O "Serial Killer" do mercado #USDBRL

 


Você odeia “drawdowns”. Eu também. 

Aquele momento em que seu investimento cai 20 %, 30 %, 40 %… e parece que nunca mais vai parar. Você fica olhando a tela, o coração acelera e a mente começa a questionar todas as decisões que tomou até ali.

A gente costuma culpar dois vilões famosos: 

1. Retorno médio baixo (o mercado simplesmente não rende o suficiente). 

2. Volatilidade alta (os preços sobem e descem feito loucos, deixando todo mundo enjoado). 

Mas existe um terceiro assassino que age nas sombras e que quase ninguém menciona. Ele é responsável por transformar quedas ruins em quedas verdadeiramente catastróficas. E o pior de tudo: ele não aparece em nenhum gráfico de volatilidade que você costuma olhar no home broker ou nos relatórios dos assessores.

O nome dele é simples: o jeito como os retornos se agrupa no tempo (a famosa correlação serial ou autocorrelação de primeira ordem dos retornos).

Pense assim: imagine um ativo que todo mês tem 50 % de chance de subir 20 % e 50 % de chance de cair 10 %. No longo prazo, ele rende em média +5 % ao mês. Parece um investimento “normal”, bem parecido com o comportamento histórico do mercado de ações.

Agora vem a pegadinha que quase ninguém percebe: o que realmente importa não é só a média. Importa a sequência desses retornos. 

- Se os meses bons vierem todos seguidos e os ruins também vierem todos seguidos (agrupamento), você pode perder até 41 % do seu dinheiro antes de começar a recuperar. 

- Se os meses bons e ruins se alternarem direitinho (um sobe, outro desce, um sobe, outro desce), a maior queda fica em apenas 10 %.

Mesma média de retorno. Mesma volatilidade. Mas a dor é quatro vezes maior só por causa da ordem dos eventos. É como jogar cara ou coroa, mas em vez de alternar, você tira cinco caras seguidas e depois cinco coroas. O resultado final pode até ser o mesmo, mas durante o caminho você passa por um verdadeiro inferno emocional e financeiro.

Esse agrupamento de retornos ruins é o “serial killer” silencioso dos investimentos.

 



 O que rolou de verdade na crise de 2008

Vamos sair do exemplo teórico e olhar o que realmente aconteceu no mercado americano.

Em 2008-2009, durante a Grande Crise Financeira, o mercado caiu quase 50 %. Todo mundo lembra da volatilidade absurda, dos dias de interrupção automática do mercado e do pânico generalizado. Mas o que poucos percebem é que a queda foi muito pior porque os meses ruins vieram um atrás do outro. Os retornos se agruparam de forma brutal.

Pesquisadores pegaram exatamente os mesmos 60 meses de retornos de 2007 a 2011 (mesmos números, mesma média, mesma oscilação diária) e só reorganizaram a ordem para que os bons e ruins se alternassem mais.

Resultado? A queda máxima caiu de -50 % para -34 %.

Mesmos números. Mesma crise. Só mudando a sequência, a dor diminuiu quase um terço. Isso prova que não foi só “o mercado ficou volátil”. Foi o mercado ficou volátil e os dias ruins resolveram vir todos juntos, formando uma sequência implacável.

 



Por que isso importa para você hoje?

Porque a maioria das pessoas — e até muitos assessores de investimento — olha apenas para retorno médio e volatilidade. Eles montam portfólios achando que estão controlando o risco de forma completa. Mas ignoram completamente esse terceiro fator: o risco de o mercado entrar em “modo sequência ruim” por meses ou até anos seguidos.

E é exatamente isso que transforma uma correção normal em uma queda profunda que faz você querer vender tudo no fundo do poço, muitas vezes no pior momento possível. Pior ainda: esse agrupamento costuma acontecer justamente nos piores momentos — quando o retorno médio cai e a volatilidade sobe. É como se o mercado colocasse alavancagem extra na sua desgraça, tornando tudo ainda mais doloroso.

 

O que você pode fazer na prática?

