Unicórnio virou banal #nasdaq100 #NVDA



Minha esposa, junto com suas filhas, tem uma empresa que vende produtos femininos (bolsas, óculos) pela internet: a Eclé. Certo dia, num almoço, ela fez o seguinte comentário: "daqui a algum tempo a Eclé vai virar um unicórnio". À primeira vista, fiquei surpreso — acompanho de perto a evolução do negócio e sabia que faturar o suficiente para atingir uma avaliação de R$ 1 bilhão, partindo de vendas em torno de R$ 100 mil por mês, seria um salto monumental.

Entrei nos detalhes: perguntei como seria possível chegar a esse valor. Aí entendi que o desejo dela se referia a vendas de R$ 1 milhão por mês — o que já seria um excelente resultado —, mas, mesmo assim, para alcançar uma avaliação de R$ 1 bilhão aplicando um múltiplo conservador de cinco vezes o faturamento anual, seria necessário faturar R$ 200 milhões por ano. Sugeri um estágio intermediário: um mini unicórnio, com avaliação de R$ 100 milhões. Ela comprou a ideia.

Essa conversa de mesa me veio à cabeça ao ler as análises da semana sobre o tema. Porque, se o conceito de unicórnio já chegou ao almoço de família, é sinal de que a criatura mitológica perdeu boa parte do seu brilho original.

O termo foi cunhado em 2013 para designar empresas privadas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão — uma raridade, portanto, como o animal da lenda. Desde então, multiplicaram-se. Levantamentos recentes de bases de dados especializadas indicam que hoje existem 1.727 unicórnios globalmente, com 70 novos surgindo apenas no primeiro trimestre deste ano. A lista inclui desde gigantes como SpaceX, OpenAI e Anthropic até nomes que poucos fora do Vale do Silício conhecem.



O que mudou não foi apenas a quantidade, mas a velocidade e o tamanho das equipes. Dados da PitchBook mostram que o número médio de funcionários nas empresas que se tornaram unicórnios caiu de 1.128 em 2023 para apenas 323 até agora em 2026. Nos Estados Unidos, a média está em 172 pessoas. O caso mais emblemático é o da Safe Superintelligence, cofundada por Ilya Sutskever, ex-cientista-chefe da OpenAI: avaliada em US$ 32 bilhões na última rodada, tinha apenas 16 funcionários na época — e segue com menos de 40.



A pergunta óbvia é: isso é mérito da inteligência artificial ou apenas efeito da euforia especulativa? A resposta honesta é: muito mais da segunda. O que impulsiona essas avaliações estratosféricas não é necessariamente a produtividade real proporcionada pela tecnologia, mas sim a corrida dos grandes fundos de capital de risco para entrar cedo em qualquer empresa que pareça ser "a próxima OpenAI". Como observou Kyle Stanford, diretor de pesquisa da PitchBook, esses fundos bilionários investem desde o estágio inicial e estão dispostos a pagar um prêmio de 15%, 20% acima da avaliação justa apenas para garantir o acesso ao negócio.

O resultado é uma criatura muito diferente do unicórnio clássico: empresas com receitas mínimas ou inexistentes, equipes enxutas e avaliações que dependem muito mais de reputação e narrativa do que de fundamentos. A Reflection AI, por exemplo — apoiada pela Nvidia e posicionada como o "DeepSeek ocidental" — busca levantar US$ 2,5 bilhões a uma avaliação de US$ 25 bilhões, sem jamais ter gerado receita relevante. Quando o presidente-executivo diz que "modelos abertos são cavalos de Troia para a infraestrutura que trazem consigo", a frase soa mais como argumento de captação do que como estratégia consolidada.

Costumo dizer que o Pelé nasceu na época errada: se jogadores medianos hoje valem centenas de milhões de dólares, quanto valeria o maior de todos na era atual? A mesma reflexão vale para empresas que construímos décadas atrás. No final dos anos 1990, em plena bolha da internet, nem passava pela cabeça de ninguém que startups de dois ou três anos poderiam valer dezenas de bilhões. Os múltiplos simplesmente não existiam nessa magnitude. Hoje, a Linear — empresa do nosso portfólio de outros tempos — seria um unicórnio hoje em dia? Mas isso diz mais sobre o ambiente do que sobre o mérito.

O ponto de atenção mais relevante está no que acontece quando esses unicórnios crescem e decidem abrir o capital. A história recente é repleta de alertas. A Glencore fez seu IPO em 2011, no auge do mercado de metais — e logo após as ações derreteram. A Blackstone abriu capital em junho de 2007, às vésperas do colapso do crédito; quem comprou nas primeiras negociações perdeu mais de 80% em dois anos. Os insiders sabiam exatamente o momento certo de sair.




Hoje, SpaceX, OpenAI e outros planejam aberturas de capital em 2026. Projeções indicam que apenas os quatro maiores unicórnios privados — SpaceX, OpenAI, Anthropic e Stripe — somam uma avaliação combinada em torno de US$ 3 trilhões, o equivalente a 5% de toda a capitalização do mercado acionário americano. A SpaceX, sozinha, cogita captar entre US$ 75 bilhões e US$ 125 bilhões em seu IPO — mais do que a soma de todos os IPOs de 2025.


