Acreditando em Papai Noel #S&P 500
Hoje
vou me afastar do assunto mais barulhento do momento. Não por falta de
relevância, mas porque o excesso de ruído costuma esconder o que realmente
importa. E o que importa, desta vez, é comportamento — não geopolítica.
Neste
final de semana encontrei um leitor no elevador e, sem rodeios, ele foi direto
ao ponto: “Que absurdo a queda dos fundos multimercados neste mês de março”.
Fundos que até pouco tempo entregavam retornos razoavelmente estáveis passaram
a registrar perdas relevantes em questão de dias. O espanto não vinha da queda
em si, mas da quebra de expectativa. Aquilo que parecia previsível simplesmente
deixou de ser.
A
conversa evoluiu naturalmente. Ele mesmo antecipou: “Eu sei que você não gosta
desses fundos”. De fato, nunca gostei. E não é por falta de respeito aos
gestores — pelo contrário. Já vivi esse ambiente por dentro e sei exatamente a
pressão que existe ali. Mas justamente por isso aprendi a desconfiar. Em geral,
quando o cenário parece claro demais, é porque os riscos já estão sendo
subestimados.
A
explicação técnica para movimentos dessa magnitude costuma ser conhecida:
posições alavancadas, apostas concentradas, mudanças abruptas de cenário. O
mercado vinha operando sob uma convicção quase consensual de queda de juros.
Quando essa narrativa começou a balançar, o efeito foi imediato e
desorganizado. Não foi a primeira vez — e certamente não será a última. O
problema não está no erro. Errar faz parte do jogo. O problema está na forma
como o jogo é estruturado.
A
indústria de fundos vive sob um incentivo permanente à tomada de risco. A
concorrência não permite neutralidade. Em momentos de baixa volatilidade, o
risco parece desaparecer, e é exatamente nesse momento que ele cresce de forma
silenciosa dentro das carteiras. O gestor é empurrado a aumentar exposição,
muitas vezes além do que seria razoável, porque ficar para trás é um risco tão
grande quanto errar.
É nesse ambiente que surgem decisões que, olhando depois, parecem evidentes. Mas não são. Naquele momento fazem sentido. Afinal, “o que pode dar errado?”. A resposta é simples: tudo pode dar errado. Não é o mais provável, mas é sempre possível. E quando acontece, a assimetria aparece. Os ganhos são apropriados quando o cenário favorece; as perdas, inevitavelmente, recaem sobre o investidor.
Essa dinâmica não é apenas uma percepção. É um fato mensurável.
Os
números são claros e desconfortáveis. Ao longo de 10 anos, a grande maioria dos
fundos ativos não consegue superar seus índices de referência. No Brasil, isso
se repete em praticamente todas as categorias. Em diversos casos, mais de 80%
dos gestores ficam para trás. Isso não é um acidente, nem uma coincidência
estatística. É uma característica estrutural.
O
investidor, no entanto, insiste em acreditar no contrário. Existe uma tendência
natural de buscar histórias que confirmem nossas expectativas. Fundos que
tiveram bom desempenho recente passam a ser vistos como diferenciados. Gestores
articulados ganham status de quase infalíveis. E, pouco a pouco, a percepção de
risco é substituída por uma narrativa de competência permanente.
Mas a
realidade não se curva à narrativa.
O
próprio ambiente de mercado ajuda a alimentar essa ilusão. Em 2025, por
exemplo, os mercados latino-americanos tiveram desempenho expressivo.
O índice da América Latina superou com folga o índice global, criando a sensação de oportunidade evidente. E quando o cenário parece evidente, o comportamento coletivo tende a amplificar posições, quase sempre sem o devido ajuste no risco.
Mais interessante ainda é observar o que acontece dentro do próprio mercado.
A
dispersão dos retornos aumentou de forma relevante. Em teoria, isso favorece a
gestão ativa. Na prática, também amplia o erro. E quando o erro cresce, a
seleção se torna ainda mais incerta. Escolher o gestor certo passa a ser quase
tão difícil quanto escolher os ativos diretamente.
Foi
nesse ponto da conversa que aquele leitor comentou que “gosta de olhar esses
fundos”. A resposta foi direta: então apenas olhe. Porque o problema não está
em acompanhar. Está em acreditar. A crença de que é possível identificar, de
forma consistente, os gestores vencedores não encontra respaldo nos dados, nem
na experiência.
Isso
não significa que não existam bons gestores. Existem. Mas identificá-los antes
— e permanecer com eles ao longo dos ciclos — é um desafio que poucos superam.
No
final, o retorno de um portfólio depende muito mais de decisões estruturais do
que de escolhas táticas. Alocação de ativos, controle de risco, disciplina — é
aí que o jogo é decidido. O resto é ruído. Um ruído elegante, muitas vezes
convincente, mas raramente determinante.
A
tentação de buscar algo além disso nasce de um traço humano básico: a
dificuldade de aceitar o simples. Preferimos acreditar que existe um caminho
mais sofisticado, mais exclusivo. A indústria reforça essa crença. E o
investidor, sem perceber, passa a confundir narrativa com consistência.
Mas os
números não deixam espaço para interpretação. Superar o mercado de forma
consistente é exceção. E exceções não sustentam estratégia.
Por
isso, quando tudo parece organizado demais, previsível demais, é justamente
quando o risco começa a crescer fora do radar. Foi assim agora. Já foi antes. E
será novamente.
No fim,
a conclusão não muda. Não se trata de pessimismo, mas de entender o jogo. E,
uma vez entendido, fica difícil continuar acreditando em histórias bem
contadas. Porque, no mercado financeiro, como na vida, não existe milagre
recorrente — existe apenas a insistência em acreditar que ele exista.
Análise Técnica
No post
“o-estreito-das-gpus”, fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
“A
bolsa acabou revertendo a alta que ocorreu no início da semana e atingiu a
mínima de 6.623, exatamente nos dois níveis expressos no gráfico e muito
próximo da média móvel de 200 dias” ... “Nenhuma mudança. Porém, a cada vez que
a bolsa atinge novas mínimas, a tese de alta vai se enfraquecendo”
Como
comentei acima, “o gato tinha subido no telhado”. Vou comentar aqui um dos três
cenários possíveis:
a) Foi apenas um susto: o cenário
que eu vinha trabalhando ainda seria válido e o índice começaria a subir ao
redor dos níveis atuais, ultrapassando a máxima histórica.
b) Vai dar um suador no curto prazo
(adotado): o mercado estaria completando a onda 4 laranja e poderia retroceder
para 6.048 (-9%) ou mais abaixo a 5.542 (-17%) — vale observar que seria menor
que esses níveis caso se desenvolva em forma de triângulo.
c) O pessoal vai ficar desanimado:
essa opção é um subproduto da primeira, caso a bolsa resolva fazer um pit stop
à la Fórmula 1 — rápido. Decidi separá-los pois, nesse caso, além da queda
poder ser mais expressiva, será também mais demorada. Os objetivos seriam 6.034
(-7%), 5.784 (-12%) ou ainda 5.544 (-15%).
Não
resta outra alternativa agora a não ser observar. Assumir posições neste ponto
é quase como uma loteria — e não estou aqui para arriscar recursos sem
estratégia.
O
S&P 500 fechou a 6.556, com queda de 0,37%; o USDBRL a R$ 5,2697, com alta
de 0,67%; o EURUSD a € 1,1585, com queda de 0,25%; e o ouro a U$ 4.402, com
queda de 0,11%.
Fique ligado!
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