1. Pare de olhar só volatilidade. Volatilidade mede o tamanho dos movimentos. O agrupamento mede quanto tempo esses movimentos ruins ficam juntos. São coisas diferentes e igualmente importantes.

2. Tenha um stop loss bem definido. 

   Vocês já notaram que eu nunca sugiro nenhum trade sem associar um stop loss? Durante toda a minha vida profissional, minhas maiores perdas aconteceram exatamente quando, por algum motivo – e foram vários –, não tomei esse cuidado. 

   Quando você não coloca o stop loss, podem ocorrer três situações: 

   - O mercado recupera e, na grande maioria das vezes, você liquida com um lucrinho (não quer mais passar sufoco nesse ativo). 

   - Você vira torcedor e vai amargando cada vez mais prejuízo, preso na ideia errada de “já caiu tanto, só pode subir”. 

   - Ou vende quando não aguenta mais e, provavelmente, não volta nunca mais para esse mercado (e “nunca mais” não existe – no futuro você pode querer recuperar o que perdeu). 

    Agora, se você adotou um stop loss dentro dos seus parâmetros, pode voltar tranquilamente a esse mercado, como ocorreu conosco no S&P 500 em janeiro e fevereiro. 

3. Prefira estratégias que naturalmente evitam esse tipo de agrupamento. Algumas estratégias (como momentum ou estratégia seguidora de tendencia) tendem a ter retornos muito agrupados. Outras (como value profundo ou certas estratégias de reversão) ajudam a quebrar esse ciclo e reduzem a queda máxima de forma significativa.

4. Pense no seu horizonte real de investimento. Se você é investidor de longo prazo e nunca vai precisar vender, a queda máxima é só um número na tela. Mas se você precisa do dinheiro nos próximos 5-10 anos (aposentadoria, faculdade dos filhos, reserva de emergência), esse “serial killer” pode virar um problema real e concreto.

5. Tenha um plano antes da próxima crise. Quando o mercado começar a cair e os retornos ruins começarem a se acumular, você já precisa saber: qual é o meu limite de dor? Quanto eu aguento ver cair? Onde eu vou comprar mais? A resposta pronta evita decisões emocionais no calor do momento.

 

Resumo em uma frase

O maior perigo para seu patrimônio não é um único dia de pânico. É uma sequência longa de meses ruins que se alimentam uns dos outros.

Da próxima vez que alguém falar “é só volatilidade”, lembre-se: o problema não é só o tamanho da queda. É o fato de ela não parar.

Fique atento à sequência, não só aos números.

Porque, no final das contas, o mercado não te mata com um tiro. 

Ele te mata devagar… com mil cortes que vêm todos na mesma direção.

 

Análise Técnica

No post “alguém-está-blefando” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

“Do ponto de vista técnico, tentativamente, teríamos o seguinte:

1) Acima de R$ 5,39, e sem que o nível destacado no gráfico, em R$ 5,1711, seja ultrapassado, poderíamos ter cinco ondas de alta no estilo Diagonal. Essa opção não me parece a mais provável.

2) Abaixo de R$ 5,1157, o dólar tenderia a atingir o objetivo aproximado de R$ 5,00. Embora seja o cenário mais factível, não me envolveria para ganhar aproximadamente 2 %.”

 


Observem no gráfico abaixo que a maioria dos dias da semana passada o nível de abertura e fechamento foi quase igual. Durante o dia houve uma pequena oscilação, mas que teve efeito zero — uma indefinição no curto prazo. Tenho pena dos traders que operam nesse mercado: aconteceu o que meu ex-sócio dizia: “nesse mercado os comprados e vendidos perderam dinheiro”.

Como não estamos aqui para adivinhar, vou aguardar com as mesmas hipóteses acima, mas acreditando que o mais provável ainda é uma queda ao redor de R$ 5,00. Se meu amigo quiser apostar fique à vontade, o Mosca não vai!

 


O S&P 500 fechou a 6.343, com queda de 0,39%; o USDBRL a R$ 5,2490, com queda 0,11%; o EURUSD a € 1,1461, com queda de 0,40%; e o ouro a U$ 4.507, com alta de 0,31%.

Fique ligado!

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