Há uma boa notícia técnica: o impacto imediato nos índices deve ser limitado. Como os IPOs entram ponderados pela parcela de ações em circulação livre, mesmo que as novas emissões alcancem US$ 280 bilhões nos próximos dois anos — o teto das estimativas —, isso representaria apenas 0,4% da capitalização total do mercado americano. Ainda assim, o risco simbólico é real: IPOs de grande porte tendem a sugar liquidez do mercado e, historicamente, empresas que acabam de abrir capital apresentam desempenho inferior à média por três a cinco anos.

O unicórnio, portanto, deixou de ser raro. Virou commodity. O verdadeiro desafio — e o que realmente importa para o investidor — é saber distinguir aqueles que sustentam suas avaliações no longo prazo daqueles que são, no fundo, uma aposta disfarçada de empresa. Isso nunca foi simples. E, com a euforia atual em torno da inteligência artificial, ficou ainda mais difícil.

 

Análise Técnica

No post “o-virus-da-ia-nao-tem-vacina”, fiz os seguintes comentários sobre a Nasdaq 100:

“A Nasdaq 100 ultrapassou a barreira que mencionei acima, de 26.182 e, na minha contagem, estaríamos entrando na onda (3) vermelha — a mais potente. Resolvi entrar na abertura de hoje a 26.333, com stop loss em 25.845. Agradeço esse leitor que me ‘cutucou’.”




Esta semana, mesmo com informações desencontradas sobre a guerra, a Nasdaq 100 nem sofreu grande impacto. Os resultados apresentados pelas empresas têm animado os investidores, principalmente na área de tecnologia — ontem à noite, até a Intel, que até pouco tempo atrás era uma retardatária, subiu 20% no after market após sua divulgação.

No post acima, me fixei em uma janela de longo prazo. Chegou a hora de voltar para a terra. Como o gráfico abaixo mostra, a bolsa estaria no caminho de formar as cinco primeiras ondas, o que levaria ao primeiro objetivo em 28 mil ou, mais acima, a 29,2 mil.



O comportamento da bolsa hoje é importante. Como é sexta-feira e, nesses últimos tempos, ocorreram fatos relevantes no fim de semana, ela tem tendido a fechar com receio. Hoje aponta para alta. Vamos ver no final do dia.
“IUXX 24.04”

Em relação à Nvidia, comentei:

“A Nvidia ainda não ultrapassou a área destacada no gráfico, cujo limite seria US$ 211, mas, usando o mesmo raciocínio da Nasdaq 100 e assumindo essa hipótese — ainda uma hipótese —, o objetivo inicial seria US$ 400, uma alta de 100%. Se isso ocorrer, a Nvidia será a ação mais amada da história americana. Lógico, até que surja uma nova. Sempre é assim.”




Observando em uma janela de prazo menor, ainda são questionáveis as subdivisões das ondas de menor grau. Sendo assim, prefiro aguardar mais evidências para projetar objetivos mais concretos de curto prazo. Além disso, ela ainda não fez sua lição de casa para ultrapassar a máxima de US$ 211.




Os leitores sabem que eu sou muuuito pragmático. Tornei-me assim pela minha vivência nos mercados. Isso não me tornou avesso ao risco — o track record do Mosca é uma prova —, mas também sou um crítico voraz das estatísticas enviesadas. Como exemplo, escolhi o gráfico abaixo, que contém o retorno da bolsa americana nos últimos 100 anos.

[INSERIR GRÁFICO – Retornos da bolsa americana 100 anos 



Não é preciso ser um especialista em alocação de capital para concluir que investir na bolsa se mostrou uma ótima decisão — veja, bolsa americana. Mesmo para os mais temerosos, os extremos acima de + ou – 40% ao ano são amplamente favoráveis: são cinco constatações no positivo e apenas uma no negativo. A conclusão é imediata: basta entrar e, se um ano for ruim, é só aguardar para comemorar.

O disclaimer que todo fundo de investimento é obrigado a colocar — verdade em letras minúsculas no rodapé — de que resultados passados não são garantia de resultados futuros é, de fato, uma grande verdade. Sendo assim, considero essa ilustração “legal”, só isso. Jamais investiria baseado nela. Inclusive, se um ano for horrível, tenho sérias dúvidas se o investidor não seria induzido a resgatar.



O S&P 500 fechou a 7.164, com alta de 0,80% - entrada na bolsa a 7.112 com stop loss a 7.046, se eu estiver certo e as ações estão entrando na onda 3 vale o risco dobrado; o USDBRL a R$ 5,0172, com queda de 0,21%; o EURUSD a € 1,1718, com alta de 0,30%; e o ouro a U$ 4.7171, com alta de 0,49%.

Fique ligado!

Comentários