Acompanho o
mercado americano há décadas, e raramente um tema reúne tantos estudos
contraditórios quanto o impacto da inteligência artificial sobre o emprego.
Todo mundo tem uma opinião, quase ninguém tem dados. Resolvi olhar com atenção
o que está sendo publicado e o que encontrei é mais sofisticado — e mais
perturbador — do que o debate costuma revelar.
Começo pelo que o
Wall Street Journal chamou de distorção. A IA não está apenas mudando a
economia — ela está distorcendo os instrumentos que usamos para medir essa
economia. Ela faz o crescimento parecer melhor do que é e o mercado de trabalho
parecer pior do que é. Essa frase merece ser lida duas vezes.
O mecanismo é o
seguinte: o investimento em tecnologia de IA disparou. Morgan Stanley projeta
que os cinco maiores hyperscalers vão gastar mais de 800 bilhões de
dólares em infraestrutura de IA neste ano, chegando a 1,1 trilhão em 2027 — o
equivalente a 3,3% do PIB americano, mais do que todo o orçamento de defesa
nacional. Esse gasto turbina o PIB pelo lado do investimento. Mas grande parte
vai para equipamentos importados, como semicondutores avançados fabricados em
Taiwan. Ernie Tedeschi, economista-chefe da Stripe, calculou que o gasto bruto
em computadores contribuiu com 1,7 ponto percentual do crescimento de 2%
registrado no primeiro trimestre — mas, descontadas as importações, essa
contribuição cai para apenas 0,4 ponto. O crescimento americano está sendo
inflado por uma bolha de importações que não gera renda doméstica.

Do outro lado, a
IA está suprimindo vagas em setores visíveis — e isso piora artificialmente a
leitura do mercado de trabalho sem que o desemprego apareça nas estatísticas
convencionais. Empresas anunciam demissões citando eficiência de IA. Pesquisa
da Gallup mostra que 23% dos funcionários em empresas que adotam IA esperam
perder o emprego em cinco anos. Esse clima deprime salários: quem teme ser
substituído por uma máquina não pede aumento. No primeiro trimestre, a
remuneração do trabalho cresceu apenas 3,1% em termos nominais e encolheu 0,5%
em termos reais. A participação do trabalho no produto total caiu para 54,1% —
o menor nível desde que os registros começaram, em 1947.
O paradoxo
estatístico é que esse deterioração não aparece nos números de desemprego. As
demissões no setor privado estão rodando abaixo dos níveis de um ano atrás. Não
há disparada nas requisições de seguro-desemprego. O trabalhador que não foi
demitido, mas cujo salário real encolheu e cujas perspectivas de carreira
murcharam, simplesmente não é capturado por nenhum indicador convencional. A IA
está produzindo um mercado de trabalho de duas velocidades que as médias
agregadas não conseguem mostrar.
Um estudo recente
do Goldman Sachs aprofunda o diagnóstico. Desde 2019, a composição das vagas
abertas nos Estados Unidos mudou de forma significativa: cresceram 300 mil
postos presenciais em setores como saúde e alimentação, mas sumiram 450 mil
vagas de escritório em funções como vendas, suporte administrativo e serviços
de informação. A análise separou dois efeitos distintos — substituição,
quando a máquina assume a tarefa inteiramente, e complementação, quando
amplifica a capacidade humana. As ocupações com alto grau de substituição
tiveram queda de vagas 12% acima da média por desvio-padrão de exposição à IA.
As de complementação se estabilizaram nos níveis de 2019. É uma triagem
silenciosa que não aparece nas manchetes, mas está redesenhando o mercado de
trabalho por dentro.
O Deutsche Bank
traz o recorte setorial mais revelador: bancos e seguradoras estão entre os
primeiros da fila na adoção de IA — quase um terço já usa a tecnologia,
rivalizando com o próprio setor de tecnologia da informação. Por ora, os dados
indicam que as empresas usam IA majoritariamente para complementar o trabalho
humano, não para eliminá-lo. Mas o banco reconhece que essa distinção pode ser
temporária. A IA de agentes — capaz de executar sequências complexas de tarefas
sem supervisão humana — está chegando ao mercado financeiro com promessas que
vão de preparação de apresentações a análises de conformidade regulatória.

