Quando o dinheiro muda de direção #IBOVESPA
Antes de entrar no tema principal, vale um breve comentário sobre a reunião do Fed de hoje. Não pela decisão em si — que já nasce parcialmente precificada — mas pelo momento que ela simboliza. Jerome Powell se aproxima do fim do seu ciclo à frente do banco central em um ambiente que mudou radicalmente. Sai de um mundo previsível, onde liquidez era abundante e a inflação parecia controlada, para outro em que a política monetária perdeu clareza e o cenário passou a ser dominado por choques externos. Mais do que a decisão, o que importa é o desconforto: o Fed já não consegue oferecer direção com a mesma confiança. E isso, por si só, já altera a forma como o mercado se posiciona.
Dito isso, o ponto
central está em outro lugar. Durante grande parte da última década, investir em
ações parecia uma decisão quase automática. Em um mundo de juros próximos de
zero — e depois, mesmo com juros mais altos, mas ainda abaixo do crescimento
nominal — volumes crescentes de capital passaram a buscar retorno em qualquer
ativo que oferecesse algum prêmio. As bolsas se tornaram o destino natural
desse fluxo. Fundos passivos, poupança de longo prazo, planos de aposentadoria
e investidores institucionais direcionaram trilhões de dólares para o mercado
acionário, criando um movimento praticamente contínuo de valorização.
Mas houve um detalhe
menos discutido nesse processo. Enquanto o dinheiro aumentava, a oferta
diminuía. Desde o início dos anos 2000, o número de empresas listadas nos
Estados Unidos caiu de forma relevante, próximo de 50%. Esse dado,
isoladamente, já ajuda a explicar parte da valorização das bolsas. Mais
dinheiro disputando menos ativos tende a pressionar os preços para cima. Mas a
realidade é mais interessante — e mais importante. Essa redução não foi
homogênea. O que desapareceram foram principalmente as empresas menores,
enquanto as grandes companhias passaram a concentrar uma fatia cada vez maior
do mercado.
Essa dinâmica se reflete diretamente nos múltiplos. Em 2012, o S&P 500 negociava entre 14 e 15 vezes os lucros. Hoje gira próximo de 28 a 29 vezes. Os lucros cresceram, sem dúvida. Mas a duplicação dos múltiplos reflete um desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda. E esse desequilíbrio foi reforçado por um segundo fator, muitas vezes ignorado: as próprias empresas passaram a retirar ações do mercado.
O volume de recompras
atingiu níveis historicamente elevados e, mais importante, se tornou
recorrente. As empresas deixaram de ser apenas participantes do mercado para se
tornarem o maior comprador estrutural de ações. Em outras palavras, enquanto o
investidor aumentava a demanda, as próprias companhias reduziam a oferta.
Esse movimento teve um impacto profundo. Durante anos, as recompras funcionaram como um suporte permanente para o mercado. Não apenas sustentaram preços, mas alteraram a dinâmica de formação de valor. Menos ações em circulação significam maior lucro por ação, maior pressão compradora e, consequentemente, valuations mais elevados.
Ao mesmo tempo, o fluxo
de novas empresas praticamente secou. O número de IPOs caiu de forma relevante
e o crescimento migrou para fora da bolsa. Empresas passaram a permanecer
privadas por mais tempo, financiadas por capital privado. O mercado público deixou
de ser o principal canal de financiamento da economia real e passou a
concentrar empresas já maduras.
O resultado foi um
mercado mais concentrado, com menos ativos disponíveis e maior competição por
capital. Esse ambiente sustentou valuations elevados por mais de uma década. E,
em grande medida, explica por que quedas mais relevantes foram raras e rapidamente
revertidas.
Mas esse equilíbrio
começa a ser testado. Uma nova geração de empresas gigantes pode chegar ao
mercado público exigindo volumes relevantes de capital. IPO não cria dinheiro.
Ele desloca. Cada dólar direcionado para uma nova emissão é um dólar que deixa
de comprar ações já existentes.
Ao mesmo tempo, uma
mudança relevante ocorre dentro das próprias empresas de tecnologia. Durante
anos, gigantes como Apple e Microsoft sustentaram o mercado com programas
massivos de recompra. Agora, parte crescente desse capital está sendo
redirecionada para investimento em inteligência artificial.
E há uma terceira força
disputando o mesmo capital: a dívida pública americana. Durante anos, as ações
praticamente não tiveram concorrência. Esse cenário mudou: o mercado passou a
dividir o fluxo.
Durante muito tempo, o mercado se beneficiou de uma equação simples: dinheiro crescente, oferta limitada e ausência de alternativas relevantes. Essa equação não desapareceu — mas deixou de ser dominante. O capital começou a se dispersar, e mercados não viram quando os dados mudam: eles viram quando o fluxo muda.
Análise Técnica
No post “o-mundo-está-crescendo-credito” fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:
“Dentro das hipóteses
que aventei, a exposta acima começa a ganhar mais peso por dois motivos: a
mínima atingiu 117,6 mil, o que provavelmente rejeita a hipótese de uma
correção menor; e, principalmente, porque a queda que se iniciou a partir da
máxima formou cinco ondas bastante claras, o que leva a esperar uma nova queda
abaixo do patamar mencionado” ... “no curto prazo espero uma alta até a região
de 188 mil pontos, para depois ocorrer um dos possíveis cenários descritos
acima”.
Passada uma semana, ainda não ficou claro qual das correções a bolsa está desenvolvendo (Zig-Zag ou Triângulo, conforme explicado no post acima). Também mencionei que a bolsa poderia subir no curto prazo até 188 mil. É obrigatório que ainda suba até esse nível? Sim e não.
Se a opção for o Triângulo,
os preços tendem a oscilar dentro da figura e, nesse caso, podem alcançar esse
patamar. Se for a opção Zig-Zag, o movimento pode ou não atingir esse
nível.
— David, muito
complicada sua explicação, não é mais fácil dizer que não sabe?
Não sei! Hahaha.
Vamos simplificar: se
ultrapassar o símbolo em azul, as opções de correção ficam em aberto. Se, antes
disso, ultrapassar o símbolo em vermelho, o cenário de Triângulo fica
descartado.
O S&P 500 fechou a 6.624, com queda de 1,36%; o USDBRL a R$ 5,2492,
com alta de 1,06%; o EURUSD a € 1,1416, com queda de 0,68%; e o ouro a U$
4.822, com queda de 3,65%.
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