O estreito das GPUs #S&P 500
O petróleo do século XX passava por Hormuz. O combustível do século XXI passa por outro estreito.
Enquanto o mundo acompanha com apreensão as
tensões no Oriente Médio e o risco de interrupção do fluxo de petróleo pelo
Estreito de Hormuz, um outro gargalo estratégico começa a se formar
silenciosamente em um lugar muito diferente: o mercado de chips de inteligência
artificial. Hormuz é um dos pontos mais sensíveis da economia global. Por ali
passa cerca de um quinto de todo o petróleo transportado no planeta e qualquer
ameaça de bloqueio provoca imediatamente reações nos preços da energia e nos
mercados financeiros.
Mas existe hoje um outro “estreito” igualmente
decisivo para o funcionamento da economia moderna. Ele não está no Golfo
Pérsico. Ele está no Vale do Silício. É o que podemos chamar de o estreito das
GPUs.
Se você fosse o CEO da Nvidia, teria coragem
de anunciar US$ 1 trilhão em vendas de chips de inteligência artificial até
2027? Não daria um certo frio na barriga ao projetar algo dessa magnitude — e,
convenhamos, tão difícil de cumprir? Para quem observa o fenômeno de fora, o
que realmente impressiona é a escala dos números que passaram a circular na
indústria de tecnologia. Um trilhão deixou de ser um número teórico e passou a
aparecer em apresentações corporativas como se fosse apenas mais uma meta de
crescimento.
Mas talvez a pergunta correta não seja se a
projeção é ousada. A pergunta correta é outra: o que está acontecendo na
economia mundial para que um número dessa magnitude pareça plausível?
A resposta começa na própria natureza da
inteligência artificial. Durante décadas o avanço tecnológico foi relativamente
barato. Bastava software, alguns servidores e uma boa equipe de engenheiros. A
inteligência artificial mudou completamente essa equação. Hoje estamos falando
de centros de dados gigantescos, consumo massivo de energia e chips
especializados capazes de executar trilhões de cálculos por segundo. A IA
deixou de ser apenas software e passou a se parecer muito mais com uma
indústria pesada, dependente de infraestrutura física, energia abundante e
investimentos gigantescos.
[Inserir gráfico — Receita da divisão de Data
Center da Nvidia — resultados da empresa]
Esse novo cenário ajuda a entender o papel que
a Nvidia passou a ocupar. A empresa não vende apenas chips. Ela fornece a
infraestrutura essencial que permite que praticamente toda a arquitetura
moderna de inteligência artificial funcione. Durante mais de uma década a
companhia construiu um ecossistema tecnológico extremamente difícil de
replicar. Hardware especializado, software proprietário e ferramentas de
desenvolvimento criaram um ambiente em que praticamente todo o universo da
inteligência artificial passou a depender da sua arquitetura.
Esse processo gera um fenômeno clássico da
economia da tecnologia: quanto mais sistemas são construídos sobre uma
determinada plataforma, mais difícil se torna migrar para outra. O resultado é
uma forma clara de dependência tecnológica que lembra momentos conhecidos da
história industrial.
No início do século passado, a Standard Oil
dominava o insumo fundamental da economia: o petróleo. Quem quisesse mover
locomotivas, navios ou automóveis dependia daquela infraestrutura. Hoje algo
semelhante começa a acontecer na economia digital. As GPUs se tornaram o
combustível da inteligência artificial. Sem elas não existe treinamento de
modelos, não existe inferência em escala e não existe a infraestrutura que
sustenta a nova geração de aplicações digitais.
Ao mesmo tempo, os maiores grupos de
tecnologia do planeta passaram a investir volumes gigantescos de capital para
construir centros de dados cada vez maiores.
E é aqui que surge uma questão inevitável. Se
o fluxo global de capital está correndo nessa direção — e claramente está — de
onde virão os recursos para financiar essa expansão?
O capital global é grande, mas não infinito.
Quando um setor começa a absorver volumes gigantescos de investimento, outros
setores inevitavelmente acabam perdendo espaço. Em alguns casos, o efeito
aparece também no custo do dinheiro: quanto maior a competição por capital,
maior tende a ser o custo de financiamento. De certa forma, esse processo já
começa a aparecer em alguns mercados. Projetos de centros de dados estão
pressionando redes elétricas, terrenos industriais e sistemas de financiamento
de infraestrutura.
Nesse contexto, a posição da Nvidia se torna
particularmente interessante. Durante a primeira fase da revolução da
inteligência artificial, o foco esteve no treinamento de modelos. Agora começa
uma nova etapa: a da inferência, quando esses sistemas passam a ser utilizados
continuamente por milhões ou bilhões de usuários. Essa transição muda
completamente a escala da infraestrutura necessária. Treinar um modelo exige
capacidade computacional intensa por um período limitado. Operar esse modelo
permanentemente exige uma rede gigantesca de processamento distribuído.
Se essa lógica se confirmar, a demanda por
chips e por infraestrutura computacional pode crescer durante muitos anos. E é
nesse ponto que a metáfora do estreito volta a fazer sentido. Enquanto governos
e mercados observam o fluxo de petróleo em Hormuz, um outro gargalo estratégico
começa a ganhar importância na economia global. Um gargalo que não depende de
navios, mas de chips.
Atravessar esse novo estreito não exige
escolta naval. Exige algo muito mais simples — e muito mais escasso: capital.
Porque, ao contrário do petróleo, GPUs não
estão necessariamente faltando. Você pode comprar. O problema é quanto custa
atravessar o estreito das GPUs.
Ontem, enquanto o mundo acompanhava guerras e
tensões geopolíticas, Jensen Huang conseguiu algo curioso: fez boa parte do
mercado financeiro esquecer momentaneamente esses conflitos e voltar sua
atenção para a empresa que comanda.
Talvez isso aconteça quando uma companhia
passa a controlar o insumo essencial de uma nova revolução econômica.
O mundo continua olhando para Hormuz. Talvez
esteja olhando para o lugar errado.
Análise Técnica
No post “Fed no escuro” fiz os seguintes
comentários sobre o S&P 500:
“A mínima atingida ontem, em 6.636, ficou
muito próxima do segundo intervalo projetado. Depois que Trump anunciou que a
guerra estaria próxima do fim, ocorreu uma reação no final do pregão.
No momento continuo trabalhando com essa
contagem, desde que o limite de 6.524 não seja atingido.
Em tempos de guerra, cada dia é um dia”.
Em todo caso, o limite do stop loss não foi
alcançado.
Como ficamos daqui em diante?
Nenhuma mudança. Porém, a cada vez que a bolsa
atinge novas mínimas, a tese de alta vai se enfraquecendo.
— David, você está me transmitindo
insegurança. Em que se baseia sua tese de alta?
Insegurança está sentindo você — e o mundo
também, o que não poderia ser diferente. Minha tese se baseia na minha
contagem. Mesmo não sendo exatamente “by the books”, também não há nada de
errado nela. Além disso, o fato de a bolsa não ter ganho momentum de queda
reforça a leitura de que estamos diante de uma correção.
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