O vírus da IA não tem vacina #nasdaq100 #NVDA

 


Há três anos, ao me deparar com um estudo da Goldman Sachs que projetava uma queda de emprego equivalente a um terço dos trabalhadores nos próximos dez anos, fiquei genuinamente preocupado com o futuro do trabalho. Mais a frente, desenvolvi o conceito da “Carteirinha” — a ideia de que quem se engajasse profundamente com a inteligência artificial saíria vencedor na nova ordem econômica; os demais, a reboque. Imaginei inicialmente o impacto sobre as empresas, depois sobre as pessoas. O tempo passou, e a realidade veio confirmar, com crescente intensidade, o que já desconfiava.

A inteligência artificial avança como um vírus silencioso: começa nos países desenvolvidos, acomete os setores mais qualificados e, gradualmente, contamina toda a cadeia produtiva global. Nos Estados Unidos, esse processo já se tornou visível e irreversível. O Wall Street Journal sintetizou o fenômeno com precisão: empresas como Snap, Block e Amazon adotaram o que o mercado batizou de “mega-demissões” como novo modelo de ajuste de força de trabalho. A Snap cortou 16% de seus funcionários; a Block, espantosos 40%; a Amazon eliminou cerca de 30.000 postos em poucos meses. O modelo se espalha pelos escritórios executivos como uma nova doutrina de gestão.



O que chama atenção não é apenas o volume, mas a narrativa que acompanha esses cortes. A Goldman Sachs documentou em dezembro de 2025 que as empresas estão escolhendo encolher seus quadros para proteger margens de lucro e financiar investimentos maçiços em infraestrutura de inteligência artificial — em vez de expandir o capital humano. O CEO da Salesforce foi didático ao reduzir sua equipe de 9.000 para 5.000 pessoas porque, nas suas próprias palavras, “precisa de menos cabeças”. Quando um executivo substitui a palavra “funcionários” por “cabeças”, diz muito sobre a direção que tomamos.

Há um paradoxo desconcertante em curso: a economia americana cresceu a uma taxa anualizada de 4,3% no terceiro trimestre de 2025, enquanto o desemprego escalou para 4,6% — o nível mais alto em quatro anos. O crescimento veio, mas os empregos não acompanharam. As empresas tecnológicas, especialmente as imersas na corrida da inteligência artificial, apresentam lucros recordes e, simultaneamente, anunciam demissões em massa. A Meta planeja gastar até US$ 135 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial em 2026 e, ao mesmo tempo, prepara cortes profundos de pessoal. Quando a notícia veio a público, as ações da empresa subiram quase 3%. O mercado enviou um recado inequívoco: gasto massivo em tecnologia é bem-vindo, desde que acompanhado de “gestão de custos” — eufemismo para a eliminação do sustento de milhares de famílias.

 


A Bloomberg levanta uma questão perturbadora: os americanos trabalham menos horas do que nos anos 1950 e 1960, embora a sensação coletiva seja de que nunca estivemos tão acorrentados às mesas e aos celulares. Como isso é possível? A resposta está na desconexão entre produtividade agregada e esforço individual: a tecnologia concentra ganhos em poucos e deixa a maioria à margem. O que os dados do Departamento do Trabalho americano revelam é que a participação do trabalho na renda nacional caiu a mínimas históricas — num registro que se estende por quase oito décadas. A inteligência artificial, assim como a computação pessoal antes dela, substitui trabalho de qualificação média e, agora, avança sobre funções de alto nível.

O caso da Mercor, startup de São Francisco financiada por capital de risco, ilustra a face mais perversa dessa transformação. Cofundada por jovens que jamais tiveram um emprego convencional, a empresa recruta profissionais experientes justamente para treinar os modelos de inteligência artificial destinados a substituí-los. A assistente social Tasha Kozak, que durante meses acompanhou uma família em situação de extrema vulnerabilidade em Tampa — crianças com notas em queda, mãe exausta, família vivendo num carro —, pode um dia ver seu trabalho encapsulado num algoritmo. Há algo profundamente perturbador nessa lógica: o ser humano treina a sua própria substituição.

No Brasil, esse processo ainda não se faz sentir com a mesma intensidade. Mas seria ingenuidade acreditar que estamos imunes. A tendência global chegará, e aqui o impacto será potencialmente mais agudo: a inteligência artificial atinge com maior força justamente os trabalhos rotineiros e de baixa qualificação, exatamente o perfil dominante no mercado de trabalho nacional. Não por acaso, hoje metade da população economicamente ativa já depende de alguma transferência governamental — e essa proporção tende a crescer.

