Bateram a carteira #Bitcoin #USDBRL


Bater carteira é expressão antiga, de quando dinheiro se levava mesmo — em espécie, dentro de uma carteira física, vulnerável a qualquer batedor de bolso mais ágil. Hoje meus filhos não carregam um tostão em moedas; o PIX virou a carteira, e o único “dinheiro do ladrão” que resta é uma reserva mental, não mais física. Eu insisto nisso com eles porque o risco não desapareceu — só mudou de forma.

Vale uma ressalva antes de entrar no caso: bitcoin não fica guardado fisicamente em lugar nenhum — nem no pen drive, nem no cofre, nem no aparelho da Coldcard. Ele existe só na internet, porque é o único lugar onde pode existir. O que você guarda fisicamente é a senha, não a moeda. Isso muda a forma de olhar essa história inteira: o problema nunca foi proteger um objeto, foi proteger uma senha — e senha previsível não vira segura só porque está guardada num aparelho bonito, isolado da rede.

E era exatamente essa a promessa do bitcoin: uma chave de entrada tão longa que nenhum computador do mundo conseguiria adivinhá-la por força bruta. Isso continua sendo verdade, no sentido estrito. O problema não foi alguém quebrar a matemática da chave. Foi descobrir que uma marca de carteira física — a Coldcard, fabricada pela canadense Coinkite — vinha, desde 2021, gerando essas chaves de um jeito menos aleatório do que prometia. Um erro no firmware fazia o aparelho sortear a chave por um caminho previsível, em vez do gerador de números realmente aleatório que deveria usar. Cinco anos depois, alguém percebeu, e o rombo já soma mais de US$ 110 milhões, tirados de cerca de 5.000 carteiras — muitas delas que nunca tinham encostado na internet, guardadas em cofres, exatamente como se recomenda fazer. É a virada irônica do mantra clássico do bitcoin, “não são suas chaves, não são suas moedas”: se as chaves não nasceram de aleatoriedade de verdade, também não são suas moedas.

 


O gráfico acima, da TRM Labs, mostra que 2026 já fecha o primeiro semestre como o período de seis meses com mais golpes registrados desde que a série começou — e repare na nota de rodapé: esse número nem inclui o ataque à Coldcard, que na época do levantamento ainda estava em andamento. Ou seja, a barra de 2026 já é recorde, e o dado real é ainda maior do que o gráfico mostra.

Há uma pergunta incômoda pairando sobre esse caso: como ninguém percebeu essa falha em cinco anos, e por que justamente agora? A resposta, pelo que a própria Coinkite admitiu, aponta para um fator novo. A auditoria da empresa, feita com um modelo de inteligência artificial de ponta, não encontrou o problema antes do roubo — mas a fabricante suspeita que foi exatamente uma IA, nas mãos do atacante, que vasculhou cinco anos de código aberto e localizou o ponto fraco. Um trabalho que levaria semanas de revisão humana, reduzido a minutos. Não há prova definitiva de que foi assim, mas o episódio expõe uma assimetria nova: quem defende precisa encontrar todas as falhas; quem ataca precisa achar só uma, e a IA acabou de tornar essa busca muito mais barata.

Isso já seria motivo de reflexão. Mas existe uma ameaça de outra escala rondando o horizonte: o computador quântico. Toda a segurança do bitcoin (e da internet, aliás) repousa numa aposta matemática — a de que, a partir da chave pública exposta toda vez que você movimenta uma moeda, nenhum computador comum consegue reconstruir a chave privada num tempo útil. Um computador quântico suficientemente potente, rodando o chamado algoritmo de Shor, poderia em teoria fazer exatamente isso: derivar a chave privada a partir da pública, em minutos. Pesquisas recentes estimam que entre 30% e 35% de todo o bitcoin em circulação — algo como 7 milhões de moedas — está hoje em endereços cuja chave pública já ficou exposta na blockchain em algum momento. É alvo já disponível, esperando apenas a máquina certa aparecer.

O que já é real e forte o bastante para entrar neste texto é o seguinte: a Jefferies, banco de investimento com peso em research, orientou seus clientes a zerar completamente a exposição a bitcoin nas carteiras-modelo, citando justamente esse risco quântico como motivo. Não é alarme de blog especializado — é um banco global tirando o ativo da mesa. E o conselho consultivo da própria Coinbase já debate publicamente o que fazer com cerca de 1,7 milhão de bitcoins — presumivelmente de Satoshi Nakamoto e outros primeiros mineradores — parados há anos em endereços expostos: intervir a nível de rede para “proteger” essas moedas de um futuro ataque quântico, ou deixar o risco correr. O debate em si já é revelador, porque flerta com a ideia de confisco em nome da segurança — o oposto exato do que o bitcoin prometia garantir.

E se um ataque desses um dia mirasse não a carteira de uma pessoa física, mas a tesouraria de uma companhia aberta que apostou o balanço inteiro em bitcoin — pensem na Strategy, do Michael Saylor? Sobra o quê? Não sobra uma ação de tecnologia, porque nunca foi isso. Sobra um veículo estruturado, alavancado e reflexivo, cujo prêmio sobre o valor patrimonial só existe enquanto o mercado acredita que aquele monte de bitcoin está seguro. Tire a segurança do ativo subjacente, e o que resta é dívida conversível e preferenciais pagando mais de 13% ao ano — sem o colateral que justificava o prêmio.

Comentei na semana passada que o bitcoin já tinha se provado inútil como proteção contra inflação ou reserva de valor. Agora, a narrativa que sobrava — a de ser, ao menos, inviolável — também começa a rachar. Não pela matemática da chave, ainda. Mas pela engenharia de quem a implementa, e por um horizonte quântico que deixou de ser ficção científica para virar linha de pesquisa de bancos e gestoras.


Análise Técnica

No post “o-foguete-que-virou-lucro” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

“Quero enfatizar que, mesmo que o dólar caia abaixo do stop loss, isso não significa que vou alterar minha contagem de curto prazo — somente abaixo de R$ 4,70, como frisado no post acima, é que fica mais provável.”



O dólar continua sem uma direção e movimento mais convincente, embora se note que a queda é a de menor resistência, conforme a área representada em amarelo a seguir. Embora esse seja um ativo de interesse de grande parte dos meus leitores, não posso me forçar a ter uma opinião quando o gráfico não me dá elementos para tanto. Infelizmente, não tenho nada a acrescentar nem tampouco sugerir. Disciplina e não viés devem ser a postura.



O S&P 500 fechou a 7.600, com alta de 1,48%; o USDBRL a R$ 5,1020, com alta de 0,22%; o EURUSD a € 1,1510, com queda de 0,16%; e o ouro a U$ 4.051, com alta de 0,16%.

Fique ligado!

Comentários

  1. Olá ACM!!

    Muito obrigado por explicar de forma clara o que aconteceu nesse caso do roubo dos bitcoins das carteiras frias, já li algumas notícias por aí e de todas, a sua publicação é que teve a explicação de mais fácil entendimento.

    Em relação aos computadores quânticos, tem muitos anos que se falam neles, acredito que em alguns departamentos de pesquisa, com muita verba, como um departamento de defesa americano, ou uma NSA da vida, já devem existir alguns rodando.

    Pensando que 30% já é alvo, o que poderia ser feito para resolver isso? Tem como converter essas chaves em novas chaves?

    Abraço!

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  2. obrigado! sobre sua dúvida não tenho a menor ideia ... agora ter um pseudo ativo cujo risco de roubo existe, mesmo que seja baixo, não me parece prudente

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