O mercado continua errado #USDBRL

 


Desde o ano 2000 acompanho com atenção especial o mercado de moedas internacionais. Foi naquele ano que o dólar iniciou um ciclo de forte desvalorização que se estendeu pelos anos seguintes — e do qual me beneficiei de maneira expressiva. O euro, por exemplo, saiu de € 0,85 e chegou à máxima histórica de € 1,60, uma valorização de quase 100%. Naquele período, as manchetes não poupavam palavras: a moeda americana estava condenada. Havia quem decretasse seu fim com a segurança de quem conhece o futuro.

Aprendi, porém, uma lição que poucos investidores de longo prazo conseguem internalizar: o movimento das moedas de países estabilizados é cíclico. Diferente das bolsas de valores, que podem subir indefinidamente enquanto os lucros das empresas crescerem, as moedas oscilam dentro de regimes que se alternam ao longo do tempo. E o dólar, apesar de todas as crises, profecias e narrativas de colapso, continua sendo a moeda de troca do mundo. Todas as tentativas de liquidá-lo falharam.

Agora, com as declarações polêmicas do presidente Trump sobre tarifas, guerras comerciais e reformas monetárias, uma nova onda desse discurso ganhou força. A pergunta que ressurge é sempre a mesma: desta vez será diferente? Os dados sugerem que não.

Um dos pontos mais explorados por quem defende a tese do colapso do dólar é a suposta fuga dos investidores estrangeiros. Mas os dados do Tesouro americano contam uma história bem diferente. Nos cinco meses mais recentes de relatório disponível, o influxo líquido estrangeiro em títulos e ações norte-americanas totalizou cerca de 488 bilhões de dólares — um ritmo comparável ao pico pós-pandemia. No mês de fevereiro, sozinho, foram 101 bilhões de dólares em compras líquidas de ativos de longo prazo nos Estados Unidos.



Outro argumento recorrente é o suposto abandono dos títulos do Tesouro americano pela China. O gráfico mais popular mostra uma queda de cerca de 1,2 trilhão de dólares para aproximadamente 683 bilhões nos registros oficiais — o que parece uma liquidação de 50%. O problema é que esse dado mede a custódia pelo local de guarda, não pelo detentor econômico real. A China vem migrando a custódia de seus papéis para centros financeiros europeus como Bélgica e Luxemburgo, onde estão sediados o Euroclear e o Clearstream. Quando se ajusta essa distorção, a exposição chinesa ao dólar praticamente não mudou desde 2011. E o total de títulos do Tesouro americano em mãos estrangeiras atingiu um recorde de 9,4 trilhões de dólares em novembro de 2025. Não é desglobalização. É rearranjo operacional.




O Banco de Compensações Internacionais reforça esse quadro. Em sua pesquisa trienal de 2025, o dólar participou de 89,2% de todas as transações cambiais globais — acima dos 88,4% registrados em 2022 —, num volume diário de 9,6 trilhões de dólares. O yuan avançou para 8,5%, um progresso real, mas ainda uma fração marginal diante da dominância transacional do dólar. A participação nas reservas recua lentamente; o uso efetivo da moeda, não.

Há, no entanto, uma distinção importante que merece atenção: o dólar pode se desvalorizar ciclicamente sem perder seu status de moeda de referência global. É exatamente o que Robin Brooks, ex-economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais e um dos analistas cambiais mais respeitados do mercado, argumenta. Para ele, os fluxos de portfólio estrangeiro — embora relevantes — não são o principal determinante da direção do dólar. O que realmente importa é o diferencial de juros entre os Estados Unidos e o restante do mundo desenvolvido.



Brooks demonstra, com dados de longo prazo, que não existe correlação significativa entre o chamado 'balanço básico' — que agrega fluxos de portfólio e déficit comercial — e a trajetória do dólar. Já o diferencial de juros de dois anos à frente tem correlação robusta com a moeda. E atualmente esse indicador aponta para fraqueza adicional do dólar nos próximos meses. O aumento temporário da aversão ao risco provocou uma abertura acima do que o diferencial justifica, mas a tendência de fundo não mudou.



