O pragmatismo do dinheiro #USDBRL
Eu sempre
digo que o dinheiro não leva desaforo. Essa regra simples guia o bom investidor
e separa quem navega pelo mercado com consistência de quem se deixa levar por
modismos passageiros. O mercado, de tempos em tempos, se afasta dessa premissa
e adota narrativas que ganham popularidade, mesmo quando os fatos apontam na
direção oposta.
Mais
recentemente, a tese dominante era clara: as ações de tecnologia americanas
estavam caras demais. O movimento prudente seria realocar para empresas de
valor e direcionar recursos para o exterior, com ênfase na Ásia. Como
consequência direta dessa convicção, a bolsa americana registrou retorno
inferior aos segmentos de valor e aos mercados asiáticos ao longo de 2025 e no
início de 2026. A ideia ganhou o rótulo de “Venda da América”. Com a eclosão da
guerra, houve um recuo parcial dessa narrativa, mas nada que sinalizasse uma
reversão de tendência estrutural.
Como
subproduto, o dólar perdeu terreno frente a outras moedas e diversos analistas
passaram a anunciar a derrocada iminente da moeda americana. Os dados, porém,
não corroboram nem uma nem outra tese. Os Estados Unidos seguem sendo o
ambiente de maior rentabilidade consistente. De todas as instituições que
acompanho, a única que manteve posição inalterada sobre o mercado americano foi
o Goldman Sachs. Em posts anteriores, destaquei exatamente esse ponto ao tratar
de “SexTech-o-caro-que-fica-barato” e “Acabou-moleza”.
Na verdade,
nunca existiu uma operação de “Venda da América”, assim como não existe hoje
uma “Proteção da América”. Conforme Robin J. Brooks, os fluxos de portfólio
estrangeiros para títulos do Tesouro americano, dívida corporativa e ações
alcançaram o maior patamar em mais de 25 anos. Os aportes são especialmente
robustos em dívida corporativa e em ações, e na maioria dos casos sem proteção
cambial. O recente fortalecimento do dólar reforça que a moeda americana não
perdeu seu status de ativo de refúgio.
Enquanto a
narrativa asiática perdia força, os números da China confirmaram o ceticismo.
Conforme Jeanny Yu, da Bloomberg, as empresas de tecnologia chinesas divulgaram
o pior crescimento de lucro trimestral em três anos. O Índice Hang Seng de
Tecnologia registrou queda de 30% nos lucros nos três meses até dezembro, o
desempenho mais fraco desde 2022. Analistas revisaram para baixo as estimativas
de lucro para o setor, questionando a capacidade de monetização dos
investimentos massivos em inteligência artificial e a eficácia das políticas de
“anti-envolvimento” do governo em conter a competição predatória.
O que vemos é
um clássico puxa-puxa entre a relação preço/lucro e o lucro por ação. Conforme
Ed Yardeni e Toby Hearst, o múltiplo preço/lucro projetado do índice S&P
500 caiu do pico de 23,0 em outubro passado para 18,9 na semana anterior, uma
compressão de 17,8%. No mesmo intervalo, os lucros projetados subiram 13 % e
atingiram patamar recorde. Os analistas não alteraram as projeções de primeiro
trimestre apesar da guerra e elevaram as estimativas para o segundo, terceiro e
quarto trimestres. Os lucros operacionais projetados do S&P 500, do S&P
400 e do S&P 600 seguem em trajetória ascendente, com ampliação de
abrangência setorial.
Os “insiders”,
que haviam ficado cautelosos na terceira semana da guerra, voltaram a comprar
agressivamente nas últimas duas semanas de queda de preços, conforme
atualização de Michael Brush citada por Yardeni.
O pragmatismo
do dinheiro, portanto, continua valendo. As narrativas de realocação para valor
ou para a Ásia não resistiram aos dados. Os fluxos estrangeiros mostram que o
mundo não está abandonando os Estados Unidos. A China frustrou as expectativas
de recuperação tecnológica. E o mercado americano, mesmo em meio à guerra,
oferece hoje valuation atraente sustentado por lucros em expansão recorde.
Quem segue o
dinheiro — e não a retórica — sabe que o desaforo, cedo ou tarde, cobra seu
preço. O resto é ruído.
Análise Técnica
No post “o-serial-killer-do-mercado” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
“Observem
no gráfico abaixo que a maioria dos dias da semana passada o nível de abertura
e fechamento foi quase igual. Durante o dia houve uma pequena oscilação, mas
que teve efeito zero — uma indefinição no curto prazo”... “vou aguardar com as
mesmas hipóteses acima, mas acreditando que o mais provável ainda é uma queda
ao redor de R$ 5,00”.
A guerra em andamento não assustou os investidores, que continuam apostando na queda do dólar. Os argumentos do post de hoje corroboram nesse sentido. Mas existe uma data imposta pelos EUA para o término do conflito em termos negociados e esse dia é amanhã, no final do pregão. Segundo as palavras de Trump, caso não seja alcançado, vai transformar seu oponente em pó usando a linguagem de mercado.
Existem duas
possibilidades: ou se alcança algum cessar-fogo, no mínimo, ou os EUA não têm
como recuar. No mercado de apostas, a probabilidade de um término para 30/06 é
de somente 30%. Notem que a data é muito à frente de amanhã! Em todo caso, o
mercado de dólares não está preocupado, por enquanto!
Por outro lado, do ponto de vista técnico, está muito próximo de atingir seu objetivo ao redor de R$ 5,00, e se minha contagem estiver certa, poderá ocorrer um ponto de inflexão nesse nível. Mas, por enquanto, isso são só conjecturas.
O S&P 500
fechou a 6.611, com alta de 0,44%; o USDBRL a R$ 5,1452, com queda de 0,19%; o
EURUSD a € 1,1543, com alta de 0,21%; e o ouro a U$ 4.654, com queda de 0,47%.
Fique ligado!
Comentários
Postar um comentário