Alta por osmose #IBOVESPA

 


Antes de qualquer análise, vale explicar o título. Uso a metáfora para descrever um movimento passivo, sem mérito intrínseco, conduzido por uma força externa: a pressão dos vendidos que precisam cobrir posições. O mercado não sobe por convicção profunda ou melhora estrutural. Ele sobe por osmose.

Todos sabemos que se instalou um cessar-fogo de duas semanas entre Irã, Estados Unidos e Israel, com a reabertura do Estreito de Ormuz. As condições, porém, estão longe de serem favoráveis. A contraproposta iraniana revela um acordo que prioriza ganhos imediatos para Teerã, mas deixa o horizonte carregado de incertezas.

 


Os Estados Unidos não tinham margem para prolongar o impasse. Trump precisava de uma vitória concreta antes das eleições de meio de mandato e, pela legislação americana, após 60 ou 90 dias de conflito seria obrigado a buscar autorização formal do Congresso. O prazo imposto forçou a aceleração.

O otimismo que vemos agora não nasce de uma solução definitiva. Ele nasce de posições técnicas extremas. A compra de puts atingiu níveis recorde e o sentimento dos investidores estava profundamente negativo. Qualquer notícia positiva bastaria para deflagrar a cobertura em massa dessas posições. É exatamente o que estamos prestes a testemunhar.

 


Como eu havia elencado no post de ontem, as opções para o desfecho da data limite eram limitadas. O cenário que se materializou foi o menos esperado: um acordo meia-boca. Alívio imediato no curto prazo, sem qualquer garantia de normalidade no longo prazo. O pedágio de dois milhões de dólares por navio que o Irã pretende cobrar no Estreito de Ormuz é oneroso para o comércio global, mas representa, para Teerã, um fluxo de receita mais estável e lucrativo do que a própria venda de petróleo.

A reação dos mercados foi imediata e brutal. O petróleo registrou a maior queda diária desde a pandemia, refletindo o alívio por evitar um conflito que ameaçava o suprimento mundial de energia.

 


Essa queda não foi isolada. Ela se enquadra entre as maiores correções diárias do Brent desde 1990. O padrão atual lembra o de 1991: choque inicial seguido de correção rápida, sem embargo prolongado como o de 1973.

O alívio se espalhou para os ativos de risco. Futuros de ações americanas dispararam. O dólar perdeu força como ativo de refúgio. No front econômico doméstico americano, os dados recentes reforçam a resiliência subjacente. O modelo GDPNow do Atlanta Fed indica crescimento real de 1,3% no primeiro trimestre, pressionado por fatores climáticos temporários, mas com clara perspectiva de rebound no segundo trimestre. O emprego privado mostra recuperação consistente no momentum de contratações. As encomendas de bens de capital não aeronáuticos mantêm tendência de alta sólida. As expectativas de inflação de longo prazo permaneceram ancoradas, mesmo com o pico temporário nos preços da gasolina. E o consumo continua forte, com o índice Redbook de vendas no varejo avançando 7,6% ano a ano.

 


Essa combinação de dados robustos permite reduzir a probabilidade de recessão a patamares baixos e manter a meta ambiciosa para o S&P 500 até o fim do ano. O Federal Reserve deve tratar o choque de oferta como transitório, sem necessidade de cortes adicionais de juros no restante de 2026.

Ainda assim, a cautela é obrigatória. Um cessar-fogo de duas semanas não é paz. O Irã pretende cobrar taxas pela passagem no estreito, o que pode abrir precedente perigoso de nacionalização de facto de uma via marítima internacional. Questões centrais seguem abertas: garantias contra-ataques futuros, suspensão completa de sanções, compensação por danos, desmantelamento verificável do programa nuclear e o futuro das alianças regionais. O regime iraniano mostrou mais disposição para compromisso do que o consenso previa, mas o mundo permanece, em última análise, dependente da estabilidade interna de Teerã.

O mercado sobe, sim. Mas sobe por osmose. A força motriz não é uma solução duradoura, e sim a necessidade técnica de cobrir posições vendidas em um ambiente de pessimismo extremo. O alívio de curto prazo é real e deve se prolongar enquanto as negociações avançarem. O teste verdadeiro virá quando o prazo de duas semanas expirar e for preciso transformar trégua em acordo permanente.

Enquanto isso, sigo acompanhando cada movimento com a mesma disciplina de sempre e deixando a análise técnica guiar as posições nos mercados.

 

Análise Técnica

No post *jogatina-planetaria* fiz os seguintes comentários sobre a Ibovespa:

“O mercado se movimentou de acordo com minhas premissas acima, sem, contudo, sabermos qual das duas opções irá ocorrer. O fechamento de ontem, em 187,3 mil, está muito próximo do primeiro limite apontado de 188 mil. Nessas duas opções, a bolsa deveria reverter e começar a cair.”

 


Aguardei a abertura do mercado para ter uma ideia melhor. Neste momento, encontra-se no limite da máxima histórica. O que pode acontecer daqui em diante? Duas possibilidades básicas: a primeira é que se trata de um
false break e poderia levar a bolsa de volta aos 175 mil; se este for o caso, vale uma compra ao redor desse nível. A segunda é que o movimento de alta está em curso. Observando o gráfico diário, não é visível a formação de cinco ondas de alta.

Fui observar em janelas menores e parece que ainda falta um mini movimento de alta para, depois, uma correção ocorrer.

Botton line: o mercado é de alta; falta escolher o momento de entrar.



O S&P 500 fechou a 6.782, com alta de 2,51%; o USDBRL a R$ 5,1034, com queda de 0,99%; o EURUSD a € 1,1661, com alta de 0,57%; e o ouro a U$ 4.725, com alta de 0,38%.

Fique ligado!

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