O mercado continua errado #USDBRL
Desde o ano 2000 acompanho com
atenção especial o mercado de moedas internacionais. Foi naquele ano que o
dólar iniciou um ciclo de forte desvalorização que se estendeu pelos anos
seguintes — e do qual me beneficiei de maneira expressiva. O euro, por exemplo,
saiu de € 0,85 e chegou à máxima histórica de € 1,60, uma valorização de quase
100%. Naquele período, as manchetes não poupavam palavras: a moeda americana
estava condenada. Havia quem decretasse seu fim com a segurança de quem conhece
o futuro.
Aprendi, porém, uma lição que
poucos investidores de longo prazo conseguem internalizar: o movimento das
moedas de países estabilizados é cíclico. Diferente das bolsas de valores, que
podem subir indefinidamente enquanto os lucros das empresas crescerem, as
moedas oscilam dentro de regimes que se alternam ao longo do tempo. E o dólar,
apesar de todas as crises, profecias e narrativas de colapso, continua sendo a
moeda de troca do mundo. Todas as tentativas de liquidá-lo falharam.
Agora, com as declarações
polêmicas do presidente Trump sobre tarifas, guerras comerciais e reformas
monetárias, uma nova onda desse discurso ganhou força. A pergunta que ressurge
é sempre a mesma: desta vez será diferente? Os dados sugerem que não.
Um dos pontos mais explorados
por quem defende a tese do colapso do dólar é a suposta fuga dos investidores
estrangeiros. Mas os dados do Tesouro americano contam uma história bem
diferente. Nos cinco meses mais recentes de relatório disponível, o influxo
líquido estrangeiro em títulos e ações norte-americanas totalizou cerca de 488
bilhões de dólares — um ritmo comparável ao pico pós-pandemia. No mês de
fevereiro, sozinho, foram 101 bilhões de dólares em compras líquidas de ativos
de longo prazo nos Estados Unidos.
Há, no entanto, uma distinção
importante que merece atenção: o dólar pode se desvalorizar ciclicamente sem
perder seu status de moeda de referência global. É exatamente o que Robin
Brooks, ex-economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais e um dos
analistas cambiais mais respeitados do mercado, argumenta. Para ele, os fluxos
de portfólio estrangeiro — embora relevantes — não são o principal determinante
da direção do dólar. O que realmente importa é o diferencial de juros entre os
Estados Unidos e o restante do mundo desenvolvido.
Brooks demonstra, com dados de
longo prazo, que não existe correlação significativa entre o chamado 'balanço
básico' — que agrega fluxos de portfólio e déficit comercial — e a trajetória
do dólar. Já o diferencial de juros de dois anos à frente tem correlação
robusta com a moeda. E atualmente esse indicador aponta para fraqueza adicional
do dólar nos próximos meses. O aumento temporário da aversão ao risco provocou
uma abertura acima do que o diferencial justifica, mas a tendência de fundo não
mudou.
Por que os estrangeiros
continuam comprando ativos americanos, mesmo num ambiente de dólar
enfraquecido? A resposta está nos retornos. As estimativas de crescimento de
lucros para o setor de tecnologia nos Estados Unidos em 2026 foram revisadas
para 43,4% — mais do que o dobro da taxa projetada para o índice mais amplo. A
Europa cresce na faixa de dois dígitos baixos; o Japão, menos ainda. Os
mercados emergentes se aproximam dos americanos, mas carregam riscos de
conversibilidade, governança e geopolítica que os grandes alocadores globais de
capital simplesmente não podem assumir em escala. O resultado é previsível: o
dinheiro volta para os Estados Unidos.
A narrativa do 'fim do dólar'
repete um padrão histórico: pega um grão de verdade — a moeda de fato se
desvalorizou, a fatia nas reservas globais caiu, os bancos centrais compram
ouro — e transforma isso numa conclusão apocalíptica. Mas quatro pontos resistem
ao teste dos dados.
Primeiro: comprar ouro não é
'sair do dólar'. O ouro é precificado em dólares, liquidado em dólares e,
quando mobilizado, convertido de volta em dólares. É diversificação de
portfólio, não defecção monetária.
Segundo: participação nas
reservas e uso transacional são coisas distintas. A primeira deriva lentamente
ao longo de décadas; o segundo é definido pela infraestrutura do comércio e dos
mercados de capitais, onde o dólar domina por ampla margem.
Terceiro: não há alternativa
viável. O yuan é limitado por controles de capital. O euro não tem lastro
fiscal unificado. O ouro não gera rendimento e não tem trilhos de liquidação. E
o próprio bloco dos países emergentes é politicamente fragmentado — a Índia,
por exemplo, assinou um acordo comercial com os Estados Unidos e interrompeu as
compras de petróleo russo em fevereiro.
Quarto: declínio cíclico e
declínio estrutural são fenômenos completamente diferentes. O dólar está num
ciclo de enfraquecimento que se encaixa confortavelmente dentro dos regimes
históricos de sete a dez anos. É padrão de negociação, não velório.
O único comentário que cabe aqui
diz respeito à evidente torcida embutida em parte dessas análises. Há uma
correlação clara entre as narrativas de declínio do dólar e críticas políticas
circunstanciais aos Estados Unidos. Durante o governo de Joe Biden, frequentemente
descrito como fraco, a tese dominante era a de que a China assumiria a
liderança global diante de uma suposta ausência de imposição americana. Agora,
sob Donald Trump — figura que desperta forte rejeição em parte do mercado —, a
narrativa se desloca para a ideia de que suas políticas estariam conduzindo o
dólar ao colapso. Em ambos os casos, o viés parece menos ancorado em dados e
mais alinhado a preferências políticas momentâneas.
Continuo monitorando o câmbio com a mesma atenção de sempre. A desvalorização do dólar pode ter mais um capítulo pela frente — os diferenciais de juros sustentam essa leitura. Mas confundir isso com o fim da moeda americana é um erro que o mercado comete com regularidade. E quando o mercado erra de maneira tão previsível, isso sempre abre oportunidade. O mercado está errado desta vez, assim como esteve antes.
Análise Técnica
No post “monopólio-do-emprego”, fiz os seguintes comentários
sobre o dólar:
“A retração que mostro no gráfico abaixo — em que o dólar
recuou aproximadamente 80% da alta observada desde junho de 2023 — deixa pouco
espaço de manobra para uma reversão. Por enquanto, a maior probabilidade ainda
aponta para continuidade da queda.”
Nesse post, externei meus argumentos que ainda sustentam uma reversão da queda.
Nesta semana, não aconteceu nada de significativo para alterar minha análise. Daqui em diante, ou a queda rompe o nível de stop loss indicado em R$ 4,6983, ou, “de repente”, a alta ganha pulso, retirando todo o pessoal que está vendido no dólar. Nesta situação, resta apenas observar qual desses cenários irá prevalecer.
O S&P 500 fechou a 7.173, com alta de 0,12%; o USDBRL a
R$ 5,000, com queda de 0,14%; o EURUSD a € 1,1722, sem variação; e o ouro a U$
4.679, com queda de 0,64%.
Fique ligado!
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