente contido, mesmo com os índices em máximas históricas. As pesquisas de sentimento entre otimistas e pessimistas ainda não sinalizam euforia. Historicamente, mercados em alta com sentimento moderado têm espaço para continuar subindo — justamente porque a maioria ainda não entrou. É o perfil típico de um ciclo de alta com combustível disponível.



Concluindo: ações baratas existem sempre. A questão não é encontrá-las, mas entender por que estão baratas. Quando o barateamento vem de lucros crescendo mais rápido do que os preços, é sinal positivo. Quando vem de fundamentos deteriorados, é armadilha. E quando os três fatores — preço atrativo, qualidade da empresa e momento favorável — convergem simultaneamente, aí temos algo que vale a pena examinar com seriedade. No ambiente atual, pelo menos parte desse conjunto está presente. O resto depende de cada tese individual.


Análise Técnica

No post "o-mercado-continua-errado", fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

"Nesta semana, não aconteceu nada de significativo para alterar minha análise. Daqui em diante, ou a queda rompe o nível de stop loss indicado em R$ 4,6983, ou, "de repente", a alta ganha pulso, retirando todo o pessoal que está vendido no dólar. Nesta situação, resta apenas observar qual desses cenários irá prevalecer."



Parece que o nível de R$ 5,00 é magnético: ao se aproximar dele, desperta os investidores que consideram o dólar "barato" — mas, como o texto de hoje demonstra com clareza, esse conceito por si só não é suficiente, nem mesmo no caso de moedas. Ouvi, neste fim de semana, um podcast com Juliano Custódio, CEO da EQI Investimentos, no qual ele comentou que muitos de seus clientes aproveitaram esse patamar para fechar o câmbio e remeter recursos ao exterior. Acrescentou que, quando esses dólares ficavam disponíveis para aplicação, os clientes exigiam retornos próximos a 15% ao ano equivalentes ao CDI. Mencionou ainda que aproximadamente 15% do total de recursos sob gestão já se encontra fora do Brasil.

Se o dólar continuar recuando, esses clientes farão as contas em reais daqui a algum tempo e poderão se arrepender: perdem no câmbio e abrem mão dos juros domésticos. Dito isso, diversificação é um processo de aprendizado contínuo. Minha sugestão é que cada investidor escolha uma moeda de referência para medir seu patrimônio — e o dólar, nesse contexto, seria a escolha mais adequada. Com esse critério, a parcela mantida em reais terá se valorizado de forma expressiva ao longo do tempo.

Voltando à parte técnica: o que mais poderia ser acrescentado ao que já foi dito? Nada.




O S&P 500 fechou a 7.200, com queda de 0,41%; o USDBRL a R$ 4,9880, sem variação; o EURUSD a € 1,1689, com queda de 0,27%; e o ouro a U$ 4.512, com queda de 2,23%.

Fique ligado!

Comentários

  1. O que adianta os lucros subirem e imediatamente os preços ajustarem e P/E futuro continuar elevado? Quando essa roda parar de girar, esses P/Es futuros se mostraram extremamente levados (mais do que são atualmente). Veja o caso da PLTR hoje. Teve um bom resultado, mas do que adianta se ainda é um resultado minúsculo com um P/E (futuro e presente) extremamente esticado? Hoje essas big techs estão fazendo dividas enormes e o que acontecerá se os juros subirem e as receitas com IA não chegarem? A cada dia que passa, eu vejo menos motivos para comprar, apesar dos lucros crescentes, com valores minúsculos.

    ResponderExcluir

Postar um comentário