Por que os estrangeiros continuam comprando ativos americanos, mesmo num ambiente de dólar enfraquecido? A resposta está nos retornos. As estimativas de crescimento de lucros para o setor de tecnologia nos Estados Unidos em 2026 foram revisadas para 43,4% — mais do que o dobro da taxa projetada para o índice mais amplo. A Europa cresce na faixa de dois dígitos baixos; o Japão, menos ainda. Os mercados emergentes se aproximam dos americanos, mas carregam riscos de conversibilidade, governança e geopolítica que os grandes alocadores globais de capital simplesmente não podem assumir em escala. O resultado é previsível: o dinheiro volta para os Estados Unidos.

A narrativa do 'fim do dólar' repete um padrão histórico: pega um grão de verdade — a moeda de fato se desvalorizou, a fatia nas reservas globais caiu, os bancos centrais compram ouro — e transforma isso numa conclusão apocalíptica. Mas quatro pontos resistem ao teste dos dados.

Primeiro: comprar ouro não é 'sair do dólar'. O ouro é precificado em dólares, liquidado em dólares e, quando mobilizado, convertido de volta em dólares. É diversificação de portfólio, não defecção monetária.

Segundo: participação nas reservas e uso transacional são coisas distintas. A primeira deriva lentamente ao longo de décadas; o segundo é definido pela infraestrutura do comércio e dos mercados de capitais, onde o dólar domina por ampla margem.

Terceiro: não há alternativa viável. O yuan é limitado por controles de capital. O euro não tem lastro fiscal unificado. O ouro não gera rendimento e não tem trilhos de liquidação. E o próprio bloco dos países emergentes é politicamente fragmentado — a Índia, por exemplo, assinou um acordo comercial com os Estados Unidos e interrompeu as compras de petróleo russo em fevereiro.

Quarto: declínio cíclico e declínio estrutural são fenômenos completamente diferentes. O dólar está num ciclo de enfraquecimento que se encaixa confortavelmente dentro dos regimes históricos de sete a dez anos. É padrão de negociação, não velório.

O único comentário que cabe aqui diz respeito à evidente torcida embutida em parte dessas análises. Há uma correlação clara entre as narrativas de declínio do dólar e críticas políticas circunstanciais aos Estados Unidos. Durante o governo de Joe Biden, frequentemente descrito como fraco, a tese dominante era a de que a China assumiria a liderança global diante de uma suposta ausência de imposição americana. Agora, sob Donald Trump — figura que desperta forte rejeição em parte do mercado —, a narrativa se desloca para a ideia de que suas políticas estariam conduzindo o dólar ao colapso. Em ambos os casos, o viés parece menos ancorado em dados e mais alinhado a preferências políticas momentâneas.

Continuo monitorando o câmbio com a mesma atenção de sempre. A desvalorização do dólar pode ter mais um capítulo pela frente — os diferenciais de juros sustentam essa leitura. Mas confundir isso com o fim da moeda americana é um erro que o mercado comete com regularidade. E quando o mercado erra de maneira tão previsível, isso sempre abre oportunidade. O mercado está errado desta vez, assim como esteve antes.

 

Análise Técnica

No post “monopólio-do-emprego”, fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

“A retração que mostro no gráfico abaixo — em que o dólar recuou aproximadamente 80% da alta observada desde junho de 2023 — deixa pouco espaço de manobra para uma reversão. Por enquanto, a maior probabilidade ainda aponta para continuidade da queda.”

Nesse post, externei meus argumentos que ainda sustentam uma reversão da queda.



Nesta semana, não aconteceu nada de significativo para alterar minha análise. Daqui em diante, ou a queda rompe o nível de stop loss indicado em R$ 4,6983, ou, “de repente”, a alta ganha pulso, retirando todo o pessoal que está vendido no dólar. Nesta situação, resta apenas observar qual desses cenários irá prevalecer.



O S&P 500 fechou a 7.173, com alta de 0,12%; o USDBRL a R$ 5,000, com queda de 0,14%; o EURUSD a € 1,1722, sem variação; e o ouro a U$ 4.679, com queda de 0,64%.

Fique ligado!

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