A Califórnia
serve de laboratório para o que vem a seguir. Sem o setor de saúde, que criou
mais de 200 mil vagas nos últimos três anos, o estado que concentra tecnologia
e entretenimento teria perdido empregos no período — a maior divergência entre
emprego com e sem saúde de qualquer estado americano. O problema é a qualidade
dessas vagas: cuidadores de idosos com salário semanal médio de 487 dólares,
num estado onde o custo de vida consome qualquer renda. Emprego de serviços
para idosos cresceu 25% em três anos, mas os salários da categoria caíram 2,7%
em termos reais. O estado está ganhando quantidade e perdendo qualidade — e as
estatísticas de emprego agregadas não distinguem um do outro.

O Brasil não está
imune a essa dinâmica. A semelhança estrutural entre economias de serviços
sugere que o fenômeno chegará aqui com alguma defasagem. A diferença é que o
debate local ainda está na fase das manchetes de pânico ou de euforia, sem a
precisão analítica que os dados americanos já permitem. Quando a distorção
chegar, as estatísticas brasileiras — historicamente menos granulares — vão
demorar mais ainda para captá-la.
O que fica claro,
olhando o conjunto dos estudos, é que a pergunta errada é "a IA vai
eliminar empregos?". A pergunta certa é: quais empregos, em qual ritmo, e
para quem? Tem vaga — mas não necessariamente para quem perdeu a anterior.
Análise Técnica
No
post “a-ford-passou-raspando” fiz os
seguintes comentários sobre a Nasdaq100:
“A Nasdaq100 atingiu ontem
o nível 29.678, muito próximo do objetivo traçado acima”... “Não exagere no risco
quando os mercados estão esticados”
Acabei
liquidando a posição durante o pregão daquele dia e, no momento, não tenho
nenhum risco.
Houve
uma pequena retração durante a semana, mas já nos aproximamos da máxima
histórica, o que me deixa em dúvida se não deveria estar posicionado. O gráfico
a seguir mostra a sua potência. Para que o leitor entenda o que quer comunicar,
veja a diferença entre o ângulo das áreas destacadas: a alta da onda
(1) vermelha se deu com um ângulo de 60°, subiu 58% em 200 dias,
enquanto a área destacada com o retângulo laranja tem um ângulo de 75°, subiu
30% em 37 dias — isso denota que estamos numa onda (3) vermelha.
-
Uau... potente mesmo. David, por que você não compra e vai passear?
Pode
ser uma recomendação a ser seguida no seu portfólio, mas não aqui no Mosca. O
que me preocupava era que esse movimento pudesse estabelecer o fim de uma onda
de menor porte: como ela subiu 30%, uma retração de 1/3 significaria uma queda
de 10%, o que prejudicaria o retorno das minhas sugestões.
Vamos
observar as próximas horas ou dias e decidir quando voltar ao mercado. Estou
ciente de que será um período muito bom para a sua carteira e estressante aqui
no Mosca — por mais que a bolsa deva subir.
Em
relação à Nvidia, fiz os seguintes comentários:
“A configuração de ondas
parece diferente quando comparada com a Nasdaq100: enquanto a primeira já está
na onda 3, a segunda estaria ainda completando as primeiras 5 ondas”
Interessante
como a configuração da Nvidia está diferente da Nasdaq100: enquanto a primeira
ainda está nas mínimas dessa correção, a segunda está perto das máximas. A
explicação pode ser o motivo destacado mais adiante. Vamos acompanhar os
próximos dias o desenrolar desta “briga”.
A
representação abaixo, feita pela Coatue em seu último call, não poderia ser mais feliz. Uma disputa entre os vendedores
de hardware contra os compradores — notadamente os “Hyperscalers”.
Por
enquanto, o caixa da Amazon, Meta, Google e Microsoft está sendo transferido
para a Micron, Sandisk, Intel e Nvidia na compra de equipamentos dos data centers que estão construindo — não
só o caixa, como também empréstimos tomados por esse grupo.
Como
a margem dos “Sellers” é absurda —
quase toda transferência se transforma em lucro.
Explicando
o que pode estar ocorrendo no descompasso entre a Nasdaq100 e a Nvidia: o
primeiro índice tem maior peso dos “Buyers”
do que dos “Sellers” e, como as ações
desses dois grupos não se movimentam somente em linha reta, existem
descompassos no caminho.
A
compra desses equipamentos não é infinita — em algum momento haverá
esgotamento. Por outro lado, o grupo dos “Buyers”
deve começar a acelerar seus lucros com o retorno desses investimentos. Quando
isso vai ocorrer? Não sei, mas acompanhando as ações teremos pistas.
O S&P 500 fechou a 7.473, com alta de 0,37%; o
USDBRL a R$ 5,0421, com alta de 0,47%; o EURUSD a € 1,1605, sem variação; e o
ouro a U$ 4.505, com queda de 0,82%.
Fique ligado!
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