Já faz cinco anos que a Covid-19 forçou o mundo a se trancar em casa. Naquele momento dramático, a humanidade encontrou uma saída: em tempo recorde, vacinas foram desenvolvidas e permitiram a retomada da vida normal. Com a inteligência artificial, o paralelo é tentador, mas a diferença é fundamental. Não existe vacina contra esse vírus. Não há antídoto que recrie, em volume suficiente, os postos de trabalho que serão eliminados — especialmente para uma geração jovem que ainda está entrando no mercado. A ideia do economista John Maynard Keynes, de pagar pessoas para cavar buracos e depois tampar, pode soar absurda, mas representa, metaforicamente, o desafio que os governos enfrentarão para manter a coesão social numa economia onde o trabalho humano perde espaço de forma estrutural e acelerada.

A questão que se coloca não é se a inteligência artificial irá transformar o mercado de trabalho — isso já está em curso. A questão é se as sociedades serão capazes de construir respostas à altura da velocidade dessa transformação. Por ora, o vírus avança. E a vacina ainda não foi inventada.

 

Análise Técnica

No post “o-que-fazer-com-os-juros” aventei dois cenários para a Nasdaq 100, sendo que um deles prevaleceu:

“a) A correção terminou – Neste caso, temos a considerar o seguinte: o término da onda (2) vermelha, conforme indicado no gráfico somente a título de ilustração; a sequência de correção A – B – C em azul foi “by the books”, um ponto a favor. Por último, é necessário superar a área destacada em verde entre 25.428 – 26.182” ...

“A Teoria de Elliott Wave é fantástica em situações como essa, de dúvida; basta seguir os parâmetros e verificar o que o mercado quer fazer para que você se posicione. Os fundamentalistas estão todos apontando que o acordo de cessar-fogo é frágil, mas o mercado, por enquanto, enxerga de outra forma. Se ainda é apenas a liquidação das posições vendidas, como comentei no post “alta-por-osmose”, ou uma nova sequência de altas, saberemos em breve.”

 


Um leitor me questionou por que não havia entrado no mercado e enfatizou, em outras palavras, que “perdi o bonde”. Reforçou que, no passado, quando ocorreu esse tipo de reversão, a bolsa subiu nos meses seguintes. Sempre digo que ex post eu estaria milionário. A recuperação foi uma das mais intensas da história, como comentei no post de ontem.

Porém, esse leitor me fez repensar se todas essas evidências não seriam suficientes para arriscar uma compra. A Nasdaq 100 ultrapassou a barreira que mencionei acima, de 26.182, e, na minha contagem, estaríamos entrando na onda (3) vermelha — a mais potente. Resolvi entrar na abertura de hoje a 26.333, com stop loss em 25.845. Agradeço esse leitor que me “cutucou”.

O primeiro objetivo seria 36.122, uma alta nada desprezível de 36%. E, veja, é a mínima — lógico que não será amanhã, pois essa onda deve durar um bom tempo. O modelo aponta até julho de 2027. Vamos um passo de cada vez.

 


Em relação à Nvidia, comentei:

“O caso da Nvidia é muito semelhante ao comentado acima sobre a Nasdaq 100, com algumas diferenças: a mínima atingida foi de US$ 164, ficando bem acima das mínimas esperadas, conforme os níveis destacados no retângulo em rosa. A área destacada em verde está mais distante dos preços atuais. A recuperação até agora está no meio do caminho, enquanto a Nasdaq 100 avançou mais.”

 


A Nvidia ainda não ultrapassou a área destacada no gráfico, cujo limite seria US$ 211, mas, usando o mesmo raciocínio da Nasdaq 100, e assumindo essa hipótese — ainda uma hipótese —, o objetivo inicial seria US$ 400, uma alta de 100%. Se isso ocorrer, a Nvidia será a ação mais amada da história americana. Lógico, até que surja uma nova. Sempre é assim.



Hoje peguei pesado no assunto de empregos, mas não poderia ser diferente. Com essa ameaça batendo à porta dos mais jovens, é uma preocupação legítima. Mas será que não será criado nenhum emprego novo? Quais os setores mais afetados?




No primeiro gráfico acima, a função de engenheiro de software está em alta demanda — é para lá que se deve ir. Já em relação aos setores mais afetados, bem como à importância dos salários nas receitas, deve-se evitar o topo à direita e ficar mais confortável na parte inferior à esquerda. Como se pode ver, quem se adaptar terá sua recompensa. Em mudanças estruturais, agir para se adequar é fundamental.

 


O S&P 500 fechou a 7.119, com alta de 1,11%; o USDBRL a R$ 4,9847, com queda de 0,17%; o EURUSD a € 1,1780, sem alteração; e o ouro a U$ 4.857, com alta de 1,38%.

Fique ligado!

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