O "PIX" vai matar a stablecoin #Bitcoin #USDBRL

 


Existe uma narrativa sedutora circulando nos mercados desde que os Estados Unidos aprovaram a lei que regulamenta as stablecoins. A história é a seguinte: o dólar digital privado vai conquistar o mundo, criar uma demanda cativa de trilhões em títulos americanos de curto prazo e consolidar a dominância americana no sistema financeiro global por mais uma geração. É uma narrativa inteligente. Tem fundamento. E provavelmente vai morrer antes de completar dez anos.

Mas antes de chegar lá, vale entender o que está morrendo agora.

O bitcoin perdeu, um a um, os argumentos que o tornavam especial. A narrativa de reserva de valor independente do Estado nunca se sustentou empiricamente — o ativo cai junto com o mercado em momentos de estresse e sobe quando a liquidez global afrouxa, comportando-se como um ativo de risco alavancado, não como ouro digital. A narrativa de meio de pagamento descentralizado morreu na prática diante das taxas de transação e da volatilidade. A narrativa de proteção contra inflação foi enterrada entre 2022 e 2023, quando a inflação subiu e o bitcoin despencou. O que sobrou foi a narrativa mais honesta e menos glamourosa: escassez programada e impulso especulativo.

Hoje, esse impulso depende de um único homem.

A Bloomberg revelou que a Strategy de Michael Saylor acumulou 171.238 bitcoins no que vai do ano — volume superior ao produzido por toda a rede de mineração global no mesmo período. A empresa financia essas compras principalmente por meio de uma ação preferencial perpétua que paga dividendo anual de 11,5%. O resultado é uma estrutura que exige geração de valor contínua para se sustentar. Enquanto o bitcoin sobe, o mecanismo funciona: o papel se valoriza, novos investidores entram, a empresa capta mais, compra mais bitcoin, o preço sobe. O ciclo virtuoso tem uma contrapartida perfeita no ciclo vicioso.

O preço médio de compra da Strategy está em torno de 75.700 dólares por bitcoin — levemente abaixo da cotação atual. A almofada é fina. Qualquer queda relevante corrói a confiança no papel preferencial, fecha o programa de captação, remove o único comprador estrutural relevante do mercado e pressiona o preço para baixo. O mecanismo que levou o bitcoin para cima roda com a mesma eficiência no sentido inverso. E independentemente do que o preço faz, o dividendo de 11,5% sangra todo dia. Tortura chinesa com relógio suíço.

Para piorar, Saylor admitiu recentemente que vendas marginais de bitcoin não estão descartadas, caso melhorem a estrutura de capital da empresa. O maximalist que jurou nunca vender abriu a porta. Quando o maior comprador do mercado começa a discutir saída, o argumento da demanda irrestrita se evapora.



Num ambiente em que os lucros das empresas de tecnologia crescem a taxas de 30%, 40%, 50% ao ano, manter um ativo com crescimento de lucro permanentemente zero é uma escolha cada vez mais difícil de justificar para um gestor profissional. O bitcoin não tem fluxo de caixa, não tem dividendo, não tem crescimento operacional. Tem escassez e narrativa. A escassez é real. A narrativa está se desgastando.

É nesse cenário que a stablecoin entra como suposta solução — o dólar digital que preserva a utilidade do cripto sem a volatilidade do bitcoin. A mecânica americana é engenhosa: cada dólar emitido em stablecoin regulada precisa de um dólar em reserva, preferencialmente em letras do Tesouro de curto prazo. O novo Fed de Warsh encolhe o balanço no topo, Bessent preenche o espaço embaixo com compradores obrigados por lei. A arquitetura é elegante no papel.

O problema é o PIX.

Quando o Banco Central brasileiro lançou o PIX em novembro de 2020, liquidou de uma vez o argumento central de várias fintechs que viviam de cobrar taxa sobre transferência. Instantâneo, gratuito, disponível vinte e quatro horas. Nenhuma stablecoin brasileira sobreviveria competindo com isso. Nenhuma precisaria existir.

O mesmo raciocínio se aplica globalmente. O FedNow americano está operacional desde 2023. O sistema Target do Banco Central Europeu processa liquidações instantâneas em euros. A Índia tem o UPI, que em 2024 processou mais de 170 bilhões de transações. Os bancos centrais não estão esperando a stablecoin privada resolver o problema do pagamento instantâneo. Eles já estão resolvendo por conta própria.

A stablecoin regulada, para ser admissível no sistema americano, precisa de reservas auditadas, conformidade com regras antilavagem e capacidade técnica de congelar tokens por ordem judicial. Ao cumprir esses requisitos, perde o que atraía os usuários que queriam mobilidade sem rastro. Quem precisava de liberdade foge do modelo regulado. Quem não precisa usa o sistema público gratuito.

A história do dinheiro é a história da substituição dos instrumentos privados pelos públicos sempre que o Estado decide entrar no jogo. O papel-moeda dos bancos comerciais foi substituído pela nota do banco central. O cheque foi substituído pela transferência eletrônica. A transferência eletrônica cara e lenta está sendo substituída pelo PIX, pelo UPI, pelo FedNow.

O bitcoin foi o pioneiro. A stablecoin é o herdeiro. Os dois vão ceder espaço pela mesma razão: quando o Estado oferece de graça o que o privado cobra para entregar, o privado perde. A stablecoin não é o futuro do dinheiro. É o andaime. Útil enquanto a estrutura permanente ainda está sendo construída.

 

Análise Técnica

Hoje é feriado nos EUA e as bolsas ficarão fechadas. Como de costume nesses dias, os mercados apresentam pouca movimentação.

No post "vitrine-e-fundo-de-quintal" fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

"é possível contar 5 ondas de alta desde a mínima de R$ 4,90 — um ponto positivo. A retração de curto prazo deveria ser contida entre R$ 4,97 e R$ 4,93 e, em seguida, ultrapassar R$ 5,1236. Esse é o caminho da alta"



O mercado passou a semana passada contido numa faixa estreita ao redor do nível psicológico de R$ 5,00. Numa janela menor é visível a formação de um triângulo que, nesse caso, tenderia a romper para cima. Entretanto, como os leitores bem sabem, triângulos podem se formar e desfazer — por enquanto, nada a fazer.



O USDBRL fechou a R$ 5,0194, com queda de 0,58%; o EURUSD a 1,1642, com alta de 0,33%; e o ouro a U$ 4.570, com alta de 1,35%.

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